Crítica | The Walking Dead – 7X10: New Best Friends

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-off, Fear the Walking Dead.

Obs 2: Após Guilherme Coral substituir Ritter Fan no último episódio dessa série, é a minha vez de entrar no lugar do nosso querido editor, mas dessa vez por definitivo. Mãos a obra.

The Walking Dead já fora, em tempos não tão longínquos assim, uma série séria, em seus devidos lugares, sobre a exploração da condição humana em extremos, como no caso, um apocalipse zumbi. Hoje indo por alguns caminhos mais fantásticos e explosivos e menos introspectivos, o mágico Reino, por ser uma adaptação direta dos quadrinhos e não ser apenas um “E se alguém instalasse uma monarquia fictícia em meio dos Estados Unidos apocalíptico?”, acabou por ser acolhido de bom grado pela mitologia do seriado, e seus fãs assíduos. Mas pode-me dizer: dá para acolher com carinho esse novo grupo, que nada tem a ver com nada?

Após o astuto Padre Gabriel deixar uma pista durante seu sequestro no último episódio, Rick Grimes e sua trupe vão atrás do sacerdote desaparecido e se deparam com mais um grupo de pessoas mentalmente debilitadas pelo apocalipse. Já vimos isso antes? Ah sim, os Canibais. Os Lobos. O Governador. Não podia ser um grupo normal de pessoas como as da Colônia de Hilltop ou as do Santuário (não tão normais assim), não é Scott Gimple? Tinha que ser mais um grupo de esquisitos. Mas não figuras imponentes e amedrontadoras como as citados anteriormente. Só esquisitões, mesmo. Não bastasse isso, leva-se o esdrúxulo a um novo patamar. Não apenas o comportamento é excêntrico, como que fisicamente, todos os membros parecem ter saído de um filme de Tim Burton.

Deixando de lado a sensação de déjà vu (e inquietante perturbação por causa do bizarro cabelo da líder Jadis), não se pode negar que a morada dessa nova comunidade é esteticamente impressionante. Comunidade que é, aliás, uma novidade exclusiva da série não possuindo contraparte nas histórias em quadrinhos. A composição do cenário é deslumbrante e traz um ar fresco à ambientação da série, acostumada com longas rodovias e vastas florestas. Há ressalvas, infelizmente, no uso de computação gráfica para ampliação do espaço que o lixão ocupa. Nas poucas vezes que o recurso é usado é perceptível que estamos diante de uma tela verde, embora a imagem projetada seja rica em detalhes. Temos aqui uma problemática que poderia ter sido evitada com uma simples jogada de câmera mais atenciosa, por mais que o estúdio tenha dinheiro para fazer algo melhor (remete-se também a Shiva, que reaparece nesse episódio, mais falsa que nunca).

Mas vamos falar de coisa realmente boa? Pois bem, o desenvolvimento do núcleo de Rick no lixão é exitoso, com Andrew Lincoln arrebatando outra ótima performance. O fatídico sorriso ao final do último episódio recebe uma explicação deveras razoável, mas o desempenho do ator é suficiente para dar credibilidade às atitudes que o personagem toma. Também estamos a frente de um tenso e desconfortável combate com um dos zumbis mais inventivos em bastante tempo, Winslow. A sequência de combate, que finalmente nos leva a crer em algum perigo para o ex-policial, poderia ser perfeita se não fosse Michonne dando dicas de vitória para Grimes por um tubo (sério roteirista?).

Por falar em Michonne, pelo menos Danai Gurira teve algum papel, de apoio, mas ainda sim fundamental para a exploração de subcamadas em seu par romântico.  Tara, como de costume, está sem nada para fazer. Colocaram-na para participar dessa missão de resgate apenas para os espectadores não se esquecerem dela e para se questionarem como ela resolverá seu dilema com Oceanside, como se alguém ainda se importasse com isso. Pelo menos Aaron, diferentemente de Tara, tem alguma explicação para estar com a gangue. Até Rosita, a personagem feminina melhor explorada nessa temporada até agora, ganhou apenas algumas falas pontuais. Engano meu, o episódio traz alguns ótimos momentos do Padre Gabriel, que já demonstra ser uma das figuras mais bem desenvolvidas no decorrer dos anos, deveras superior a sua versão nas HQs.

No geral, apesar da “tosqueira” de gente cercando a gangue de Rick Grimes, pode se afirmar que o saldo do núcleo do lixão é positivo, por não ter sido descabidamente estendido, como se costuma fazer na série, e por, além disso, ter sido produtivo para o andamento da história, utilizando de utensílios narrativos funcionais.

Contudo, o destaque de New Best Friends está em Daryl e Carol que se reencontram, enfim, depois de mais de meia temporada separados. Os diálogos entre os dois transformam o reencontro em uma das situações mais verdadeiras da sétima temporada até então. O desempenho de Melissa McBride, e até de Norman Reedus, é excepcional e corrobora com a maravilhosa química que os atores tem entre si. O fato de Daryl poupar Carol da revelação da morte de amigos próximos torna toda a situação mais bela e honesta.

Já o episódio em si começa com o encontro para entrega de produtos do Reino para os Salvadores. A reunião é carregada com a possibilidade de desentendimento que acaba previsivelmente se concretizando, levantando os ânimos do sempre alerta Richard. A construção desse personagem está muito boa e a série parece levá-lo para caminhos ainda mais sombrios que os atuais. Seu plano para conseguir convocar Ezekiel para a Guerra Total é, apesar de frio e duro, compreensível e o suspense, criado com Daryl sobre quem seria o sacrifício necessário para chamar a atenção do Rei, é bem realizado.

Em contrapartida, o Reino é recheado de outros pequenos arcos que ou não se movimentam, ou giram em torno de si mesmo. Caso de Morgan, interpretado pelo talentosíssimo Lennie James, que até este ponto não teve oportunidade de ser efetivamente explorado nesta temporada, após o bem feito desfecho de seu personagem na passada. Pensando com cautela, o posicionamento de Morgan sobre a violência já fora previamente justificado, mas em termos narrativos é pobreza não aprofundar ainda mais a mentalidade do personagem (apesar de termos o visto perder sua arma de proteção). Por outro lado, o Rei nem tem a oportunidade de ficar rodando em círculos, pois seu personagem, até esse dado tempo, não teve espaço para traçar mais do que rascunhos hipotéticos.

Assim sendo, New Best Friends é um passo para frente, mesmo que curto, no prosseguimento da trama principal. É também uma considerável evolução na exploração de questões secundárias envolvendo o Padre Gabriel, Carol, Daryl e Richard. Rendem-se alguns ótimos momentos, que decretam a absurda qualidade do elenco da série. Pego por alguns clichês, como a persistência em eventuais briguinhas entre Salvadores e mocinhos, e colocando personagens demais para fazer pouco, a criação de uma nova “amizade” acaba sendo o suporte estrutural desse capítulo. Apesar de a busca por alianças ir amadurecendo futuros bons frutos, pergunta-se: É por esse caminho que o público realmente quer que The Walking Dead caminhe? É realmente preciso alongar uma marcha para a guerra com o implemento de novos grupos, que provavelmente não serão explorados a fundo? Ou o seriado deveria voltar às propostas que tornaram a quarta, a quinta e pedaços da sexta temporada, tão aclamadas?

The Walking Dead – 7X10: New Best Friends (EUA, 19 de fevereiro de 2017)
Showrunner: 
Scott M. Gimple
Direção:
Jeffrey F. January
Roteiro:
Channing Powell
Elenco: 
Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, Jeffrey Dean Morgan, Khary Payton, Steven Ogg, Debora May, Sydney Park, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Nicole Barré
Duração: 
44 min.

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?