Crítica | The Walking Dead – 7X02: The Well

estrelas 4

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui. E da série spin-off, Fear the Walking Dead, aqui.

Depois da carnificina explícita e da vilania atroz do episódio anterior, The Well era uma pausa essencial. A escolha de Scott M. Gimple de desacelerar jogando o espectador em um mundo surreal de “fantasia medieval” funciona perfeitamente para que seja possível respirar, fazer a pulsação voltar ao normal e quiçá até esboçar um sorriso.

O roteiro de Matthew Negrete, porém, não nos deixa esquecer de Negan e de seus Salvadores ao estabelecer uma sub-trama relacionada com porcos sendo alimentados com carne de mortos-vivos de forma que fique bem claro que o Reino comandado pelo “rei” Ezequiel nada mais é do que mais um feudo escravo daquele que realmente manda na região. Mas esse momento de tensão e violência é só isso mesmo: um lembrete de que ainda estamos exatamente no mesmo mundo de onde a violência que vimos anteriormente veio e que não é para nossa guarda baixar.

No entanto, Negrete também escreve para aliviar tensão, especialmente com a pitoresca revelação de Ezequiel para Carol em um literal teatro, com direito a pano de fundo pintado com motivos medievais, servo, trono, cajado, rei, linguajar rebuscado e, claro, uma enorme tigresa digital batizada de Shiva. É o momento perfeito para descontrair vendo a reação impagável de Carol (que faz as vezes de nós, os espectadores) a toda aquela absurda encenação, com Melissa McBride mais uma vez dando um show de atuação com sua “Carol-dócil” rindo estupefata e não acreditando no que está vendo. Posso estar exagerando, mas esse foi um dos mais inusitados e melhores momentos de toda a série até agora.

E isso soa até estranho, considerando que os eventos do episódio se passam mais ou menos simultaneamente aos horrores do grupo de Rick nas mãos de Negan e Lucille. Mas por isso mesmo The Well é tão bem-vindo. O roteiro de Negrete é a antítese do que vimos antes e, mais do que isso, o antídoto. Como a chuva-clichê que limpa os pecados do passado de personagens de filmes e séries há tempos imemoriais, o episódio é o banho que precisávamos depois da sujeirada de sangue e cérebro transformados em geleia que vimos em detalhes não uma, mas duas vezes e sempre respingando para fora da tela.

Khary Payton, que entra no elenco como Ezequiel, convence prontamente primeiro como um louco varrido que acha que é rei e, depois, como um homem (não tão)simples que apenas seguiu seu caminho que o levou ao Reino e à posição que ocupa com gosto como um líder necessário para uma comunidade idílica, ainda que bem mais preparada tática e estrategicamente do que Alexandria era antes de Rick lá chegar. Seu vocabulário e sua empostação de voz levam o espectador a sorrir facilmente e, quando ele brevemente volta ao normal para convencer Carol de “ir sem ir”, a acreditar naquela história de zelador de zoológico e amigo inseparável da tigresa que ajudou a salvar. Em poucos minutos, o texto de Negrete e a presença firme, marcante e dominadora de Payton conseguem com sucesso criar um novo personagem, um novo líder e alguém que podemos facilmente vislumbrar como peça-chave para o futuro da série.

Mas não se enganem. A jogada, aqui, é bastante arriscada. Scott M. Gimple já havia ampliado os horizontes geográficos da série levando os sobreviventes dos arredores de Atlanta para Washington D.C., mais especificamente para Alexandria, introduzido os Lobos, os Salvadores e o pessoal de Hilltop que, em retrospecto, não foram, ainda, utilizados em sua plenitude, pois praticamente não conhecemos ninguém de verdade nesses grupos/comunidades. Até mesmo o excêntrico e interessantíssimo Jesus foi esquecido na narrativa que começou a navegar em mares revoltos e inseguros demais em determinada altura da temporada passada. Agora, Gimple traz ainda outra comunidade, uma que parece ser mais complexa do que Alexandria e Hilltop juntas e uma que sabe lidar como os Salvadores de maneira inteligente e estratégica, mas já prenunciando potencial conflito.

O dilúvio de novos personagens só será benéfico de verdade se o showrunner conseguir integrá-los de verdade à narrativa principal e não usá-los apenas como bucha de canhão. Seria muito interessante se núcleos separados fossem abordados separadamente e não necessariamente reunidos como novos agregados ao grupo de Rick. Considerando que há somente Aaron de gente “nova” por lá e mesmo assim ele só aparece quando particularmente conveniente aos roteiros, seria um desperdício fazer o mesmo com, por exemplo, o jovem discípulo de Morgan em seu Aikido e modo de vida (aliás, repararam como o garoto mostra que tem a cabeça mais no lugar do que Rick ao dizer que só poderia determinar se vale a pena atacar os Salvadores se ele souber mais sobre eles? Pois bem…). The Walking Dead poderia abrir o leque de possibilidades justamente com a criação de grupos independentes novos, como, por exemplo, o “grupo de Ezequiel” ou o “grupo de Jesus”, todos interligados por uma ameaça em comum: Negan.

Caso contrário, Gimple será obrigado a novamente esquecer convenientemente de personagens importantes como o próprio “rei”, destruindo o potencial enorme que alguém tão brilhantemente introduzido na série certamente tem. Mas isso é algo para ser visto mais adiante, pois desconfio que, agora, já no próximo episódio, veremos mais de Hilltop, pois potencialmente teremos o foco das lentes de volta ao grupo principal em sua lenta jornada de reconstrução.

Mesmo sobrecarregando o roteiro de texto expositivo, mas que era necessário para colocar o Reino “em pé de igualdade” com a introdução de Negan e trabalhando Morgan ainda em sua linha “não mato nem para comer”, mas já com leves variações e ajustes, o que pode colocar o personagem novamente nos trilhos, Negrete entrega um trabalho complexo e surpreendentemente completo, com começo, meio e fim. Há tempo inclusive para estabelecer um objetivo para Carol, tornando-a possivelmente alguém a ser utilizada narrativamente no futuro como uma “deusa” ex machina.

Novamente na direção, Greg Nicotero, com a vital ajuda de Michael E. Satrazemis na fotografia, estabelece logo de início um ar heroico e fabulesco para o Reino e para Ezequiel, com filtros para suavizar as imagens e uma iluminação que não esconde nada, nem mesmo nas sequências noturnas, além do uso de planos mais abertos para fazer o contraponto ao exato oposto visto em The Day Will Come When You Won’t Be. Até a música pesada de Bear McCreary ganha flautas e cordas usadas discretamente no início para quebrar completamente nossa expectativa e também estabelecer o ar de sonho que é o primeiro contato com a nova comunidade. São episódios antitéticos que se complementam muito bem e nos preparam para o desenrolar da trama.

Gimple acerta mais uma vez neste início de temporada e arrisca na apresentação do Reino logo de cara, expandindo o número de personagens, situações e, claro, possibilidades. Se ele conseguir equilibrar as linhas narrativas eficientemente, poderemos estar diante de uma das mais interessantes temporadas da série.

The Walking Dead – 7X02: The Well (EUA, 30 de outubro 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção:  Greg Nicotero
Roteiro: Matthew Negrete
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, Jeffrey Dean Morgan, Khary Payton
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.