Crítica | The Walking Dead – 6X13: The Same Boat

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui.

Not Tomorrow Yet definitivamente enquadrou Rick e seu grupo como vilões. E não, não há outra forma de encarar o que eles fizeram naquele entreposto dos Salvadores, já que esfaquear gente dormindo como parte de um acordo comercial não é muito diferente de Negan exigir a cabeça do chefe de Hilltop. A pergunta que o espectador tem que procurar responder agora é “quem é menos vilão?” ou “quem tem mais justificativas para a barbárie?”. Estabelecida essa premissa que, em The Same Boat, é colocada muito claramente em palavras (“vocês não são os mocinhos”), temos um episódio realmente impressionante e que, apesar de tecnicamente ser um filler, é primoroso em sua execução.

Focado única e exclusivamente em Maggie e Carol, capturadas por um grupo de Salvadores que não estava no entreposto atacado por Rick, o capítulo é quase um curta de horror psicológico, com a tensão mantida quase do começo ao fim ininterruptamente e com uma boa dose de violência explícita. Toda a estrutura de The Same Boat é do tipo finalista, ou seja, como se fosse um episódio para eliminar um importante personagem. Maggie, grávida, tinha poucas chances de ser ceifada, mas Carol? Bem, com seu instinto maternal amplificado pela morte de Sam e pela gravidez de Maggie, era muito provável que ela se sacrificasse por um bem maior, não é mesmo? Eu pelo menos vi Carol morrer umas cinco vezes especialmente mais ao final, quando ela lida com Paula (Alicia Witt).

Mas não houve mortes, não do lado de Alexandria pelo menos, o que de forma alguma diminui a qualidade do episódio. Maggie, que nesta sexta temporada teve pouco o que fazer (seu melhor, mas breve, momento até agora foi em Knots Untie, negociando com Gregory), finalmente ganha os holofotes, ainda que Lauren Cohan tenha a difícil tarefa de dividir o palco com Melissa McBride em uma de suas melhores performances da série até agora. Se, de um lado, temos uma Maggie aguerrida, que não deixa pedra sobre pedra, por outro temos uma Carol hesitante, lutando contra seus demônios internos. Sim, ela enganou todo mundo, inclusive nós e Maggie, com sua hiperventilação para demonstrar fraqueza e, com isso, justificar o crucifixo na mão que ela, depois de muito tempo, usa para cortar a fita que a prende. E esse seu “truque” – ela usou algo parecido em Alexandria, vestindo o manto de “senhorinha simpática” para disfarçar suas verdadeiras habilidades -, porém, foi diferente aqui. Carol pode não ter tido um ataque de pânico verdadeiro, mas suas dúvidas foram genuínas. Ela realmente queria evitar ao máximo ter que matar Paula e outros ao final e só o fez impulsionada por Maggie e pelas circunstâncias. Seria a influência de Morgan? Seria o semblante de “vida normal” que ela teve em Alexandria, talvez com Tobin? Seria apenas alguém olhando para seu passado e repensando suas atitudes? Ou seria uma combinação de todos esses fatores?

Seja qual for a resposta – e todas são igualmente plausíveis – o fato é que a humanização de seu personagem durão merece aplausos. E não falo apenas da atuação imbatível de McBride (eu realmente achei que ela estava hiperventilando ali e fiquei em dúvida até o momento em que ela usa o crucifixo), mas, principalmente, na coragem do showrunner de pegar uma personagem adorada pelo público por sua ferocidade (lembram-se de Terminus, com Carol-Ripley?) e que, talvez com exceção de Rick, tenha ganhado o melhor arco de desenvolvimento de personagem em toda a série, e mexer em seu âmago mais uma vez. A Carol durona parece estar abrindo caminho para uma Carol mais compreensiva, mais compassiva. No entanto, como ficou bem claro, não confundam compaixão com ineficiência, pois Carol, mesmo mergulhada em tristeza profunda, continua perfeitamente capaz de fazer o que tiver que fazer para ajudar Maggie e outros, vide o tiro à queima roupa em Chelle e, claro, o churrasco de Salvadores que ela faz no muito bem intitulado kill room. Carol, apenas, deixou cair a carapaça protetiva que ela havia erigido desde a morte de sua filha, permitindo que seu lado humano viesse à tona.

Falando em ferocidade, Maggie revela-se mais do que uma líder de Alexandria. A personagem ganha relevo ao quase que literalmente caminhar na direção oposta da de Carol, mostrando-se como uma assassina fria e violenta em situações extremas como esta. Sua força é vista não só em suas ações, como especialmente nos diálogos. Aliás, assim como a conversa entre Carol e Paula, a conversa entre Maggie e Chelle foram os pontos altos “não-violentos” do episódio, funcionando como um vislumbre da humanidade e da vulnerabilidade por trás de todas as personagens. Pontos para o magistral roteiro de Angela Kang, responsável pelo desesperante Thank You.

Aliás, é interessante notar como as mulheres dominaram o episódio, com o único personagem masculino mostrando-se como o mais bestial entre eles. Dá até uma certa pena que Paula, Chelle e a moribunda Molly (Jill Jane Clements) tenham morrido ao final, pois as atrizes merecem comendas pelo trabalho que fizeram aqui, especialmente Alicia Witt, que conseguiu perfeitamente entremear um passado crível com sua persona durona do presente.

Outro momento particularmente interessante foi o do “nós somos Negan”, que automaticamente me remeteu a Spartacus, com Kirk Douglas. Este aspecto não só cria uma bizarra relação simbiótica entre os Salvadores – todos pensam e agem da mesma forma -, como funciona para proteger a identidade e a lenda do verdadeiro Negan que, não se enganem, existe de verdade no universo de The Walking Dead.

O design de produção do episódio, usando um espaço confinado labiríntico para desnortear o espectador e, porque não, emular o estado psicológico das personagens, remete ao primeiro episódio da franquia Jogos Mortais, o que somente amplifica o ambiente de filme de terror que marca o episódio. A fotografia de Michael E. Satrazemis, em tons amarelados, mas nunca escuros, passam uma sensação de putrefação, de doença que também remete ao estado psicológico de todas as envolvidas no episódio.

The Same Boat, apesar de não ser muito mais do que uma história paralela que funciona como filler para adiar a efetiva e potencialmente triunfal chegada de Negan, é um dos melhores episódios da série. Tenso, bem construído e com atuações de se tirar o chapéu e discutindo questões relevantes, Gimple volta a acertar e a mostrar que The Walking Dead é, quando ele quer, bem mais do que uma história de humanos correndo de zumbis. Agora que só há vilões, resta-nos torcer para os menos maus…

The Walking Dead – 6X13: The Same Boat (EUA, 13 de março de 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Billy Gierhart
Roteiro: Angela Kang
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.