Crítica | The Walking Dead – 6X14: Twice as Far

estrelas 3

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui.

Twice as Far foi, definitivamente, um episódio estranho, muito estranho. Toda a tensão dos dois capítulos anteriores é varrida para debaixo do tapete e a narrativa volta ao dia-a-dia em Alexandria, em uma escolha de roteiro que não parece decorrer naturalmente do que vimos em The Same Boat.

Afinal de contas, o grupo que sequestrou Maggie e Carol estava em comunicação com outro grupo que viria resgatá-los e que acabou virando churrasquinho. As duas personagens testemunharam toda a comunicação e o grau de profissionalismo de Paula e companhia. Considerando que elas contaram (off screen) em detalhes tudo o que aconteceu a Rick, a conclusão mais óbvia dessa história toda era que os Salvadores são muito mais articulados e abrangentes que Hilltop havia dado a entender. Ou será que Rick realmente comprou que aquele seu prisioneiro, que ele burramente executa a queima-roupa, era mesmo Negan? Por que se ele efetivamente achou que matou Negan, esse não é o Rick da série, mas sim um clone emburrecido que acabou de aparecer vindo de uma das séries de super-herói da CW.

A tranquilidade toda que a montagem repetitiva inicial em Alexandria passa não deixa o espectador tirar outra conclusão e isso é muito preocupante em relação a tudo o que aprendemos antes sobre Rick e seu grupo que, não se esqueçam, é composto, ainda, por um militar (Abraham) e um caipira rastreador para lá de esperto quando o roteiro deixa (Daryl), além de muitas outras pessoas calejadas com a experiência em campo, como Carol, Maggie e Glenn. Assim, é muito difícil aceitar que eles simplesmente deram o caso como encerrado e partiram para uma idílica convivência comercial entre comunidades amigas.

Se porventura pudermos, ainda que por um momento, esquecer dessa questão, o episódio continua problemático. Ao focar em dois grupos distintos, a dupla Abraham e Eugene de um lado e Daryl, Rosita e Denise de outro, com um começo e um fim com Daryl e Carol em dois lados opostos sobre a questão do derramamento de sangue, o episódio até tenta apresentar algum frescor na relação dos personagens ainda menores. No entanto, a grande verdade é que, em sua essência, os dois grupos servem para trabalhar a mesma temática: personagens inseguros desejando mostrar que evoluíram.

A conversa de Eugene com Abraham é, de longe, a melhor do capítulo, em que ele equaliza sua situação com um RPG, informando que finalmente chegou na “fase 2”, com o cabelo longo amarrado, sem as costeletas e fazendo de tudo para matar zumbis (o “Zumbi de Ferro”, digo, chumbo, foi uma tirada ótima, aliás). Foi um tanto didático e longo, além de óbvio, mas funcionou pela leveza da situação, mesmo quando ele chega a dispensar os serviços de Abraham, que sai fumegando da futura fábrica de balas que Eugene imagina colocar em funcionamento.

Cabia, então, um assunto diferente ao segundo grupo, que tem em Denise seu Eugene. Mas não é isso que vemos. Nunca tendo colocado os pés para fora de Alexandria, a simpática médica insiste em acompanhar Daryl e Rosita em uma missão completamente aleatória, daqueles realmente tiradas da cartola do mágico. O roteiro de Matthew Negrete, com a direção de Alrick Riley consegue extrair tensão de alguns momentos, criando sustos baratos de filmes de terror de quinta categoria, mas que estranhamente acabam funcionando. Lógico que a isso se segue mais um discurso didático em que Denise tem que explicar a seus dois companheiros tapados o que significa ela estar ali fora tanto para ela quanto para eles e… PIMBA!

Flecha no olho.

Alguém foi pego de surpresa? Acho que todo mundo, não é mesmo? Os falsos alarmes de antes funcionaram justamente para isso, ainda que o uso do trilho do trem tenha sido uma grande deixa do roteiro que, então, revela sua verdadeira intenção. Tudo, absolutamente tudo o que veio antes convergiu para a flecha sangrenta saindo do olho de Denise atirada por ninguém menos do que Dwight, o sujeito que, lá atrás, em Always Accountable, enganou Daryl, levando sua moto e sua besta, usada aqui de forma atabalhoada e errando o alvo. Ele, agora, parece fazer parte dos Salvadores, ainda que isso não tenha ficado completamente claro na sequência em que eles novamente são postos a correr, mas que deixa claro que eles já sabem que há uma cidade em algum lugar esperando para ser dominada.

Nada me tira da cabeça que o roteiro de Negrete foi construído a partir dessa cena, ou seja, a partir da ideia provavelmente ventilada em uma mesa tendo os produtores e showrunner ao redor, sobre uma morte chocante para Denise. Todo o resto foi como colocar penduricalhos para fazer o episódio chegar ao tempo regulamentar, mesmo que tais penduricalhos não tenham sido de todo inúteis, apenas redundantes e arrastados. A circularidade do roteiro, trazendo Dwight de volta (algo que havia sido anunciado indiretamente pelo ressurgimento da moto de Daryl), de certa forma lembra a morte de Sam e família no fatídico passeio mortal no meio de zumbis em Alexandria, em que ele ouve a voz de Carol ameaçando-o deixá-lo ser comido pelos desmortos, o que acabou precipitando a carnificina. Essa volta ao passado é importante à série, já que dá relevância a ações – ou inações – dos personagens e forçando o espectador a pensar sobre cada uma delas.

Entre idas e vindas, problemas aqui e ali, Twice as Far é, como disse, um episódio atípico. Mas não um atípico ruim, ainda que também não seja tão bom. Estaria mais para, digamos, “exótico”, quase que uma experimentação por parte de Scott M. Gimple, com aquele característico aroma especial de filler.

Agora faltam só mais dois episódios!

The Walking Dead – 6X14: Twice as Far (EUA, 20 de março de 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Alrick Riley
Roteiro: Matthew Negrete
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.