Crítica | The Walking Dead – 8X08: How It’s Gotta Be

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-off, Fear the Walking Dead.

Sim, eu sei o que aconteceu nessa mid-season finale. Mas, como de praxe, deixaremos o melhor para o final, e começaremos analisando o que de substancial deu errado em How It’s Gotta Be. Tenso, o episódio dirigido por Michael Satrazemis abusa inicialmente dos enfadonhos close-ups em câmera lenta, os quais já me peguei criticando anteriormente na mesma temporada. Por mais, o desencaixe de dois momentos do episódio com o restante da desarticulação do plano do Rick e volta por cima de Negan certamente quebraram um pouco a coesão narrativa do todo. O pontapé da saga de Aaron e Enid a Oceanside foi realmente bem-vinda, instigado pelo fato da garota logo matar a matriarca da comunidade. Mas, sem nem mesmo ser retomado durante esse episódio estendido, poderia ter sido facilmente empurrado para outro lugar. Aqui, soou, embora nem um pouco desnecessário ou mal feito, fortemente desconexo.

Outrossim, Eugene e sua missão também é mal pontuada, embora determine os caminhos que o personagem irá trilhar, bem desenvolvidos pela temporada. Certamente o local para esse desenrolar era em Time for After, onde, com ajustes em outros pontos da narrativa, concluiria perfeitamente o capítulo. Já em How It’s Gotta Be, tira o foco dos muito mais interessantes conflitos no Reino e em Alexandria, além da emboscada ao pessoal de Hilltop. De antemão, o acidente de carro no qual estava Rick, Jerry e Carol é muito mal resolvido, com os personagens retornando para cenas como bem se entendeu o roteiro de David Leslie Johnson e Angela Kang, que não se preocupou em dar explicações meramente plausíveis.

Mesmo assim, da mesma forma que a invasão à Alexandria é poderosa, a emboscada ao comboio de Maggie e cia apavora, relembrando acontecimentos de Last Day on Earth. O que chateia, porém, é o desperdício de uma cena tão boa com a consequente morte de um personagem tão irrelevante que nem me recordo o nome. Esse era um bom momento para Jerry morrer, por exemplo. Todavia, a posterior justiça de Maggie diante da perda é sentida. Nem Jesus a condena, deixando a mulher ser a juíza e executora de sua própria pena. No mesmo caminho, a invasão ao Reino funciona da forma como prenuncia, mas a aparição de Carol poderia muito bem ter se aliado à morte da personagem. De qualquer forma, é bom ver o povo do Rei sendo protegido pela Sua Majestade, a qual encontrará, talvez, caminhos mais sofríveis que a morte.

Sendo assim, sem mais delongas…

Carl morreu. Quer dizer, definitivamente morrerá, visto que, apesar da mordida em seu corpo ter sido revelada nos derradeiros momentos do episódio, o personagem ainda não foi poupado do sofrimento como se costuma fazer. Ainda. Mas se bem que, depois daquele vexame que foi o que aconteceu com Glenn em temporadas atrás, nada pode se confirmar acerca do futuro do jovem. Será que Carlinhos se revelará como sendo imune à mordida de zumbi, com anticorpos poderosíssimos capazes de destroçar aquela infecção? Será?

Brincadeiras a parte, fato é que The Walking Dead levou ao espectador um impacto que há muito não se sentia. Carl ainda está vivo nos quadrinhos, e era a base de toda essa série, a qual já se esticou muito, e promete se esticar ainda mais. O inesperado, no entanto, não é fruto da coragem dos seus realizadores, que na verdade foram possivelmente forçados por Chandler Riggs a matar seu próprio personagem; o garoto estava cansado do show. De qualquer forma, certamente esta é a morte mais expressiva do seriado até então.

O ator indubitavelmente não era um dos melhores do elenco da série, mas seu papel figurava, atrás do de Rick, como o mais relevante. Similar à ausência de arcos envolventes nas últimas temporadas, esta também não contou com nada extremamente desenvolvido para o filho do xerife. Duramente fraquejada pela péssima organização dos episódios em suas ordens de exibição, a história de Carl residiu em sua relação com Siddiq, e nos diálogos com seu pai, que movido pelo acontecimento, será impulsionado a mudar sua mentalidade acerca do futuro desse mundo. Certo é, contudo, que o personagem não teve a morte mais digna do mundo, salvando tudo ou todos. Mas ele não precisaria. The Walking Dead apresenta uma morte mais fria, seca, que emociona pela reação de Rick e Michonne, e não pelo extasiamento de uma manipulação que leve o público a chorar ou a se chocar.

A morte de Carl funciona pelo futuro que poderá propiciar a The Walking Dead, série que está tomando rédeas completamente diferente das dos quadrinhos. E também funciona sob um olhar retroativo dos acontecimentos prévios do próprio episódio. Toda a jornada do garoto pela fumaça e fogo que destrói Alexandria, tornando casas ruínas de uma sociedade que está longe de encontrar sua verdadeira paz, denota um senso suicida, que brinca com o valor de sua própria vida – já predestinada a um fim. O discurso para Negan é otimamente lapido sobre pedras de um destino que o aguardaria. Carl foi mordido antes do episódio (talvez durante o team-up com Siddiq em The King, The Widow and Rick), e a série – felizmente – resistiu em mostrar esse fato de forma expositiva, como muito bem poderia ter feito. Surge uma sensação, mesmo que ilusória, de que ninguém mais está a salvo. Evidentemente que a morte de Carl não foi um pensamento super elaborado dos roteiristas, e sim uma fatalidade ordinária; uma ocasionalidade da vida comum – o desejo de Riggs de sair da série – e da fictícia – uma mordida fatal. Sem ornamentações, perfeitamente cabível dentro do cenário apocalíptico. O que resta saber é como Scott M. Gimple irá lidar narrativamente com essa tragédia. Que a morte do menino Carlos não seja em vão.

  • The Walking Dead entrará em hiato, voltando em 2018 em data ainda não divulgada.

The Walking Dead – 8X08: How It’s Gotta Be — EUA, 10 de dezembro de 2017
Showrunner: 
Scott M. Gimple
Direção: Michael Satrazemis
Roteiro:
David Leslie Johnson e Angela Kang
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Kenric Green, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, R. Keith Harris, Khary Payton, Cooper Andrews, Austin Amelio, Steven Ogg, Debora May, Sydney Park, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Nicole Barré, Pollyanna McIntosh, Kerry Cahill, Traci Dinwiddie, Charles Halford, Jayson Warner Smith, James Chen, Nadine Marissa, Avi Nash, Jeffrey Dean Morgan
Duração: 
 44 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.