Crítica | The Walking Dead – 6X11: Knots Untie

estrelas 4

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui.

Mais uma vez, depois de No Way Out, foi quase como ver os quadrinhos de The Walking Dead ganharem vida. Normalmente, não sou lá muito afeito a esse tipo de adaptação, já que costumo considerar mais interessante uma boa separação entre as mídias pelas mais diversas razões. No entanto, confesso que, considerando o quão sensacional é este arco das HQs, essa proximidade tende a trazer bons frutos, especialmente depois que Gimple desapontou ao desandar com a primeira metade da temporada.

No entanto, o prólogo de Knots Untie me deu um certo calafrio, com Abraham descobrindo que está apaixonado por Sasha, apesar de continuar um relacionamento com Rosita, por sua vez claramente apaixonada por ele. A proximidade com a revelação do romance de Rick com Michonne certamente contribuiu para a impressão de exagero na formação de casais ou, no caso, de triângulos amorosos, algo que nunca foi, como venho repetindo, o ponto central da série, que costuma tratar dessas questões como plano de fundo, como foi até agora o relacionamento de Maggie com Glenn e, mais recentemente, o de Denise com Tara.

Por outro lado, não é possível simplesmente querermos que relacionamentos deixem de acontecer de forma que haja mais espaço para que mais zumbis sejam mortos e que mais conflitos entre humanos vivos aconteçam. The Walking Dead elabora encima do conceito da “vida normal” em situações limite, ou, melhor dizendo, a “vida tão normal quanto possível diante das circunstâncias” e romances, amores e paixões fazem parte de nossa natureza e precisam ser inseridos no contexto da série de forma mais veemente. Some-se à isso outra questão ainda: Alexandria, pelo momento, está em paz e, na paz, há a reconstrução e o aprofundamento da aparência de normalidade. Mais uma razão para relacionamentos aflorarem. A presença de Jesus e sua promessa de que o mundo dos alexandrinos “aumentará”, com a revelação de que há outras comunidades (ele dá entender que há várias além de Hilltop) põe lenha nessa fogueira da normalidade, já que se estabelece com mais força ainda a esperança de que, guardadas as devidas proporções, as coisas podem voltar a ser como antes. Por isso é que meu receio inicial de exacerbação de “flores,  sorrisos e pombas da paz” começou a desaparecer na medida em que o episódio progredia, com Jesus guiando Rick e sua turma até sua própria comunidade. Pareceu algo natural, bem estruturado dentro da narrativa, que, sem precisar recorrer à muleta do flashback, revela organicamente um pouco mais sobre o que aconteceu com outros personagens – Maggie, Glenn, Sasha, Rosita e Abraham – durante o pulo temporal entre No Way Out e The Next World. Claro, ainda falta vermos o que aconteceu com Carol e Morgan, mas isso provavelmente ficará para outro episódio.

Chegando à Hilltop foi quando minha sensação de dejà vu começou a realmente aumentar, com as páginas da HQs surgindo em minha memória a todo o tempo. O roteiro do episódio continuou a trabalhar os personagens de maneria fluida, colocando Jesus como líder de fato da comunidade e Maggie como a efetiva herdeira de Deanna. Gregory, o chefe de direito do local, vivido por Xander Berkeley, cumpre bem sua função de ambiguidade moral e de fraqueza espiritual, algo que Maggie não perde a oportunidade de aproveitar em magistral sequência na penumbra do quarto do líder. O embate entre os dois foi, sem dúvida alguma, o ponto alto do episódio, que usou a fotografia escurecida contrastando com o exterior iluminado para literalmente refletir a troca de papéis entre os dois. Se, no começo, Maggie foi acuada por um Gregory seguro de si e – pela falta de palavra mais educada – babaca, na sequência do quarto a inversão gradativa do jogo é prazerosa e perfeitamente crível.

E o melhor é que os roteiristas Matthew Negrete e Channing Powell, sob a batuta de Scott M. Gimple, não perdem tempo enrolando o episódio. Toda a situação de Hilltop é revelada e resolvida de forma auto-contida, abrindo espaço para a exploração da estratégia de Rick em seu ataque à Negan. Na verdade, essa velocidade toda é até preocupante, considerando-se que faltam, ainda, cinco episódios para o encerramento da temporada e, segundo tem sido divulgado por aí, o novo grande vilão, a ser vivido por Jeffrey Dean Morgan, só seria realmente apresentado em carne e osso no último episódio. Se isso for realmente verdade, Gimple e sua equipe terão que achar uma desculpa muito boa para que os episódios passem sem que Negan seja apresentado e isso pode ser um problema a julgar pela enrolação a que a série ficou sujeita já na primeira metade da presente temporada. Mas, temos que dar um voto de confiança, não é mesmo?

Michael E. Satrazemis, sensacional diretor de fotografia de, até agora, 28 episódios da série, é o responsável pela direção geral e ele usa seu conhecimento profundo da série para enquadrar com lentes quase naturalistas a nova comunidade, mergulhando na escuridão somente quando trabalha sequências na mansão vitoriana que é o foco de Hilltop. A estratégia funciona bem e, juntamente com a gravidez de Maggie, novamente em destaque, estabelece um senso de perigo palpável, mesmo antes de Gregory ser atacado. Satrazemis, assim, acaba se redimindo do fraco Start to Finish, que encerrou a primeira metade da temporada, ainda que, lá, a culpa tenha sido predominantemente do roteiro perdido.

Knots Untie é o terceiro tiro certeiro na volta da série. O passo rápido dos acontecimentos, a introdução de novos e interessantes personagens e, por incrível que pareça, o uso benigno de relações românticas em prol da narrativa, têm conseguido reerguer a temporada. Agora é esperar para ver como será o conflito entre Rick e Negan (e, nos comentários, peço que marquem SPOILER se forem comentar o que acho que comentarão sobre os quadrinhos…).

P.s. Gostaria muito que, um dia, Gimple liberasse um mapa da região que ele usa em sua série. Assim como aconteceu durante o pastoreio da super-horda de zumbis, fico confuso com as distâncias relativas. Por exemplo, o quão perto – ou longe – fica Hilltop de Alexandria? Como nunca nenhum alexandrino deparou-se com algum “hilltopiano”? E como fica o assentamento de Negan nisso tudo? É uma besteira, eu sei, mas tenho essa curiosidade.

The Walking Dead – 6X11: Knots Untie (EUA, 28 de fevereiro de 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Michael E. Satrazemis
Roteiro: Matthew Negrete, Channing Powell
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.