Crítica | The Walking Dead – 6X16: Last Day on Earth

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui.

Todo um episódio de mais de uma hora dedicado à triunfal e mais do que aguardada entrada de Negan (Jeffrey Dean Morgan) na série… Em mãos menos hábeis, essa estrutura ruiria facilmente, mas o time composto por Greg Nicotero na direção, que abusa da fotografia em contra-luz (reparem na sequência da conversa entre Abraham e Sasha) e também noturna de Michael E. Satrazemis e se beneficia de um magistral roteiro do showrunner Scott M. Gimple, co-escrito por Matthew Negrete, simplesmente entrega um dos melhores episódios da temporada, quiçá de toda a série e, se duvidar, o melhor encerramento de temporada já colocado na televisão.

E isso tudo depois da mais do que irregular sexta temporada, que, ao mesmo tempo que foi capaz de elevar o nível da série à estratosfera com capítulos  inesquecíveis como First Time Again, JSS e Thank You formando a trinca inicial, o standalone Here’s Not Here, intervalados por outros medianos (Now e Heads Up, por exemplo), mergulhou fundo na inabilidade de se manter a constância narrativa com alguns exemplos sofríveis como Always Accountable, Start to Finish, East, somente para às vezes reerguer-se com The Next World, Knots Untie e, finalmente, The Same Boat.  Mas, depois de Last Day on Earth, o plano maior jaz revelado: Rick foi alçado ao posto de badass arrogante, seguro de si, capaz das maiores barbaridades somente para ser destroçado, pisado, esmigalhado pelo absolutamente fantástico plano de guerrilha psicológica colocado em movimento por Negan e seus Salvadores.

A construção da narrativa nesse ponto, trabalhando muito mais imagens do que diálogos, é claustrofóbica, kafkiana, desesperadora. De Alexandria com sol, o episódio navega cada vez mais para dentro da escuridão, com Satrazemis trabalhando a luz sempre a favor dos crescentes problemas enfrentados por Rick e seu grupo a cada bloqueio de estrada pelos Salvadores. Arriscaria dizer que é como os melhores contos de Edgar Allan Poe, fazendo-nos caminhar não para fora, mas para dentro da cabeça de Rick que, a cada novo segmento, fica mais sem ação e mais perdido. Tudo  aquilo que aprendemos sobre ele e, pior, tudo aquilo que seus amigos – e ele mesmo, sejamos sinceros! – acha dele mesmo é derrubado como uma fileira de dominós caindo em câmera lenta. O Rick, que, em críticas anteriores, comentei  que estava agindo de maneira impensada, revela-se exatamente isso, um homem que chegou ao ponto de achar que é invencível, mas que, na verdade, tudo não passava de uma mera casca grossa protegendo um ser humano normal, capaz dos mesmo erros e, sim, das mesmas atrocidades que todos nós dadas as circunstâncias exatas.

O triunfo do trabalho de Gimple, aqui, é justamente dar sentido até mesmo aos problemas que detectei em sua temporada, a terceira em que está a frente de The Walking Dead. Ele criou um super-herói falho em Rick, um líder problemático que é completamente desnudado em um dia apenas. Um dia de terror que muitos filmes de terror modernos sequer chegam perto de emular e isso considerando que o uso de zumbis no episódio foi apenas incidental.

Como abri a presente crítica, trata-se de um episódio com o objetivo exclusivo de permitir a entrada triunfal de Negan, mas o ponto é que essa entrada não se resume ao momento em que ele e Lucille aparecem em carne, osso, madeira e arame farpado efetivamente. É muito mais do que isso. Cada fotograma do episódio dedicado ao grupo de Rick é um fotograma que nos prepara para a chegada do grande vilão e cada quilômetro que o trailer dirigido por Abraham avança nos deixa um quilômetro mais perto desse momento exasperante que, quando vem, não desaponta.

Jeffrey Dean Morgan, no pouco tempo em que aparece, mastiga a tela com seu jeito professoral, quase blasé de se apresentar e expor seus motivos e o que ele precisa fazer. O ator, que famosamente vivera o Comediante em Watchmen, de Zack Snyder, parece voltar ao papel que o fez despontar, mas sem aquele verniz satírico necessário anteriormente. Em Last Day on Earth, ele é a encarnação de uma força da natureza em forma humana. É, mal comparando, um Rick evoluído em quase todos os aspectos, mas sem perder, ainda que de longe, a humanidade.

Como assim humanidade? – alguns perguntarão. E eu responderei: sim, humanidade. Negan é, antes de tudo, pragmático. Violento, assassino, cruel, sem dúvida, mas pragmático, muito pragmático. Ele jamais, antes de Rick matar seus próprios Salvadores, fizera algo negativo em relação ao grupo de Alexandria. Sim, houve aquele momento em que um grupo solto tentou levar tudo de Daryl e companhia e possivelmente forçar um acordo, mas não houve derramamento de sangue por parte de Negan ainda que ele não fosse se furtar de assim fazer se fosse necessário. Rick, em seu ato tresloucado e completamente impensado é que agiu fora do script e assassinou a sangue frio gente dormindo. Nesse mundo distópico em que a série se passa, a solução encontrada por Negan – a tortura psicológica para mostrar poder e a morte de um membro do grupo inimigo – parece até branda, justamente porque ele pensa de maneira clara e objetiva. Matar significa menos gente trabalhando para ele. Simples assim. Então, quem é mesmo o vilão da história? Ou melhor, quem é o “menos mau” aqui?

Certamente haverá muita gente reclamando do final que deixa em suspense quem beijou Lucille e eu mesmo confesso que estava preparado para jogar pedras em uma solução dessa natureza. Mas como são as coisas, não é mesmo? Aquele final realmente imbecil e artificial do episódio anterior fica ainda pior depois do cliffhanger de Last Day on Earth, mas o tiro em Daryl foi tão mal executado, tão bobo, que temos que simplesmente esquecê-lo para apreciar o que Gimple fez aqui. Reunindo o elenco principal em uma fileira absolutamente indefesa, todos de joelhos esperando para morrer, o showrunner desmistificou e desnudou tudo aquilo que sabíamos de Rick e seu pessoal. Ele pegou cinco temporadas de construção de personagens e nos disse: “Sabem esse desenvolvimento todo que eles tiveram? Pois bem, não adianta de nada nesse mundo em que realmente só os fortes sobrevivem. E, se vocês estavam confortáveis achando que Rick era o forte, bem… achem novamente.” Simples assim. Cruel assim. Uma coisa é certa, se Gimple caminhar dessa maneira: The Walking Dead nunca mais será a mesma, mesmo que ele decida seguir os acontecimentos das HQs, o que, a essa altura do campeonato, parece ser seu plano macro, mas que não interessa realmente.

Portanto, apesar da improbabilidade, o final em primeira pessoa que nos impede de saber quem é a vítima funcionou e funcionou muito bem, graças ao esforço conjunto de elenco – reparem como Andrew Lincoln, sem falar, vai se curvando mais, vai tremendo mais, vai ruindo diante de nossos olhos em uma interpretação fantástica e exatamente oposta ao também excelente “canto de galo” de Morgan – e equipe técnica. Impossível ficar relaxado diante dos eventos que se desdobram diante dos nossos olhos.

Eu poderia dizer que, mais uma vez, os mais importantes “soldados” de Alexandria entraram todos em apenas um veículo, tornando-se alvos fáceis para uma estratégia como essa. Eu poderia também dizer que isso só aconteceu pela coincidência do problema com a gravidez de Maggie. E eu poderia dizer que isso detrai da experiência como um todo. E não estaria errado. De forma alguma. No entanto, esses problemas só realmente existem porque o resto da temporada usou e abusou de artifícios semelhantes. Tratou seus espectadores como burros ao fazer uso de artifícios baratos para enrolar a temporada até esse ponto. Gimple errou antes, não aqui. Mas a análise, aqui, não é da temporada como um todo, mas sim de Last Day on Earth e, dentro desse balizamento, pouco consigo ver de errado com o episódio em si fora as conveniências do roteiro, mas nada que realmente deponha contra a precisão que é essa descida ao inferno, cortesia de Negan.

Não poderia encerrar essa crítica, porém, sem abordar a história paralela de Morgan e Carol. Essa narrativa, completamente separada do martírio de Rick, é quase que o exato oposto do plano sombrio de Negan. Não que  seja uma história particularmente feliz e alegre, longe disso, mas é a luz em oposição às trevas, a esperança em oposição ao quase nihilismo. Morgan, tentando manter sua regra de respeitar a vida, é obrigado a matar finalmente para salvar talvez a pessoa que ele mais respeite, por entender o sofrimento por que Carol está passando e sua luta para expiar seus pecados, nem que para isso ela tenha que simplesmente entregar-se como ele próprio quase fizera durante seu confinamento por seu sensei. São belas sequências, com direito a cavaleiro em um cavalo branco e salvamentos no último segundo que funcionam para abrir outra linha narrativa para a série como um todo que os leitores das HQs, como eu, sabem qual é, mas que não comentarei em respeito aos que apenas assistem a série.

Last Day on Earth pode não salvar uma temporada errática, mas certamente chega bem próximo ao demonstrar o poder da sugestão, a capacidade de aterrorizar apenas com imagens, com um olhar cada vez mais fechado para uma situação impossível. Gimple mostra que sabe o que faz e que tem um plano para seus personagens, plano esse que parece envolver um certo homem vestido com casaco de couro e portando um simpático taco de beisebol envelopado por arame farpado.

P.s.: Sei que, hoje em dia, é prática comum na televisão a cabo, mas o que a Fox fez em Last Day on Earth com aquele irritante e enorme anúncio amarelo dos Simpsons a cada minuto pipocando na tela foi uma gigantesca falta de respeito com os espectadores.

TEM ENQUETE AQUI EMBAIXO!

The Walking Dead – 6X16: Last Day on Earth (EUA, 03 de abril 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção:  Greg Nicotero
Roteiro: Scott M. Gimple, Matthew Negrete
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, Jeffrey Dean Morgan
Duração: 65 min.

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RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.