Crítica | The Walking Dead – 6X12: Not Tomorrow Yet

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui.

Se nos concentramos única e exclusivamente na ação central de Rick e companhia na base dos Salvadores, Not Tomorrow Yet é um excelente episódio da série. A ação é tensa, eficiente e desesperante, com a participação de um significativo número de personagens que não costumamos ver em momentos assim tendo que lidar com situações complicadas, como são os casos de Glenn e Gabriel e até mesmo dos “novatos” Heath e Aaron.

Nesta sequência, a direção de Greg Nicotero e a fotografia de Michael E. Satrazemis, dois dos melhores nomes constantemente conectados com a série, alcançam o efeito que eles costumeiramente conseguem arrancar do espectador: desespero daquele de roer unhas e uma atmosfera massacrante. É particularmente fantástica a escolha de Satrazemis – que ele já usou antes – em colocar sua câmera no meio da ação, permitindo até mesmo que ela funcione direta e claramente como o olhar do espectador ao, por exemplo, deixar a objetiva ficar suja de sangue. A iluminação das externas noturnas e dos interiores sem luz (nos quartos dos Salvadores) é impecável no confronto temático entre o certo e o errado, entre matar ou deixar viver, bastando para isso ver o momento mais importante do episódio, quando Glenn finalmente mata pela primeira vez. Aliás, palmas aqui para Steven Yeun por mostrar, mesmo tendo pouquíssimo tempo à frente das câmeras, aquele misto de dúvida, hesitação e horror em que realmente podemos acreditar, tornando-nos cúmplices do que ele tem que fazer pelo bem maior ao mesmo tempo que nos fazendo condená-lo pelo assassinato a sangue frio. Yeun pode não ter tido muito o que fazer nesta sexta temporada, mas esses poucos segundos redimiram o ator e seu personagem.

A trilha de Bear McCreary foi também muito bem utilizada ao longo do morticínio patrocinado por Rick e sua turma, pontuando a tensão e dando cadência à narrativa que, em grande parte, é sem diálogos. A música do compositor da série (e que também foi/é responsável por excepcionais trabalhos na televisão como o reboot de Battlestar Galactica e Agents of S.H.I.E.L.D.) tem sido parte integrante e crucial de momentos-chave da narrativa agora comandada por Scott M. Gimple e este episódio foi um dos mais recentes que melhor utilizou seu trabalho.

Se eu tivesse que julgar Not Tomorrow Yet apenas pelos aspectos técnicos da referida sequência de ação, talvez minha avaliação o colocasse como um dos melhores da série até agora. Mas, infelizmente, não é assim que a banda toca.

Depois de estabelecer Rick como o sobrevivente do apocalipse zumbi mais paranoico e eficiente da série, Gimple, por intermédio do roteiro de Seth Hoffman, nos pede para acreditar que ele atacaria uma base inimiga depois de ver alguns rabiscos em uma folha de papel feitos por alguém que pode ou não estar falando a verdade ou que pode ou não realmente saber alguma coisa sobre o lugar e as pessoas alvos da operação. Chega a ser patética a tentativa de dar credibilidade à tresloucada ação com aquele minuto de narração em off com desenhos de jardim de infância.

Ainda que Rick tenha tentado dar solenidade à escolha de atacar os Salvadores, reunindo os alexandrinos na Igreja e, como um grande messias (o halo criado pelo vitral da Igreja intensifica esta característica), apresentando seu “plano” e discutindo com Morgan (mais um momento que tenta emprestar verossimilhança à história), a grande verdade é que é difícil – muito difícil – aceitar o que  acontece em seguida. Não é que este crítico já tenha lido os quadrinhos, pois isso não importa na verdade, mas qualquer espectador de 8 ou 10 anos de idade saberia muito claramente dizer que um ataque como o tentado por Rick é completamente insano, sem eira nem beira, contra uma estrutura que muito obviamente não é a principal dos vilões. Um espectador um pouquinho mais velho identificaria a razão: Gimple tem ainda quatro episódios pela frente e precisa enrolar o máximo possível, mas enrolar sem que sangue seja derramado ou que algum tipo de sequência “bacana” vá para o ar poderia gerar desinteresse pela série (uma besteira, pois The Walking Dead tem um público cativo que, aparentemente, veria a série mesmo que Gimple fizesse um crossover em stop-motion de meia temporada com os Ursinhos Carinhosos). A cereja no bolo, claro, é Rick levar Maggie grávida para lá, simplesmente porque “ela quis”, o que é código navajo para “cara pálida mané será refém” (sim, sou 1/8  nativo americano – ou índio, como aprendi na minha época – e sei dessas coisas…).

O resultado é o que vimos em Not Tomorrow Yet: uma irretocável sequência de ação que parte de uma premissa idiota, ou, melhor dizendo, ofensiva aos espectadores da série. Um pouco mais de calma e tranquilidade teria feito muito bem aqui, pois o episódio até pode ter deixado muita gente agarrando a ponta do sofá com toda a força, mas a ação é vazia e trai os princípios estabelecidos pelo próprio showrunner. E nem me venham dizer que Rick mudou depois da invasão zumbi em Alexandria e da morte de Jessie, pois mudar é uma coisa, emburrecer é outra completamente diferente.

Àqueles que ficaram se perguntando, depois do pulo temporal de No Way Out, o que aconteceu com Carol e Morgan, tiveram sua resposta no prólogo do episódio e, não sei se foi rabugice minha, mas eu preferiria ter continuado na ignorância do que descobrir que Carol, agora, é a Coelhinha da Páscoa de Alexandria e que ela tem um romance “bonitinho” com Tobin (Jason Douglas), personagem “indigente-pero-non-troppo” da série. E o mesmo vale para Morgan, que parece um menininho levado que sabe que fez coisa errada e tem vergonha de olhar para as pessoas. Claro que nem estou contando com a reiteração dos romances pré-existentes que já perdi a conta quantos são e que estão começando a me dar nos nervos.

Enquanto escrevia esta crítica, fiquei pensando que peso daria à maravilhosa sequência de ação que, se vista de forma estanque, mereceria (como mereceu) os mais altos elogios, em relação resto. Cheguei à conclusão que, mesmo que a nota acabe não refletindo exatamente o que escrevi, o trabalho de direção e de câmera da dupla Nicotero-Satrazemis merece a maior parte da atenção, pelo que seu peso foi maior no resultado final. Certo ou errado, o que realmente interessa é que Gimple pare de tratar o espectador como alguém que sempre aceitará suas invencionices e parta para fazer algo realmente consistente.

The Walking Dead – 6X12: Not Tomorrow Yet (EUA, 06 de março de 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Seth Hoffman
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.