Crítica | The Walking Dead – 9X03: Warning Signs

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Warning Signs é um dos melhores episódios de The Walking Dead em tempos, por conseguir ser o que muitos da temporada passada não conseguiram, coeso e engajante ao mesmo tempo. Alguns homens encontram, na premissa, o corpo zumbificado de um dos seus colegas, supostamente assassinado, e decidem iniciar uma pequena, mas significativa rebelião, diante dos nossos líderes, estes interessados, contudo, em uma reintegração social – matar pessoas nervosas, aparentemente, está fora de questão. Os nervos estão à flor da pele. Dan Liu, diretor do capítulo, portanto, entende a problemática, incitando, primeiramente, o seguinte sentimento por meio da interação de um grupo menor destes remanescentes de Negan, ainda à procura do homem morto, com Maggie (Lauren Cohan), no começo do capítulo, permitindo, depois, uma associação rápida do caso, agora fervendo, com a corrida de um personagem terciário ao encontro de Michonne (Danai Gurira). O público entende o que está acontecendo – uma crise no sistema que o nosso protagonista anseia para esse novo mundo. A montagem é coerente, tramando-se de encaminhar o público, do ponto em questão, da quebra do pacifismo, diretamente ao ambiente caótico disposto, onde enxerga-se, por cima, homens empurrando um ao outro, desentendidos ao diálogo, mas à violência. O xerife está a caminho.

A estrutura argumentativa, para envolver o espectador nos interesses de ambas as visões desse cenário pós-apocalíptico – a misericordiosa e a punitiva -, é mais sugestiva, sem cair em alguns vícios de redundância antecedentes, nos quais inseria-se, na boca de personagens, sentimentos já passados exteriormente – os diálogos mais óbvios, de certa forma, permanecem, mas assumem uma força secundária, de intercessão entre os anseios de certas figuras e outras, além de contradições próprias. Rick Grimes (Andrew Lincoln), por exemplo, passeia pela sua casa e depara-se com um objeto marcante, pendurado na sua sala de estar. A memória do seu filho morto desperta. O encontro é uma ressignificação da jornada até aqui, entendida como responsável por ter feito o policial, diferentemente do que os demais fariam, poupar a vida do grande antagonista das temporadas passadas – “toda vida conta”. O personagem, como revela diálogo posterior, possui ocasionais pensamentos opostos a esse, mas é racional o suficiente para compreender o que é necessário para o mundo do agora, o mundo do amanhã. Com Rick, Michonne e Judith, em um conjunto de cenas divertidas e sensíveis, o espectador enxerga vidas sendo vividas, em um estado, senão de pura felicidade, o mais próximo possível dela nessa situação bastante atrelada com a perda. O mundo que vai dar certo.

Um mundo redefinido para alguns, espaço aberto para segundas chances a outros, entretanto, pouco interessante para certas pessoas, os vencedores de uma guerra impiedosa, como Maggie e Daryl Dixon (Norman Reedus), em contrapartida ao pensamento do protagonista. A péssima resolução da última temporada, sugerindo uma revolta cruel e covarde contra o ex-policial, é muito melhor desenvolvida em Warning Signs, amarrando-se, discursivamente, de uma maneira mais orgânica aos pontos em questão, sobre o futuro da sociedade, caso exista uma. O diálogo de Grimes com Dixon é importantíssimo, diante de um texto competente de Corey Reed, com pouquíssimos equívocos – a relembrança é certeira. Uma pontuação encaminhada, também, à Carol (Melissa McBride), em uma presença mais harmoniosa, suscetível aos dois pensamentos, mas em uma busca pelo mais adequado para o agora e o amanhã – a humanidade está presente, como revela, em diálogo, a vontade que teve de apertar o gatilho durante o motim. A personagem, por exemplo, poderia ter assassinado o homem que a coloca como refém, mas não o faz – a ameaça não é em relação a ela, pouco crível, mas em relação as consequências da situação. A execução de Gregory mostra, enfim, seus efeitos, para muito além de um seriado de poucas causas e consequências, monótono como o de outrora.

Já a estrutura narrativa é tão competente quanto, mesmo tratando-se, basicamente, de um mistério investigativo, de quem matou quem. As respostas não investem em novas problemáticas, mas são concluídas por si, por se tratarem, ao mesmo tempo que resoluções narrativas, de uma ideia de como a justiça é desenvolvida em um território nublado. A insistência em uma problemática com mortos-vivos, no meio do enredo, ademais, é um desvio do caráter enfocado, enquanto o desenvolvimento com Anne (Pollyanna McIntosh), crucial, permanece para o futuro, extremamente misterioso e ameaçador para o Padre Gabriel (Seth Gilliam) – positivo por ela não ser a assassina. Quando Cyndie (Sydney Park) elimina Arat, após Maggie e Daryl caminharem para longe da vingança conclusiva, o público compreende mais certeiramente as emoções em jogo – a impossibilidade de contrariar aquele momento pesa na cabeça. O embate entra em um nível emocional, sendo relevante o discurso da personagem, explicando o porquê de estar fazendo, ao lado de outras mulheres de Oceanside, o que está fazendo. A crueldade é retomada, em uma comparação, da mulher clemente pela sua vida, da mulher que debochou de uma outra – os atores em papéis menores estão muito bem. Como Negan pode estar impune agora, depois de ter sido ainda mais cruel que qualquer um de seus capangas?

The Walking Dead – 9X03: Warning Signs — EUA, 21 de outubro de 2018
Showrunner: Angela Kang
Direção: Dan Liu
Roteiro: Corey Reed
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Danai Gurira, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Tom Payne, Khary Payton, Pollyanna McIntosh, Callan McAuliffe, Avi Nash, Cooper Andrews, Rhys Coiro, Sydney Park, Elizabeth Ludlow, Zach McGowan, Lindsley Register, Kerry Cahill, Nicole Barré, Traci Dinwiddie, Nadine Marissa, Kenric Green, James Chen, Matt Mangum, Briana Venskus, Aaron Farb
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.