Crítica | The Walking Dead – 7X01: The Day Will Come When You Won’t Be

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui. E da série spin-off, Fear the Walking Dead, aqui.

Conversando com meu colega aqui do site Guilherme Coral, ele me fez a pergunta crucial: será que The Day Will Come When You Won’t Be deveria ter sido o final da sexta temporada ao invés do começo da sétima? Afinal, o episódio muito claramente fecha o arco da procura por Negan iniciado na temporada anterior, funcionando, efetivamente, como a segunda parte de Last Day on Earth.

Mas a resposta não é tão simples e confesso que é difícil chegar a uma conclusão definitiva. Pelo menos agora. Um dos grande problemas da sexta temporada foi o abuso de mistérios e cliffhangers por Scott M. Gimple. A falsa morte de Glenn, que foi desnecessariamente mantida em segredo por diversos episódios até a bobagem que foi aquele tiro em Daryl em East, o caminho seguido pela temporada anterior foi claudicante e errático, apesar do sensacional começo com uma sequência de quatro episódios sensacionais. E isso sem falar nas diversas vezes em que o roteiro traiu a lógica de um grupo tão coeso e treinado como o de Rick, fazendo-o atuar em conjunto ou separadamente de maneiras para lá de idiotas, incluindo o ataque completamente impensado aos Salvadores em Not Tomorrow Yet, sem que Rick, em algum momento, tentasse entender o tamanho do grupo rival.

Os erros da temporada é que fizeram muitos detestarem o episódio final que nos deixou no cliffhanger que é o foco exclusivo do episódio de recomeço. Tenho para mim que esse desgosto todo simplesmente não existiria se o mistério sobre o paradeiro de Glenn não fosse arrastado por tanto tempo e se aquela tentativa de suspense com Daryl não existisse. Com razão, mais um cliffhanger pareceu um exagero para muitos. Mas, como mencionei na crítica anterior, Last Day on Earth é muito eficiente em seu propósito – desconstruir Rick -, mesmo que para isso tenhamos que desconsiderar ou fechar os olhos para o que veio antes.

Mas claro que o novo episódio é, de certa forma, mais do mesmo. É inescapável. Se o episódio anterior foi todo erigido de forma a permitir a entrada triunfal de Negan e Lucille, o começo da sétima temporada é o epílogo, a história que encerra de fato um grande arco e revela em detalhes a importância e crueldade pragmática do vilão. Se ele deveria ter ido ao ar há alguns meses ou agora, só o tempo dirá, pois a grande verdade é que tudo depende de como Gimple carregará a série para a frente agora. Será que haverá um pulo temporal? Será que veremos Rick quebrado, domado, trabalhando e fazendo todos trabalharem para pagar os tributos aos Salvadores? Haverá algum plano de vingança? E Ezequiel – personagem que comanda o Reino e que será apresentado muito em breve, como parte do arco narrativo de Carol e Morgan -, será que sua história ganhará desenvolvimento paralelo?

Há muitas perguntas sem respostas ainda. Mas, se Gimple eleger simplesmente “começar de novo”, tenho para mim que, nesse caso, então, esse recomeço deveria sim ter sido o fim da temporada anterior. Caso contrário – caso Gimple decida partir para as consequências diretas e imediatas do capítulo – então essa quebra do arco para servir de começo pode sim funcionar perfeitamente. Só o tempo dirá e nada poderá mudar o que já foi feito. Portanto, sigamos em frente, pois há muito ainda o que falar.

Tendo me mantido longe dos spoilers, apesar de já ter lido o arco dos quadrinhos em que Lucille beija pela primeira vez alguém do grupo de Rick, espantei-me e irritei-me com a morte de Abraham. Afinal, por mais importante que tenha sido para a série, ele não era um dos personagens originais e todo aquele suspense simplesmente exigia que alguém do grupo que vem desde o primeiro episódio da série tivesse seu crânio acariciado por Lucille. Por sorte, Daryl estava lá para socar Negan, em uma atitude muito inteligente e perspicaz. Afinal, o sujeito segurando o bastão pingando de sangue e miolos havia avisado que uma atitude daqueles era inaceitável e que quando Glenn fizera algo parecido antes, ele, em ato de magnânima bondade, havia deixado “de graça” por ser justamente a primeira vez.

Daryl, portanto, matou Glenn. E ainda ganhou uma prisão especial onde espero que ele reaprenda a ser quem ele uma vez foi na série. E a morte de Glenn, claro, foi o grande choque que, na verdade, não chocou ninguém, pois todo mundo estava esperando o fim do coreano bonzinho. No entanto, o roteiro de Gimple vendeu caro esse desenvolvimento, criando toda a situação com Abraham antes, uma jogada inteligente, sem dúvida.

Mas mais inteligente que isso foi a forma como Gimple conseguiu “enrolar” – no bom sentido – a revelação das mortes. Começando aparentemente alguns segundos depois que a tela fica preta e só ouvimos as tacadas de Lucille em Last Day on Earth, a narrativa nos prega uma leve peça e, ao longo do episódio, nos revela que alguns minutos se passaram na verdade, permitindo que todo o evento Daryl>Negan>Lucille>Glenn acontecesse. Ao focar as lentes em Rick, o roteiro acerta no que é realmente mais importante e que já havia começado ao longo do episódio anterior: a destruição psicológica do arrogante líder de Alexandria. O mesmo homem que não hesitou em matar diversas pessoas sem lhes dar qualquer chance de defesa durante a noite, em um ataque não provocado e feito única e exclusivamente para entabular comércio com a comunidade de Hilltop. De certa forma – e já disse isso na crítica anterior – a resposta de Negan é perfeitamente lógica nesse mundo distópico e violento onde a série se passa.

A arrogância de Rick é tanta que, ao ameaçar Negan, ele sequer percebe que está colocando todo o seu pessoal em risco, algo que já havia ficado sobejamento claro com a besteira que Daryl fizera momentos antes (ainda que só venhamos a descobrir depois o que acontecera). Ele está com raiva, é verdade, mas, mais do que isso, ele ainda acha que tem um resquício de controle, algo que Negan, então, parte para retirar em sua breve viagem de trailer até o grupo de zumbis mais próximo para fazer Rick recuperar seu machado, o que acaba estendendo o episódio para além do que ele deveria, em uma dilatação que não funciona completamente. Mas, novamente, há pragmatismo no que Negan faz e, ao não alcançar seu intento na road trip, volta para terminar de quebrar o líder de vez em uma tensa sequência em que a mão de Carl ganha todo o destaque (e quem lê os quadrinhos sabe que mãos cortadas são comuns por lá, o que torna tudo mais possível ainda). Novamente, palmas para a atuação de Andrew Lincoln.

Com isso, Gimple consegue efetivamente criar um bom suspense que, porém, inevitavelmente soa como o final do que ele começara com Last Day on Earth. Mas encaremos dessa forma: lá o objetivo era fazer o “heeeeere’s Johnny” de The Walking Dead e, aqui, o objetivo foi deixar muito claro que tipo de pessoa/monstro/líder/Comediante é Negan. São dois lados de uma mesma e ensanguentada moeda.

Aliás, falando em sangue, vale abordar esse assunto aqui, por razões óbvias. Existem episódios violentos e existem episódios nojentamente violentos. The Day Will Come When You Won’t Be está, claro, próximo da categoria 5 do segundo tipo e, apesar de particularmente não ter absolutamente nada contra um gore aqui e ali, este episódio é daqueles que dá vontade de passar uma palha de aço com sabão de coco na pele depois de todo o sangue espirrar pela tela da televisão. E, por incrível que pareça, é um tipo de sangue pouco característico para The Walking Dead. Claro, a série é muito violenta, mas os grandes momentos assim são os que pouco mostram. Vimos as mortes das duas meninas? Vimos as mortes dos Salvadores por Rick e seu grupo? Vimos a morte da filha de Carol? Esconder é muito mais eficiente do que mostrar na maioria das vezes e The Walking Dead vinha costumeiramente fazendo bom uso desse expediente. Mas aqui não. Gimple abriu a torneira do sangue falso e do CGI e derramou o equivalente de duas temporadas só aqui e com saudáveis (he, he) doses de pedaços nojentos de couro cabeludo e cérebro voando para todos os lados e uma Lucille que não para de pingar. E vejam que não estou nem falando do olho esbugalhado de Glenn que me lembrou da morte de alguns gremlins no clássico de Joe Dante.

Considerando a estupendamente maléfica atuação de Jeffrey Dean Morgan, daquelas que faz os cabelos do antebraço se levantarem, e da eficiente construção de um suspense claustrofóbico pela direção opressiva do excelente Greg Nicotero, cheio de closes fechados e uma fotografia noturna de se tirar o chapéu, as tripas e o sangue aos borbotões me pareceram um pouco demais e, no lugar de acrescentar, detraíram do resultado por estarem deslocados. É isso que os fãs querem ver? Tenho para mim que não. O que os fãs querem – ou deveriam querer – é uma lógica narrativa e plástica uniforme aplicada na série como um todo, algo que não acontece aqui. O nível de sanguinolência visto aqui é muito mais condizente com séries-paródia como Z Nation do que em The Walking Dead.

Se The Day Will Come When You Won’t Be deveria ou não ter encerrado a temporada anterior, só descobriremos um pouco mais para frente. O que ficou claro é que tivemos um poderoso episódio que teve seu impacto reduzido por um momento Negan-Rick arrastado e em última análise só útil para permitir o flashback das mortes e por um gore enxertado para chocar, mas que só revolta. Mas, seja como for, creio que ninguém poderá dizer que a série não recomeçou com aquela “garra” que esperamos de inícios de temporada.

O grande mistério será descobrir como a situação poderá ficar pior do que já está…

The Walking Dead – 7X01: The Day Will Come When You Won’t Be (EUA, 23 de outubro 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção:  Greg Nicotero
Roteiro: Scott M. Gimple
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, Jeffrey Dean Morgan
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.