Crítica | The Walking Dead – 8X09: Honor

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-off, Fear the Walking Dead.

A primeira metade dessa oitava temporada de The Walking Dead definitivamente não foi umas das melhores. Pelo contrário, The Walking Dead cambaleia sob pernas cansadas, apoiadas em uma condução arrastada e roteiros horríveis, mesmo que a história seja boa e os arcos interessantes. Como tentativa de nos impactar, a morte de Carl surgiu inesperadamente e, do nada, tivemos que nos despedir de um personagem querido. Honor é essa despedida e, se o episódio honra algo além de Carl, esse algo definitivamente é a trajetória do seriado até aqui. Desde Atlanta, passando pela fazenda e pela prisão, chegando nos acontecimentos mais recentes, Honor revisita vários eventos passados para trazer a nós um discurso coeso, que exalta uma construção de personagem que não havia sido deixada clara. Rick parecia ir e vir por caminhos contrários, da sanidade à loucura, da loucura à sanidade, tudo vice-versa. As transformações começaram a soar robóticos, mas agora uma meta foi estabelecida; o que veio antes, compreendido. A ida de Carl para o infinito misterioso torna-se, surpreendentemente, um passo mais que bem vindo para The Walking Dead.

Em um primeiro plano, temos na direção de Greg Nicotero um tratamento inicial extremamente tocante, com Carl vivendo a própria calmaria antes da tempestade. Por saber que suas horas estão contadas, o menino começa a aproveitar cada minuto de seu dia, escrevendo cartas, tirando fotos com sua irmã e até mesmo plantando uma árvore. Ao som de “At The Bottom Of Everything“, do grupo Bright Eyes, o jovem aceita seu destino e o vive por meio da trivialidade, mas, diferentemente do que planejara, ainda lhe restará mais alguns momentos com seu pai, que retornou em How It’s Gotta Be à Alexandria, apenas para se deparar com seu filho prestes a morrer. Aliás, Chandler Riggs tem a melhor performance de sua carreira. Mesmo que não seja nenhum pouco grandioso, a comparar com outros intérpretes adolescentes, o ator é certeiro na emoção, no que há de ser transferido das páginas de um roteiro para o coração de espectadores – muitos ainda revoltados pela morte precoce do garoto. Andrew Lincoln, por outro lado, diferentemente do que costuma fazer, está mais contido, ainda com seus clássicos olhos fortemente lacrimejados, mas sem cair para nenhum sentimentalismo barato; a honestidade impera. Igualmente, Danai Gurira exprime verdade em cada diálogo com o menino. O arrepio depois do tiro suicida é sensível a nós, assim como é um baque para o ex-policial. No final, Rick terá de honrar os desejos de seu filho para o futuro, da mesma forma que Siddiq (Avi Nash) também terá, como dito por ele a Carl, em uma conversa bem escrita que contempla uma amizade que a série, infelizmente, não teve tempo para nos mostrar muito dela. Afinal, não importa se Siddiq era um amigo, nem um médico, nem nada a mais. Importa que ele era uma pessoa que precisava de ajuda e Carl era uma pessoa que podia cedê-la. O mochileiro de Clear poderia muito bem estar vivo até hoje.

Mas não pensem que temos apenas contemplação neste episódio. A narrativa avança consideravelmente bem, fazendo até mesmo um paralelismo entre os anseios de Carl com as atitudes de Morgan (Lennie James). O problema não é, necessariamente, Morgan matar pessoas, mas a sede insaciável dele por sangue, por cumprir um dever que apenas esgota a sua mente a cada dia. Aquele Morgan “paz e amor” podia dormir sem se corroer por dentro, acordar com a mente vazia para um novo e belo dia. Piegas, mas é a plena verdade. Honor, no entanto, decide trazer uma revisitação a momentos que ocorreram em off, antes do episódio passado, retratando como os Salvadores se livraram dos zumbis e como Morgan fugiu do Santuário. As respostas são, além de redundantes, insatisfatórias. O discurso nesse segmento do episódio, além disso, também é esticado assustadoramente, sem que aquelas conversas do Rei com Gavin adicionem muitas camadas ao cerne. Entretanto, é muito bom ver Carol (Melissa McBride) retomando o seu tato com crianças e se preocupando com o futuro delas, do seu jeitinho, é claro. Será que Henry irá se tornar outro demônio em miniatura ou nós veremos a influência dos mais velhos tirar o garoto de um caminho sem volta? Ademais, em termos de ação e técnicos, os tiroteios não são inventivos, pouca tensão é sentida, além de que a iluminação está demasiadamente ausente, criando uma confusão visual desnecessária.

Honor, por fim, é a afirmação de que, a medida que suas criações crescem, os pais também podem ser afetados por pensamentos e ações de seus filhos, algo extremamente positivo para que o aprendizado seja uma via de mão dupla – para que a mente entre uma metamorfose ambulante e homens não permaneçam, nem em idades avançadas, com a verdade absoluta dominada. Embora situe-se no meio de uma despedida trágica, que não deveria acontecer em tempos mais civilizados, há uma esperança inerente ao fim de Carl. Se o menino não venceu esse apocalipse, como sua mãe quisera, certamente abre-se espaço para que outras pessoas vençam, seja o breve amigo Siddiq, seja a irmã amada Judith, seja até mesmo Rick, seu pai. Honor é uma esperança, tanto para o apocalipse, quanto para a série em si.

  • Nota: Um adendo para a cena na qual Morgan arrasta seu “graveto” pela areia. Custava que uma atmosfera de terror fosse criada, algo até mesmo especulativo sobre quem estava sendo perseguido e quem estava perseguindo? The Walking Dead precisa começar a tomar decisões como essa; desperdício de oportunidade.

The Walking Dead – 8X09: Honor — EUA, 25 de fevereiro de 2018
Showrunner: 
Scott M. Gimple
Direção: Greg Nicotero
Roteiro:
Matt Negrete, Channing Powell
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Kenric Green, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, R. Keith Harris, Khary Payton, Cooper Andrews, Austin Amelio, Steven Ogg, Debora May, Sydney Park, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Nicole Barré, Pollyanna McIntosh, Kerry Cahill, Traci Dinwiddie, Charles Halford, Jayson Warner Smith, James Chen, Nadine Marissa, Avi Nash, Jeffrey Dean Morgan
Duração: 
44 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.