Crítica | The Walking Dead – 9X02: The Bridge

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

The Bridge é realmente um episódio de cachorros loucos, como Justin (Zach McGowan), membro dos Salvadores, todavia, extremamente maligno, revoltado e antipático, referencia Daryl Dixon (Norman Reedus), após o motoqueiro socá-lo incessantemente, com justa causa pelo menos. De um lado, temos, obviamente, o braço direito de Rick Grimes (Andrew Lincoln), completamente avoado em relação aos desordeiros, presentes no meio de pessoas melhores, estas sim tentando se reconciliar com esse novo mundo, de um novo começo liderado pelo ex-policial. O personagem, no final das contas, executou Gregory no último capítulo, sem qualquer segundo pensamento. Quando Aaron (Ross Marquand) é severamente ferido em decorrência de um acidente de trabalho, tendo seu braço esmagado, em um certo momento do capítulo, pensei que o besteiro iria eliminar todos os mortos-vivos presentes na situação por conta própria, sem o auxílio de ninguém, porque a cena inicial desse ataque é realmente muito boa, com o episódio sabendo criar criativas dinâmicas com zumbis, nessa construção de problemáticas menores dando origem a grandes tumultos, ocasionados, no caso, pela omissão de um certo trabalhador, responsável pelo desvio de uma horda. O perigo é sentido nesse pequeno caso, não no real surgimento dos andarilhos – David Leslie Johnson entende isso.

O episódio, ao mesmo tempo, é recheado de grandes pequenos momentos. O roteiro abre espaço para isso e Daisy Mayer, estreante na série, compreende como há de trabalhar a narrativa. Rick Grimes, em determinada ocasião, é distraído durante uma coordenação de movimentos estratégicos, pelo rádio, e entendemos a incompreensão perante a situação. Ao surgirem os mortos-vivos, a diretora quer ser criativa e consegue eliminar diversos errantes com uma derrubada de toras de madeira. O sangue entretém. Os personagens menores, por sua vez, permanecem em cena, mas não precisam de algum pensamento filosófico avulso para mostrarem-se presentes. Henry (Macsen Lintz), por exemplo – crescendo consideravelmente de uma temporada para outra, o que dá margem a um comentário metalinguístico acertado -, domina o chato de galocha desordeiro de uma maneira extremamente divertida, sem nem olhar para trás depois do feito. Cabe a Daryl Dixon, para variar, obviamente como um cachorro louco, cuidar da bagunça, socando o sacana sem dó, muito menos piedade. A situação é repetida, cabendo a Rick Grimes, em última instância, lidar com a complexa questão. O ex-xerife conhece pessoas como essa. O cachorro louco da conclusão, no entanto, é uma figura desconhecida, incitando a curiosidade do espectador desprevenido.

A temática retratada sobre o protagonista encontra-se coordenada com a exploração abraçada em Hilltop, sobre pessoas que merecem segundas chances e pessoas que não merecem segundas chances. Rick , em seu espaço, compreende que certas criaturas não merecem segundas chances, ao menos, não as segundas chances que pensamos merecer – um personagem genérico, mas não menos suficiente por causa disso, é expulso. Já Maggie (Lauren Cohan), surpreendentemente, tem o seu caráter de cachorro louco diminuído, em uma quebra interessante entre o que estava sendo construído, de uma ruptura da moralidade da sociedade, subvertendo a ordem natural das coisas, antes que elas viessem a ser deveras estafante e redundante, como quase tudo o que a série conseguiu fazer nas últimas temporadas. A participação de Michonne (Danai Gurira) e Jesus (Tom Payne) são sentidas, mas é no diálogo com o agressor, por parte de Maggie, que reside a retomada de um passado familiar interessado em segundas chances – a história de Hershel com a bebida, comentada na segunda temporada. Ademais, Aaron e Enid (Katelyn Nacon) precisam lidar com uma perda abrupta, uma decisão de imediato. A carga gráfica reside no braço destroçado do personagem, atacando o espectador como o – maravilhoso – morto-vivo cheio de insetos o atacou previamente. The Walking Dead está mais inventivo.

Em contrapartida, o Rei Ezekiel (Khary Payton) é um poodle, cachorro extremamente fofo, simpático ao público. O espectador está, definitivamente, gostando mais do coadjuvante. “Eu tinha preparado um discurso”, comenta o personagem, tentando se ajoelhar após Carol, de certa forma, aceitar se casar com o monarca, com a mesma pompa de antes, contudo, um considerável charme a mais. A trivialidade é de um sentimento gostoso, como se os responsáveis pelo seriado estivessem mais interessados nas interações entre esses personagens. Os próprios diálogos estão muito melhores, sem o didatismo, a repetitividade, o automático ou o piegas de antes. O episódio, por exemplo, pouco antes de se encerrar, termina a ótima conversa que, no início, começara, entre Rick Grimes e Negan (Jeffrey Dean Morgan). The Walking Dead permite, nesse episódio especialmente, o ator emitir algumas de suas melhores falas até agora, verdadeiramente ameaçador. O Padre Gabriel (Seth Gilliam) – não um católico, mas um episcopal -, por último, também revela ser cachorro louco, dando margem a uns pegas, estranhos, mas longe de serem completamente inacreditáveis, entre o sacerdote e Anne (Pollyana McIntosh). Aquela dose de entretenimento do mais puro calibre. Uma sociedade se reintegrando ocasiona essas coisas, improváveis, como a vida realmente é.

The Walking Dead – 9X02: The Bridge — EUA, 14 de outubro de 2018
Showrunner: Angela Kang
Direção: Daisy Mayer
Roteiro: David Leslie Johnson
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Danai Gurira, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Tom Payne, Khary Payton, Macsen Lintz, Cooper Andrews, Brett Butler, John Finn, Sydney Park, Elizabeth Ludlow, Pollyanna McIntosh, Zach McGowan, Traci Dinwiddie, Jon Eyez, Lindsley Register, Callan McAuliffe, Nadine Marissa, Nicole Barré, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Jeffrey Dean Morgan
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.