Crítica | The Walking Dead – 7X03: The Cell

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui. E da série spin-off, Fear the Walking Dead, aqui.

The Walking Dead, desde sua quarta temporada, demonstra um traço que pouco vemos em outras séries dramáticas – seus episódios, em geral, focam em um pequeno grupo de personagens, ao invés de trazer uma narrativa picotada que nos entrega um vislumbre de cada indivíduo, como é o caso com Game of Thrones, que contara com uma tenebrosa última temporada (apesar de dois ótimos episódios). Essa estrutura adotada por Scott M. Gimple permite que cada capítulo nos entregue pequenos arcos, histórias com início, meio e fim, que formam o contexto de toda a temporada, a alavancando para a frente muito mais que em doses homeopáticas, como estamos acostumados em outros seriados.

The Cell, como fora o caso de The Well e The Day Will Come When You Won’t Be, faz exatamente isso. Focado em Daryl e sua tortura no complexo de Negan, assistimos os Salvadores tentando, gradualmente, trazer o personagem para o lado deles, enquanto ele é forçado a ouvir Easy Street repetidas vezes (sinceramente eu preferiria ser espancado). Mais que o queridinho dos fãs, o capítulo nos traz um olhar mais cuidadoso sobre Dwight, que estivera na mesma posição que Daryl se encontra agora.

O episódio abre com uma comparação bastante óbvia entre Dwight e o prisioneiro. Enquanto um come um sanduiche elaborado, com direito a salada, mostarda e ovo, o outro come com ração de cachorro. O salvador assiste televisão e Daryl tem de escutar a mesma música ad eternum. É evidente o único caminho plausível a ser seguido pelo personagem, mas ele se recusa a se entregar – obviamente em virtude da morte de Glenn, que é trabalhada de forma sutil durante todo o capítulo, até culminar no choro do homem capturado por Negan. The Walking Dead é uma série dramática e não puramente de ação, são em capítulos como esse que nos lembramos claramente disso.

Dwight ganha uma nítida profundidade, passamos a entender mais as motivações e temores do personagem, sua preocupação com sua ex-esposa, que Negan tomara para si. Ele deixa de ser o típico capanga descerebrado e recebe um tratamento mais humano, que, desde já, nos encaminha para uma possível rebelião dentro dos Salvadores, algo que já começa a ser exibido aqui através de outros personagens secundários. O caminho que Scott M. Gimple pretende seguir já é delineado pela temporada – as peças serão colocadas uma a uma na temporada, compondo o cenário da guerra contra o vilão.

Negan, contudo, que tivera uma ótima introdução, ameaça cair para o patamar de um vilão comum. Seu pior lado já vimos na season première, o que temos agora é uma mera repetição e pior: os monólogos que marcaram o último capítulo da sexta temporada e o de abertura da sétima continuam, nos entregando um antagonista que parece ter sido tirado de um filme de James Bond. Não há mais por que ele continuar falando dessa forma, mas o roteiro parece ter se acomodado nessa questão e sequer nos oferece uma justificativa para ele manter Daryl vivo – ele já fez a escolha não é? Onde está a crueldade exibida no primeiro episódio? Dessa forma, tudo soa como uma conveniência do texto para manter o queridinho vivo.

Não que Jeffrey Dean Morgan não continue nos trazendo uma ótima interpretação, pois ele ainda brilha como o vilão, mas enquanto Dwight ganha uma maior profundidade, Negan permanece na mesma posição estabelecida anteriormente. Claro que ainda estamos no terceiro episódios dos dezesseis totais, mas não podemos deixar de temer pelo futuro do personagem, que arrisca cair na mesmice após seu momento de glória que já nos fora mostrado.

The Cell encerra de forma cíclica, mas não por isso deixa de nos oferecer bastantes elementos que ajudam a compor o cenário desse sétimo ano de The Walking Dead. Com um foco em Dwight e Daryl, aprendemos mais sobre o complexo dos Salvadores e sobre as motivações pessoais de alguns personagens ali presentes. Por outro lado, a forma como o principal antagonista é retratado aqui deixa bastante a desejar, não oferecendo nada de novo e caindo em uma representação bastante clichê de vilões, que soam apaixonados pelas suas próprias vozes, mas permanecem tão rasos quanto foram em suas primeiras aparições. Esperamos que esse cenário se altere nos próximos episódios.

The Walking Dead – 7X03: The Cage (EUA, 06 de novembro 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção:  Alrick Riley
Roteiro: Angela Kang
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, Jeffrey Dean Morgan, Khary Payton
Duração: 45 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.