Crítica | The Walking Dead – 7X13: Bury Me Here

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estrelas 2,5

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-off, Fear the Walking Dead.

Finalmente, o episódio que todos estávamos esperando. O episódio que iria alavancar de vez a guerra e colocar Ezekiel no combate. O episódio que iria mudar as concepções de vida e morte para Morgan. O episódio que retrataria um reencontro de Carol com seu passado, nem tão distante, sanguinolento. Finalmente. Todavia, um dia desses, passeando pelo Facebook, deparei-me com uma publicação sobre a possibilidade da Netflix adotar diferentes finais de acordo com a escolha de seu espectador. Um dos comentários, que presumia-se ser uma citação do popular quadrinista Alan Moore, dizia:

“Não é trabalho de um artista dar ao público o que o público quer. Se o público soubesse o que quer, ele não seria o público, mas o artista. É trabalho do artista dar ao público o que o público necessita.”

Sem ousar inferir que estas palavras são de fato a verdade sobre a arte, apenas deixo-a para os curiosos pensadores contemporâneos. Quem sou eu, afinal, para ditar o que é ser um artista ou não. Apenas reflita sobre essas três meras frases e rebobine a fita, já bem longa, de The Walking Dead de volta para a sexta temporada, em seu quarto episódio: Here’s Not HereApós passar um longo tempo sozinho, vivenciar a perda de seu filho, acabar por encontrar com Rick, Michonne e Carl, e então começar uma nova viagem a algum lugar, ou então, a lugar nenhum, Morgan, agora “sangue nos olhos” está perdido. Perdido, pois, cria um único objetivo: o de limpar o mundo dos homens e deixá-lo para os mortos. É ao encontrar com um queijeiro, sua história de vida e sua cabra, que Morgan passa por uma experiência nova, não apenas de reencontro com o homem que era antes, mas sim de encontro com um novo homem que ele nunca pretendeu ser. Um homem ainda melhor.

Pode-se parecer piegas, de início, mas Here’s Not Here é, sem dúvida alguma, uma das coisas mais verdadeiras que The Walking Dead conseguiu demonstrar em seus quase 100 episódios, até agora. Infelizmente, o que a série decidiu fazer com esse personagem e esse belíssimo conto de superação é um verdadeiro desapontamento. Não se engane, porém, que gostaria eu de ver o personagem estagnado. Algo tinha de acontecer, sua presença tinha de influenciar o mundo à sua volta, mas não desse jeito. O público geral, e os roteiristas, devem ter vibrado em ver o vosso personagem mais odiado da série tornar-se o homem que eles tanto clamavam por retomar.

Os roteiristas não parecem realmente gostar de Morgan, ou de qualquer discurso em suma positivo. Dale e Tyreese se foram. E agora Morgan encontrou o seu fim. Sua aparência e seu nome ainda podem ter permanecidos, ilesos. Sua essência, contudo, desmorona por completo. E a coragem de Scott M. Gimple em estabelecer um personagem diferente do restante também. De certa forma, essa reviravolta toda era previsível, a série nunca se propôs a buscar simpatia do público para com o personagem, muito pelo contrário. Qualquer chance de rivalizar Morgan com Rick era utilizada, nada de discurso “você estava certo” do ex-xerife para com sua primeira companhia no apocalipse. Indo contra a proposta de Rick em atacar Negan em Not Tomorrow Yet, Morgan provavelmente teria impedido que Abraham, Glenn e outros tivessem morrido. Ou não. Mas certamente as coisas seriam muito menos piores. Rick, em momento algum, relembrou a afirmativa de seu amigo sobre a situação? Melhor dizendo, os roteiristas relembraram dos pressentimentos que Morgan havia feito?

Mas tudo bem. Estamos falando de uma série nos quais os personagem favoritos da grande maioria dos fãs são um sujeito que enfia o taco de beisebol na cabeça das pessoas, um homem que com sua própria boca arranca o pescoço dos outros e uma senhora que de velhinha não tem nada. Sádico, não? Quer dizer, com o propósito de demonstrar até onde o homem iria para sobreviver, essas caracterizações, mesmo que um pouco absurdas, são válidas. Mas válido também seria demonstrar um lado mais humano, mais contundente em se opor a esse novo mundo louco, como aponta o Rei Ezekiel em determinada parte do episódio. Morgan, era acima de tudo, um mocinho. Ele não é um covarde, como o Padre Gabriel que costumávamos a conhecer, ou um chorão, como Eugene, ele apenas evita, a qualquer custo, o assassinato de formas de vida e o surgimento de novos problemas, pois acredita no no diálogo e métodos mais pacíficos de se resolver as coisas. Não tem algo mais bonito que a fé, ainda mais aquela com propósitos utópicos? Como um personagem desses poderia ser antipatizado? Mas foi, e provavelmente, de agora em diante, não mais será.

Se a série não quer que os pacifistas tenham sucesso em suas aventuras como pacifistas, então que ela não simule suas intenções de incluir os pacifistas no intrínseco da obra. Here’s Not Here é um episódio muito maior que a série se propõe a ser. Se for para desconstruir um ótimo personagem, levando-o de um ponto A para um ponto B para retorná-lo ao ponto A, então que não o faça. Onde está o ponto C? Esperançoso estava eu, em esperar que Morgan fosse, enfim, reverenciado pelos roteiristas e feito-o por eles um personagem mais interessante do que um dia almejou ser. É uma espécie de auto-sabotagem, o artista cedeu a seu público, ou então, The Walking Dead nunca passou de um mero produto comercial, com devaneios de grandiosidade. Morgan não estava em um círculo. Agora ele está, assim como a série como um todo

Pois bem, após bastantes fantasias pessoais, vamos finalmente ao episódio, que mesmo focado em apenas um núcleo, não se desgasta como outros. Embora eu preferisse um episódio mais desgastado do que um episódio que desgastasse a série inteira. Resumindo bem, Ben é morto durante uma entrega de suprimentos, por causa de uma falha de Richard, que bolou um plano para que com sua própria morte, ele fizesse com que o Rei se aliasse à Rick em sua guerra. Morgan descobre o plano mirabolante e mata Richard na frente de Ezekiel, consequentemente contando à Carol as verdades sobre Alexandria. Como conclusão, a guerra “começa”.

Começando pela melhor coisa do episódio temos a jornada de Richard e a interpretação de Karl Makinen, que, infelizmente teve de bater as botas cedo para um ator tão competente. Embora não afeiçoado em máxima com o personagem, o subtexto envolto das tramoias de Richard sempre foram muito bem exploradas e aqui encontra seu ápice. Seu fracasso. Ou seria este seu sucesso? Afinal, ele conseguiu o que queria. O Rei vai se preparar para a guerra. Também é novidade vermos um Salvador ficando furioso com outro por causa de um equívoco maldoso, algo importante para criar uma dualidade no povo do Santuário.

Deixando de lado as enormes observações apontadas acima sobre Morgan, e tomando como base apenas o desenvolvimento de personagem em seu estado mais puro, preguiçoso foi o roteiro em tornar estas motivações porcas responsáveis por essa enorme reviravolta no status do homem. Como assim a morte de Benjamin acarretaria toda essa mudança de comportamento do nosso guerreiro “paz e amor”? O relacionamento dos dois nem teve aprofundamento. Além do mais, por que Morgan mataria Richard? Ele “apenas” cometeu um erro tenebroso, que resultou em uma tragédia igualmente tenebrosa. Richard confessa, em uma cena emocionante, para Morgan toda a verdade e, de certa forma, pede desculpas, buscando tirar algo do acidente. Faria sentido Carol matar Richard, porque ela tem pacto com a sanguinolência, mas Morgan deveria ser muito mais firme com sua postura de não matar. Não é como se a Carol tivesse sido assassinada, como idealizado por Richard. Aquilo sim seria capaz de promover o retorno da ferocidade de Morgan. Sem falar nas inúmeras coincidências, como o fato do alimento escondido por Richard ter sido guardado na exata primeira caixa de plástico que Morgan chuta.

Mesmo com Lennie James dando um show de atuação, além das ótimas performances de Khary Payton e Karl Makinen, Bury Me Here pode ser resumida em uma única palavra: decepção. Tendo conhecimento do público-alvo e de como a série é dissolvida pela maioria dos espectadores, provavelmente este será, por eles, considerado um dos melhores episódios da temporada. Enquanto o fim de personagens como Dale e Tyresse tiverem seus propósitos, agora, na sétima temporada, o clube de repetição de tramas paralelas ganha um novo membro: personagem possui ou passa a possuir ideias pacifistas, personagem passa por questionamentos de sua fé, personagem encontra sua fé, personagem falece ou deixa de acreditar no que antes acreditava e por fim, sua fé prova-se inútil e indiferente ao futuro dos personagens à sua falta. Afinal, Randall foi assassinado por Shane e Sasha enlouqueceu com a morte de Tyreese, sendo que seus ideais, no final, não contribuíram com nada para a narrativa. Morgan é uma nova adição a esse seleto grupo de personagens, teoricamente, incríveis, mas, praticamente inúteis para o real amadurecimento da história. Pelo menos vai ter guerra agora.

The Walking Dead – 7X13: Bury Me Here — EUA, 12 de março de 2017
Showrunner: 
Scott M. Gimple
Direção:
Scott M. Gimple
Roteiro:
Alrick Riley
Elenco: 
Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, Khary Payton, Karl Makinen, Logan Miller, Austin Amelio, Christine Evangelista, Steven Ogg, Debora May, Sydney Park, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Nicole Barré, Pollyanna McIntosh, Jeffrey Dean Morgan 
Duração: 
44 min.

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?