Crítica | The Walking Dead – 7X15: Something They Need

estrelas 3

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-off, Fear the Walking Dead.

Something They Need começou muito bem. Desde o episódio Say Yes não víamos o desenrolar da aparente atitude de Tara de contar para Rick sobre a existência de Oceanside. No entanto, aqui, tudo é resolvido em menos de 5 minutos, com alguns voice-overs e enfim, o grupo já indo em direção à comunidade. Funcionou, assim como a maquiagem dos excelentes zumbis, gosmentos e ascosos, que surgem da praia. Com um plano “elaboradíssimo” preparado por Rick e companhia, o grupo chega então aos arredores da comunidade, com o objetivo de senão conseguirem reforços para a guerra, ao menos terem acesso ao vasto arsenal de lá. Ideia interessante. E a execução?

Nada acerca das arquitetações tomadas foi mostrado. E não precisaria, ora pois. Todavia, as escolhas de Rick sempre foram permeadas por decisões questionáveis (Not Tomorrow Yet, por exemplo), embora o showrunner nunca fez questão de intensificar verbalmente e negativamente tais caminhos. No caso de agora, nosso herói se vê atentado à causar algumas explosões, capturar inocentes e colocá-los de joelhos, enquanto que Tara, por algum motivo, vai conversar com Natania e tentar resolver as coisas no diálogo, como se fosse capaz de impedir que o resto do grupo recuasse com o plano original. Mesmo crendo que tal situação criada foi deveras simples, Corey Reed, responsável pelo roteiro desse capítulo eleva a preguiça à níveis estratosféricos ao escrever a esperada negociação.

Swear pode não ser um bom episódio, e ter falhado em aprofundar a comunidade de Oceanside. Mesmo assim, a superficialidade conseguiu ser instigante o suficiente para tornar, de certa forma, crível as intenções no discurso da líder Natania e do grupo por ela comandado. Um grupo desiludido, paranoico e algumas vezes até sádico. Pelo menos assim poderiam elas serem definidas até agora. Basta Rick apontar as armas, que todos recuam. Não há confronto, troca de tiros, nem nada. Quando de joelhos, todos se calam. Quando Natania chega, com uma arma apontada para a cabeça de Tara (que fora desarmada por Cynthia), apenas a líder discursa. E como discursa mal. Aquelas palavras não conseguem passar o sofrimento que aquelas mulheres, teoricamente, passaram. Sem colaboração do roteiro e do diretor, que não acerta nos diálogos, a atriz mal consegue emplacar seu desempenho como funcional. Rick perdeu menos de uma dezena de pessoas, Natania perdeu várias dezenas. Chore, xingue, bata os pés no chão e fala que não vai dar as armas de jeito algum, ou que não vai lutar. Mas apontar a arma para a cabeça de Tara, e ameaçar, talvez causar sua própria morte?

Contudo, ela é a líder, não é? Ela não estava representando todas ali? Na realidade, quando zumbis começam a surgir no horizonte de Michonne (já preparando-se para reproduzir a clássica cena na torre de vigia dos quadrinhos) e a espadachim avisa o grupo, Natania é logo nocauteada por Cyndie, e o resto de Oceanside se une à Alexandria no confronto. Simples assim. A amizade é formada durante uma tipica cena de massacre zumbi. Seria difícil vermos Rick e Natania confrontando-se em um diálogo poderoso, emocionante, que retratasse a realidade de ambos, e os aproximassem como iguais? As soluções para essa tensão, mesmo conduzindo bem a série, fazendo-a andar, não significa que foram decentes. Para piorar, as interações dos outros personagens, como Carl, Jesus e Enid servem apenas para justificar a presença deles lá, que já é automaticamente justificada pelo plano em si. Insiste-se, todavia, em apresentar ao público mais alguns diálogos tão inofensivos quanto bobos.

Felizmente, os outros núcleos abordados por Something They Need conseguem salvar, em partes, o episódio. Á começar pelo andamento do arco de Gregory, que têm tantos problemas a respeito de seu poder quanto Natania. Cada vez mais acovardado perante o domínio de Maggie como líder, o personagem pensa em matar a grávida. Sem coragem necessária para fazer o que seus devaneios analisam o que deve ser feito, Gregory acaba sendo encurralado por um zumbi e se vê humilhado por ter sido salvo por Maggie. Mesmo com uma estrutura narrativa apenas aceitável, o diretor Michael Slovis é eficiente em criar tensão no ataque dos dois andarilhos, mesmo que o roteiro falhe em tornar o ambiente ao redor mais operante para com a situação. Ao final, o homem recorre à Simon e à conversa estabelecida em The Other Side.

O destaque vai para a trama no Santuário que promove evolução na história e em seus personagens. Estrategista, após ser capturado pelos Salvadores, Sasha recorre à Eugene para ceder à ela uma arma capaz de matar Negan. Sabendo que o professor de ciências “mudou de lado”, com o objetivo de garantir sua sobrevivência, Sasha mente para ele falando que tal arma seria utilizada para que sua vida fosse incapaz de estragar a de seus amigos. Ou seja, sua morte seria a única saída para tal ambição. Quando Eugene retorna, Reed garante uma novidade para o roteiro, enquanto Slovis caminha vagarosamente o público para a revelação de que o homem não trouxe uma arma e sim um veneno. Sasha, buscando ter nas mãos algo que pudesse usar para assassinar Negan, exibe sua frustração na boa interpretação de Sonequa Martin-Green. O veneno, aliás, continua com ela.

Já Negan – e seus discursos eloquentes – retornam para manipular a mentalidade da personagem. Mais persuasivo, Negan utiliza de argumentos mais pertinentes para manejar a alexandrina. A adaptação da cena do salvador David, e sua tentativa de estuprar Sasha é muito bem feita. Com um toque angustiante, The Walking Dead não adentra no campo do abuso sexual, como Game of Thrones já fez, mas ainda sim busca realocar o espectador na existência desse tipo de perversidade. É positivo para o desenvolvimento de Negan que o personagem se oponha ao estupro, mesmo perturbadamente influenciando mulheres a serem suas esposas, utilizando de argumentos, que apenas em seu mundo túrbido, são plausíveis. Hipocrisia é sempre uma boa maneira de se definir um bom vilão.

Em suma, medíocre, Something They Need consegue trazer bons frutos para The Walking Dead. O final do episódio, solidificando a mudança de time de Dwight, um dos melhores personagens dessa temporada, gera um hype imenso para o derradeiro season finale. O episódio, embora faça tramas caminharem, fracassa ao construí-lo sobre uma estrutura amadora. O último episódio promete bastante e muito dos méritos pode ser dado graças à alavancada de tramas feita por Scott M. Gimple. Uma alavancada tardia, e se permitem à metáfora, aos quarenta minutos do segundo tempo. Um gol, entretanto, sujo, mal conduzido e bem cambaleante, fracassado em usufruir da exímia capacidade técnica do elenco. Quase um gol de mão, que deveria ser anulado, porém que, infelizmente ou felizmente, já foi marcado. Vencemos, mas ainda sim perdemos.

The Walking Dead – 7X15: Something They Need — EUA, 26 de março de 2017
Showrunner: 
Scott M. Gimple
Direção:
Michael Slovis
Roteiro:
 Corey Reed
Elenco: 
Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, R. Keith Harris, Khary Payton, Karl Makinen, Logan Miller, Austin Amelio, Christine Evangelista, Steven Ogg, Debora May, Sydney Park, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Nicole Barré, Pollyanna McIntosh, Jeffrey Dean Morgan 
Duração: 
44 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.