Crítica | The Walking Dead – 7X04: Service

estrelas 3

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui. E da série spin-off, Fear the Walking Dead, aqui.

Já dizia o sábio que tudo em excesso faz mal. E Service foi Negan em excesso. Tanto excesso que o episódio pareceu durar horas e foi inevitável – pelo menos para mim – recorrer impaciente ao relógio diversas vezes, torcendo para acabar logo.

Sim, Jeffrey Dean Morgan continua muito bem em seu papel. Ele como o Macho Alfa dominando a região e fazendo Rick (Andrew Lincoln, também excelente) de gato e sapato ou, melhor ainda, de “segurador de Lucille”, está realmente impagável. Mas parem e pensem um pouco sobre o episódio de forma macro. O que mesmo ele acrescentou à mitologia do personagem? Em que ele avançou a narrativa geral? O que agora é diferente do que já sabíamos depois do violento The Day You Come When You Won’t Be, que nos apresentou Negan com toda a pompa e circunstância e do quase críptico The Cell, em que Negan foi visto em sua versão mais, digamos, de bastidores, estabelecendo para nós como funciona seu comando quase mítico sobre os Salvadores?

Claro, aprendemos que, debaixo daquela subserviência de Rick, há no mínimo uma nesga de um plano de longo prazo. Afinal, ele afirmou para o cappo di tutti capi que Maggie morrera e até mostrou seu túmulo. Ele, provavelmente, quer que ela tenha sua gravidez em paz ou talvez seja algo mais do que isso (e deve ser algo mais). Mas, de toda forma, o risco que ele assumiu foi enorme e não há como isso passar despercebido por nove meses, pelo menos não em Hilltop. Além disso, sua confissão ao final sobre a paternidade de Judith e sua lembrança de Shane cria um momento dramático realmente interessante – talvez o único do episódio – que não só é catártico como justifica a postura de escolheu adotar diante da ameaça, ainda que, muito sinceramente, essa fosse sua única escolha, além de um possível tiro na cabeça de Negan sem nem abrir o portão logo no começo do episódio (que foi a primeira coisa que me passou pela mente, devo confessar).

Ah, e também vemos Rosita e Michonne chegando a seus respectivos pontos de ebulição, com potencial explosivo agora que Eugene será recrutado para fabricar balas. E o que será que Michonne tem naquela bolsa ao final, quando ela descobre que os Salvadores queimaram os colchões de seu vilarejo por maldade e para mais uma vez mostrar quem manda? Mais armas escondidas de Rick, especialmente depois da constatação de que os Salvadores não tem inventário do que é deles? Em breve saberemos.

Mas, voltando a Negan, pensaram no que sua verborragia interminável significou à série além de ser uma exata repetição do que vimos antes? Sua autoridade absoluta já havia sido estabelecida no episódio de abertura e reiterada em The Cell. Service é bis in idem; é a extensão de uma situação que não nos leva a lugar nenhum. E não estou dizendo que não era importante o primeiro contato de Negan com a população de Alexandria, mas sim que isso não precisava consumir 40 minutos que se passaram arrastando, por melhor que tenham sido as performances de Morgan e Lincoln e por mais que o desfile de Daryl como “escravo” tenha de certa forma doentia me agradado depois de seu arroubo destemperado que transformou a cabeça de Glenn em gelatina.

O roteiro de Corey Reed é uma versão menos tensa e mais previsível do que o próprio Scott M. Gimple escrevera no primeiro episódio, o que acaba diluindo o poder da presença de Negan na série. Diferente da abertura, em nenhum momento senti tensão aqui, em nenhum momento achei que o grande vilão realmente mataria alguém. Tenho para mim que Negan precisa sumir um pouco da série, deixando que sua presença ameaçadora nas sombras ou no “eu sou Negan” repetido como mantra por seus sádicos asseclas, crie sua mitologia sem que ele precise explicar cada detalhe do que ele vai ou não vai fazer pelo menos duas vezes a cada 10 minutos. É como ouvir um disco quebrado.

Estou sendo muito duro? Creio que não. Do jeito que a narrativa aqui foi construída, o episódio poderia muito bem ser classificado como um mero filler, um início de uma descendente que, apesar de não ser ainda preocupante, precisa ser corrigida por Gimple para que ele evite o desgaste do eixo de sua temporada e, principalmente, do novo personagem.

O que realmente vale destaque no episódio é a direção de David Boyd, que empresta um tom quase satírico aos enquadramentos e movimentos de câmera no que se refere ao grande vilão, com zoom outs rápidos, plongées eficientes e a manutenção de uma lente sempre um pouco abaixo do olhar de Negan e acima do de Rick, estabelecendo visualmente a estrutura hierárquica do episódio. Há uma certa piscadela de metalinguagem aqui, estabelecendo Negan quase como se Boyd quisesse mostrar o quão exagerada é aquela teatralidade toda (porque nem mesmo Ezequiel, com sua tigresa e vocabulário de rei, é tão teatral quanto Negan). E a fotografia sempre clara, com cores quase dessaturadas, retira o tom idílico que Alexandria sempre teve e empresta um viés que de longe nos faz lembrar de filmes pós-apocalípticos como os da franquia Mad Max, de certa forma equalizando Negan aos vilões mascarados e insanos que lutam por gasolina no deserto australiano. De toda forma, o tom funciona e fica evidente a construção de um dia-a-dia para os alexandrinos que vai muito – mas muito mesmo! – além da preocupação quase mundana de evitar zumbis e achar comida para sua subsistência. É como viver em um pesadelo.

Mas não há direção e fotografia que compensem os intermináveis monólogos professorais que nós são enfiados goela abaixo pelo roteiro monocórdio. Espero, com todas as forças, que a reiteração do poder de Negan, aqui, tenha sido a derradeira vez por um bom tempo. Caso contrário, o excelente personagem será apenas mais um no meio de tantos, mesmo que este tenha Lucille como inseparável companheira.

The Walking Dead – 7X04: Service (EUA, 13 de novembro 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção:  David Boyd
Roteiro: Corey Reed
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, Jeffrey Dean Morgan, Khary Payton
Duração: 60 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.