Crítica | The Walking Dead – 8X01: Mercy

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-off, Fear the Walking Dead.

Temporada vem, temporada vai, todo o “recomeço” para The Walking Dead é precedido por intermináveis promessas. Como bom entendedor do que há por trás das entrevistas cedidas pelos diretores, roteiristas, atores e até mesmo pelos showrunners, decidi me esquivar de qualquer falatório tendencioso. Eu realmente não tive nenhuma expectativa perante Mercy, depois da morna temporada passada. Ledo engano, peguei-me assistindo o primeiro trailer da temporada, disponibilizado durante a San Diego Comic-Con. Não sabia portanto, e ainda não sei, das intenções de Scott M. Gimple, showrunner que retorna para mais uma temporada, após, por incrível que pareça, mais altos que baixos. Todavia, ao término do episódio, a sensação é de que estamos diante de um até promissor, mas insatisfatoriamente burro e redundante, começo de temporada – que ainda veio calhar a ser o centésimo episódio do show.

Promissor porque, com a direção de Greg Nicotero, Mercy permite-se adentrar no quesito mais “artístico” que hora ou outra a série explora. Com o trailer exibido na Comic-Con, e sendo um leitor da obra original de Robert Kirkman, questionei-me se a aparição do Velho Rick, e todo o contexto em volta, quebraria o ritmo da temporada. Ao brincar com o foreshadowing (fragmentos da história que ainda está por vir), não apenas uma vez, mas duas (no melhor estilo Lost), Scott M. Gimple, que também assina o roteiro, torna a dinâmica desses prenúncios mais interessante para a série televisiva, além de fornecer material de sobra para jogos da direção e da montagem inventivos. Por sinal, a estética do “Futuro Mais Distante” (não confundir com o “Futuro Não Tão Distante”) é adequada, dando possíveis aberturas para que seja interpretada não como um foreshadowing, mas como uma realidade paralela/sonho, mexendo com a própria expectativa do leitor de quadrinhos, que não esperaria por essa nem de longe. Isso certamente ficou muito mais inteligente do que a série é.

Isso pois, o que mais é insatisfatório em The Walking Dead são seus roteiros tolos. Episódio atrás de episódio, as soluções narrativas fáceis, os furos, os diálogos pomposos, acabam deixando o elenco, a direção e as boas ideias pensadas serem soterradas por um acúmulo de mediocridade. Sintomas percebidos, diagnóstico feito, o que falta para The Walking Dead apresentar o alto nível da quinta temporada? Por exemplo, enquanto Rick alega que apenas uma pessoa terá de morrer, outras inúmeras já haviam morrido no mesmo episódio, todas sem a mesma oportunidade de misericórdia proferida por Rick em seu discurso, e trabalhada paralelamente por meio do “Futuro Não Tão Distante”. Não seria mais interessante construir esse Rick mais misericordioso durante a temporada, ou durante o próprio episódio mesmo, ao invés de sustentar incongruências, trazendo afirmações que se encaixam no contexto que bem entendem? E os inocentes que moram dentro do Santuário e que nem tiveram chance de se renderem a Rick e companhia? Algum plano de verdade, xerife?

Eu certamente entendo o que Gimple tentou fazer ao trabalhar (e espero que não abandone) a misericórdia em Rick. O Rick do “Futuro Não Tão Distante” certamente entendeu o conceito. Mas o Rick do presente não, soando confuso quando o próprio roteiro não entende o estudo que quer fazer e a mensagem que quer passar pelo desenvolvimento de seus personagens. O “apenas um tem que morrer” não faz sentido algum quando o mínimo de esforço é feito para que apenas um morresse, e claramente não é o que acontece. Talvez fosse mais relevante para o show se ele se prontificasse a mostrar um Rick ingenuamente impiedoso, que ainda não entendeu que do outro lado não existem apenas inimigos. Sairia a frase de efeito problemática, entraria um questionamento moral e, quem sabe, algo para trabalhar com outros personagens secundários, como Dwight.

Também ajudaria a série se o episódio não colocasse Negan sem nenhuma proteção à frente de dezenas de homens muito bem armados; todos perto o suficiente de acertar um tiro na cabeça do líder dos Salvadores. E também ajudaria se Rick não tivesse treinado para ser um Stormtrooper do Império e tivesse uma mira senão decente, consistente. Mas a vida do herói e do vilão certamente serão prolongadas ao menos até o último episódio da temporada. Um tirozinho, pelo menos, não faria nenhum mal. Contudo, tem de ser notada a sagacidade, única em todo o episódio, de Rick ao atirar nos seus inimigos antes do fim da contagem de 1 a 10. Seria extremamente embaraçoso ver isso. Aliás, a falta de violência, não necessariamente gráfica, tornou a batalha de Salvadores contra Mocinhos sem graça alguma. A Guerra Total começou, mas o exército de uma mulher só, apresentado por Carol em No Sanctuary, continua sendo muito mais empolgante.

Ao menos, Mercy pontua bem na presença de seu Padre Gabriel (ganhando força já na abertura, visto que Seth Gilliam fora promovido ao elenco principal). As homenagens ao primeiríssimo episódio também são fortes, desde a analogia entre a apresentação do “Futuro Mais Distante” com o Rick em coma de Days Gone Bye, aos planos de Nicotero durante a busca de Carl por gás, similares aos da busca feita por Rick, em um tempo no qual o líder ainda usava farda e chapéu. Mas os discursos inflados – mais funcionais quando proferidos por Ezekiel, assim como mais redundantes quando proferidos por Rick – os furos de roteiro e a sensação de que muito queria ser falado, mas pouco fora dito, não colaboram para que este seja um episódio digno de ser o centésimo. Muito pelo contrário, é um passo em falso. Nós, como bons fiéis, torceremos para que seja apenas isso.

The Walking Dead – 8X01: Mercy — EUA, 22 de outubro de 2017
Showrunner: 
Scott M. Gimple
Direção: Greg Nicotero
Roteiro:
Scott M. Gimple
Elenco: 
Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Kenric Green, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, R. Keith Harris, Khary Payton, Austin Amelio, Christine Evangelista, Steven Ogg, Debora May, Sydney Park, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Nicole Barré, Pollyanna McIntosh, Jeffrey Dean Morgan
Duração: 
44 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.