Crítica | The Walking Dead – 9X04: The Obliged

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Como coexistir em um mundo em que traímos nossos irmãos, quando nossas visões comprometem o futuro de uma sociedade em busca do melhor para si, como sociedade renascida, distante da que só permanecia? O quarto episódio da nona temporada de The Walking Dead encontra-se alinhado a pontuações acerca de coexistência, em um caráter dualista que, recorrentemente, a série retorna para si, sem grandes problemas em redundar uma temática sempre interessante quando certeiramente explorada. A sociedade primeira, do grupo que passou por anos a fio sobrevivendo ao mundo do apocalipse, sendo os verdadeiros caminhantes mortos, e a sociedade imaginada, muito maior do que qualquer pensamento sobre efemeridade – sobre o que fazer para o amanhã, não o que fazer para o agora. O amanhã é de felicidade, daquelas utopias inalcançáveis, mas permanentemente almejadas, já o hoje, de intenso ódio, porque ainda enxerga o passado com um profundo fervor por mudança, por transformações que, na verdade, apenas retornará o que estava sendo destruído anteriormente. Um obrigado ao guia encarregado do destino de uma civilidade em berço não tão esplêndido, nascida, na realidade, da tormenta de um fim de mundo nunca anunciado.

A destruição precisava acabar. O assassinato do grande antagonista das temporadas passadas, Negan (Jeffrey Dean Morgan), representaria, para o nosso querido protagonista, um retorno à conjuntura dessa não-sociedade. A questão não é meramente a discussão entre o que é certo e o que é errado, que seria colocada, normalmente, em pauta numa situação como essa, disposta a conversas mais abrangentes. A questão é que, no passado, pessoas já foram mortas por muito menos do que o conferido a outros pelo sadismo deste homem – as mulheres de Oceanside, por exemplo, como Warning Signs revelou ao público, executando os capangas de Negan, do homem a frente de criaturas cruéis. A manutenção da vida é símbolo de um anseio gigantesco – verdadeiro – por mudanças absurdas. O símbolo pelo símbolo, como marca contraposta, em seu poder, não em sua fragilidade. Maggie (Lauren Cohan) e Daryl (Norman Reedus), entretanto, estão em desacordo com esse pensamento de Rick Grimes (Andrew Lincoln). Um personagem ruma à Alexandria, enquanto outro atrasa um possível impedimento por parte do ex-policial. O jogo de tensão está aberto ao espectador, porém, ignorado em termos realmente provocativos, da corrida contra o tempo.

A conversa é entre o líder que o povo escolheu e o líder que está prestes a ser arruinado. Maggie era para ser sua sucessora, mas Grimes acabou optando por permanecer com as rédeas em suas mãos, controlando o futuro por conta própria, sem ouvir os demais, todavia, ainda o controlando. O descontrole nos freios é latente – Andrew Lincoln exprime as divergências do homem que está em meio a ação e o homem que está à parte dela – a necessidade por liderar -, mesma situação enfrentada por Michonne (Danai Gurira), em sua necessidade pelo combate. A montagem inicial exprime, perfeitamente, essa coexistência entre escopos distintos de uma mesma visão, como se fossem possível coexistir. Um arco interessante para uma mulher que, enfim, é questionada intrinsecamente por Negan, enjaulado, em algumas das cenas mais relevantes envolvendo o personagem até então, sobre os mistérios ao redor da criação de um mito, endeusado por alguns, odiado por outros. A sobrevivência como objetivo. As questões sobre o helicóptero e afins, ademais, é deveras secundária, mas não extremamente desnecessária, em decorrência do impacto atrelado, possivelmente, a questões posteriores. Uma letra oposta a outra. Uma decisão a outra. O futuro é promissor.

Quando Rick Grimes desabafa – um desabafo recorrente, mas renovado – sobre nunca ter pedido ninguém para o segui-lo, entendemos estar diante de uma pessoa assumindo a posição de liderança que, mesmo nunca exigindo, assumiu por aqueles que, outrora, confiaram esse cargo a ele, como o próprio Daryl Dixon, em conversa não muito bem resolvida, embora com impacto emocional profundo. As cenas com os mortos-vivos são adequadas ao entendimento respectivo – um amigo ajudando ao outro, mesmo nas enormes divergências. O contexto atual necessita que ao personagem, mais uma vez, seja confiada a tomada de decisões mais difíceis, como essa, em que o emocional precisa estar pensando mais no que vem depois do que no que vem em seguida, o contraste entre o efêmero e o perene. Carl Grimes, independentemente de seus pensamentos ultimatos terem sido construídos adequadamente ou não – porque não foram -, representa essa conciliação entre o efêmero, do que já passou, e o perene, do que permanece. Os pedidos finais de seu garoto, caso não sejam cumpridos pelo pai, serão apenas pedidos finais de seu garoto, entretanto, não promessas de um novo começo, de um novo dia para um novo mundo.

O protagonista – a um passo de não mais carregar essa intitulação – está em um dilema profundo, compreendendo suas amizades mais próximas, contudo, precisando manter a utopia de seu filho como uma possibilidade. As coisas estão, por infortúnio, desmoronando. O desespero é evidente. O público toma nota disso, primeiramente com a recusa de Carol (Melissa McBride) em continuar tomando conta dos Salvadores, consequentemente, com a guinada de Maggie para Alexandria, entendida a assassinar o assassino de seu marido, além de, derradeiramente, com um outro gancho, acerca do confronto armado instaurado no acampamento. A conversa entre o ex-policial e a destruidora de terminais é eficiente para uma retomada de pensamentos diversificados, de permitir o Santuário florescer por conta própria. A ponte pode ser a última coisa em pé que manterá – uma ponte conectando as comunidades que quis, para o futuro, que permanecessem conectadas. Um último sacrifício e, finalmente, um término escurecido, de aparente desesperança. Os passos finais de uma jornada sobre desencontro e reencontro. Algumas interações serão as últimas. Saber disso aufere um pesar. The Walking Dead não é uma série sobre desesperança, porém.

The Walking Dead – 9X04: The Obliged — EUA, 29 de outubro de 2018
Showrunner: Angela Kang
Direção: Rosemary Rodriguez
Roteiro: Geraldine Inoa
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Danai Gurira, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Tom Payne, Khary Payton, Cooper Andrews, Pollyanna McIntosh, Traci Dinwiddie, Callan McAuliffe, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Matt Mangum, Aaron Farb, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Mandi Christine Kerr, Jennifer Riker, Jeffrey Dean Morgan
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.