Crítica | The Walking Dead – 7X08: Hearts Still Beating

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estrelas 4

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam a crítica de todas as demais temporadas, dos games e das HQs, aqui. E da série spin-off, Fear the Walking Dead, aqui.

Hearts Still Beating marca a primeira vez desde o episódio inaugural da temporada que Negan é usado de maneira realmente eficiente dentro da narrativa. Nada de falatório exagerado, nada de piadinhas que só ele acha engraçadas, nada de ameaças vazias, nada de ficar brandindo Lucille de um lado para o outro. Negan, aqui, é o Negan que vimos em The Day Will Come When You Won’t Be e isso é uma ótima notícia.

E é também uma ótima notícia a forma parcimoniosa como sua aparição é usada. Nós o vemos no começo, momentos depois do encerramento do episódio anterior com direito a uma alteração de aparência para torná-lo mais parecido com sua contraparte nos quadrinhos e ao final, em uma desde já antológica sequência na sinuca com Spencer, o sujeito intragável cuja morte já havia sido telegrafada desde a temporada passada. Ainda que o tiro de Rosita tenha causado um suspense bobo momentâneo (se Gimple tivesse fechado o episódio nesse momento, acho que mandariam cartas-bomba para a produção…), a resolução foi bastante satisfatória, com outra morte aleatória – mas não tanto, pois Olivia, assim como Spencer, já estava há tempos com a “marca da morte” sobrevoando-a – para servir de gota d’água para que Rick finalmente tome uma decisão sobre o que fazer com a situação de Alexandria em relação aos cruéis Salvadores.

Além disso, ainda que o roteiro de Matthew Negrete e Channing Powell tenha feito uso de constantes conveniências narrativas para permitir a convergência quase simultânea das diversas subtramas – basicamente os planos separados do Reino, Rosita e Michonne, além da volta de Daryl -, confesso que a montagem paralela manteve o episódio compassado e razoavelmente tenso de forma uniforme ao longo de toda a projeção estendida de 60 minutos. E isso sem se esquivar de decisões difíceis e frias de Daryl matando o “gordinho” que tem o azar de vê-lo fugindo (dois “gordicídios” em um episódio só!) e Michonne matando sua refém no carro. Dois momentos fortes, vistos off camera, em uma decisão mais do que acertada de Michael E. Satrazemis para dar força à evisceração explícita de Spencer.

Todo o elenco, aqui, funcionou muito bem, até mesmo aqueles que pouco apareceram como Alanna Masterson (Tara), tentando compensar seu tenebroso episódio solo, Seth Gilliam (Padre Gabriel), cada vez mais achando espaço na série e  Xander Berkeley, como o insuportável, mas excelente, Gregory, chefe de Hilltop, com a simbólica maçã sendo usada como uma espécie de “transferência de poder à Maggie”. Com isso, mesmo os destaques tendo ficado com Rick e Aarron no lago de zumbis (que serviu muito mais para introduzir as botas de mais um misterioso personagem que, aliás, aparecem novamente na completamente inútil cena pós-créditos), Maggie, Sasha e Enid em Hilltop e Daryl (e Jesus, nos seus cinco segundos de câmera) em Salvadoresland e que gera a forte sequência em que a arma de Rick é devolvida a ele, além de Negan, claro, há uma clara impressão de coesão maior de todos, de uma convergência temática que há muito estava ausente da série com a insistência de Scott M. Gimple em fazer a temporada andar de lado com cada episódio substancialmente dedicado a um núcleo.

Mas reparem uma coisa interessante. Tentem mentalmente situar o midseason finale em outros momentos da temporada após o primeiro episódio. Com pequenas alterações aqui e ali, ele funcionaria da mesma forma em qualquer momento seguinte à introdução do Reino em The Well. Claro que alguns argumentarão e eu concordarei, que alguns momentos de Hearts Still Beating perderiam sua força sem determinadas abordagens anteriores, mas, em linhas gerais, poder-se-ia dizer muito facilmente que, de oito episódios, apenas os dois primeiros e este agora realmente fizeram a trama caminhar para frente de verdade. Olhando para trás, é fácil notar a intenção de Gimple e o quanto seu esforço poderia ter sido muito mais focado, muito mais ágil do que episódios que se diluíram em poder com eternas repetições. Não se enganem, porém. Ainda é uma temporada acima da média de The Walking Dead, mas é cada vez mais palpável que os ciclos narrativos estão progressivamente menos eficientes em trazer situações novas e diferentes.

De toda forma, voltando ao episódio que marca a metade da temporada, o que temos é um roteiro coeso, bem fechado, lógico e que, perdoando atalhos tomados aqui e ali, cumpre muito bem seu objetivo. O futuro está traçado. Alexandria, Hilltop, o Reino e, em algum momento, Oceanside e possivelmente a pessoa misteriosa que aparece aqui formarão uma frente única contra os Salvadores em uma “guerra total” que ecoará o arco o arco equivalente dos quadrinhos. Quer parecer, portanto, que os planos de Gimple para Negan e companhia são de curto prazo, não necessariamente encerrando essa questão ainda nesta temporada, mas já deixando ao menos tudo mais do que engatilhado para a próxima. Tudo dependerá do quanto ele pretende “enrolar” nos próximos oito episódios.

Com a direção de Satrazemis, que é costumeiramente o diretor de fotografia da série, vemos uma escolha interessante em sua pegada e que compensa o que ele fez em Swear. Fugindo de sua fotografia noturna usual, Satrazemis ilumina bastante o episódio, algo que é acompanhado pelo figurino do próprio Negan que fica alguns momentos sem seu casaco de T-Bird. Há ecos do primeiro episódio da temporada aqui, ou melhor, ecos não, uma verdadeira “inversão”, quase um “negativo” do que vimos por lá e que torna as sequências de violência explícita ainda mais chocantes, ainda que não exatamente surpreendentes. A lenta construção de um semblante de normalidade nas atitudes de Negan para sua explosão ao final – já vestindo seu casaco, que “quebra” o dia bem iluminado em uma externa quase idílica – finalmente mostram que ainda há o que Jeffrey Dean Morgan além de falar pausadamente sem parar. Basta, portanto, um roteiro bem escrito para o ator e o personagem brilharem.

Se Hearts Still Beating é alguma indicação de que Gimple passará a andar mais rapidamente com a história e de que Negan será usado de forma mais contundente e menos paródica, só descobriremos mesmo na segunda metade, pois o showrunner tem se mostrado pródigo em insinuar movimentação somente para retroceder alguns passos. Espero que o ritmo mais acelerado se mantenha e que ele consiga fazer com que a série volte a ter o público que tinha no começo da temporada.

*The Walking Dead volta dia 12 de fevereiro de 2017. E tem ENQUETE aqui embaixo! 

The Walking Dead – 7X08: Hearts Still Beating (EUA, 11 de dezembro de 2016)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Michael E. Satrazemis
Roteiro: Matthew Negrete, Channing Powell
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, Jeffrey Dean Morgan, Khary Payton, Steven Ogg, Debora May, Sydney Park, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Nicole Barré
Duração: 60 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.