Crítica | The Walking Dead – 9X01: A New Beginning

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

A oitava temporada de The Walking Dead é, provavelmente, o fundo do poço da série. Como se empolgar para uma vindoura – e desnecessária – nona? Um segredo preciso revelar: dada todas as confirmações envolvendo esse novo capítulo para a série, com atores afirmando suas saídas, eu estava realmente renascido de esperanças diante desse recomeço. O anúncio da despedida de certos personagens nos permite, mesmo que de maneira artificial, pensar o começo como fim, o que é de um contraste interessante. A abertura mudou. O showrunner mudou. Será que Angela Kang, sempre presente no roteiro dos episódios, tem uma visão mais acertada para a série, depois de Scott M. Gimple insistir na mesma abordagem? A começar por esse primeiro episódio, a resposta parece tender para um sim, mas os fãs do seriado sabem que não podem ter tanta crença. Devemos ser calmos. The Walking Dead voltou e não quer mais saber daquele cliffhanger deixado no último episódio da temporada passada, que premeditava um conflito dentro do grupo, com Maggie, Daryl e Jesus tramando contra Rick, em razão do xerife ter permitido Negan viver, mas preso. As coisas são desaceleradas em relação a isso, repensadas e muito melhor calculadas.

O mundo é reconstruído. O universo, agora, possui um quê de The Last of Us, com a vegetação tomando conta dos prédios depois dessa passagem de tempo. Prédios importantes, reconhecíveis, fazem parte do cenário, em um uso de fundo verde certeiro. A primeira missão do episódio reúne quase todo o elenco principal da série e é bastante interessante. O combustível está em falta. Os residentes andam a cavalo, não mais carros – apenas certo motoqueiro, porque ele pode. A exploração urbana confere um ar de aventura à série, querendo descobrir coisas novas, o que sobrou desse mundo. Até mesmo para criar a tensão envolvendo mortos vivos, a série é mais inteligente. Um chão de vidro. O terror todo envolve um arado. A sequência também permite uma apresentação verdadeira do novo casal da série. Quando Ezekiel é resgatado, Carol logo o beija. O episódio não precisa parar para revelar esse detalhe, mas amarra-o com a cota de mortos-vivos – repetida mais para frente, em segmento muito menos inteligente, com andarilhos surgindo abruptamente, em quantidades que poderia ter sido tratada. A câmera se distancia e um monumento é vislumbrado. Quase como a conclusão de O Planeta dos Macacos, esse é o mesmo mundo de outrora?

A New Beginning é, ademais, um episódio mais coeso dentro de uma série bastante problemática em termos de ritmo, quase que certinho demais, mesmo que a montagem continue dando a sensação de uma estruturação em blocos – característica que às vezes funciona, mas deve ser remediada em outras oportunidades. Anteriormente, experienciamos capítulos monótonos, dando a sensação de redundância, sem saber como conduzir uma história em cenários distintos. A realidade da quarta e quinta temporada era completamente diferente da realidade da sétima e oitava. A New Beginning não possui nada disso, discutindo, dentro de um foco maior, sobre o que é ser um líder. Embora, narrativamente, o enfoque seja em Maggie (Lauren Cohan), desenvolvendo-se, após o trecho inicial do capítulo, dentro da Colônia de Hilltop, todas as pontas, a serem exploradas com mais atenção no futuro, trabalham a favor dessa dissertação. A mudança de liderança dentro do Santuário, de um lado, a qual faz completo sentido, com Daryl sentindo-se incomodado em estar naquele lugar, enquanto, do outro, Carol assumindo a posição, são pontuações menores, porém validadas e úteis. O pedido de casamento, aliás, é de um charme só. O texto, por sua vez, continua mediano.

Já no caso da grande protagonista de A New Beginning, o enredo do episódio decide resolver, de uma vez por todas, suas tensões em relação a Gregory, retornando como uma ameaça fantasma. Um jovem é morto durante essas cotas de participação de zumbis, em cena bem fraca – o coice do cavalo, por outro lado, é impagável, verdadeiramente irônico. Os personagens apresentados, dessa família tardiamente destruída pelo apocalipse, são inéditos, mas o episódio tem vigor para trabalhá-los. As características do pai do jovem morto, seus antecedentes alcoólatras, são apresentadas através de sugestões. Ao mesmo tempo, Rick e Michonne são reapresentados como um casal utópico, vivendo uma vida cheia de felicidade. Em termos de equívocos da narrativa, o episódio cria um vácuo entre o confronto de Maggie com Gregory – em ótima performance por parte de Cohan, parecendo uma psicopata -, e o desfecho com o julgamento do antagonista. Ao invés de resolver tudo de uma vez, o ponto de vista retorna ao de Grimes, com a sua chegada à Hilltop, parecendo se esquecer da trama principal. A chegada deveria ser posterior, com o ex-xerife recebendo a notícia da execução do personagem de Xander Berkeley – sentiremos sua falta. Mais um choque, além das mudanças previstas por Maggie. Quem vai seguir quem dali em diante?

The Walking Dead – 9X01: A New Beginning — EUA, 7 de outubro de 2018
Showrunner: Angela Kang
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Angela Kang
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Danai Gurira, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Tom Payne, Xander Berkeley, Khary Payton, Cooper Andrews, Brett Butler, John Finn, Sydney Park, Elizabeth Ludlow, Pollyanna McIntosh, Zach McGowan, Traci Dinwiddie, Jon Eyez, James Chen, Lindsley Register, Callan McAuliffe, Avi Nash, Jeffrey Dean Morgan
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.