Crítica | The Walking Dead – 9X05: What Comes After

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

O que vem depois? O encontro do homem com o seu próprio fim preenche o conteúdo dramático de What Comes After, o prometido último episódio de Rick Grimes (Andrew Lincoln) na série – aparentemente, o destino do personagem permitirá um retorno futuramente, ainda incerto. Um capítulo, portanto, tematicamente coeso, dada as diferentes possibilidades de destino que são traçadas pelas pontuações narrativas, caminhando de acordo com uma conversa entre o passado, o presente e, ao término do episódio, o futuro desse mundo pós-apocalíptico e seus indivíduos transformados. O que viria depois do assassinato de Negan (Jeffrey Dean Morgan), ansiado desesperadamente por Maggie (Lauren Cohan)? A conversa da personagem com Michonne (Danai Gurira) evidencia essa disposição do passado que afeta o presente, porém, igualmente enaltece que o presente afetará o futuro. As comunidades serão capazes de conviver com esse futuro? Maggie será capaz de conviver com esse futuro? O que viria depois da vida, acima de todas essas coisas?

O homem quase morto se esforça para se manter vivo, enquanto o homem vivo se esforça para morrer. What Comes After decide resolver o confronto entre Maggie e Negan separadamente, sem permitir um intercalamento entre essa trama e a principal. O momento entre os dois, após a viúva conseguir as chaves da cela do personagem, é suficiente para um entendimento, por parte do espectador, de um antagonista completamente quebrado. Jeffrey Dean Morgan, devido a carga dramática presente na cena, consegue se transportar, de um sarcasmo intencionalmente entendido a irar Maggie, a um desespero pungente, quando começa a perceber que seu destino não será a morte, como absurdamente esperava. Ao mesmo tempo, Anne (Pollyana McIntosh) mostra ao que veio como personagem misteriosa, porque sua narrativa se mescla com uma outra, encorajando o público a pensar na série por mais algum tempo, imaginando as possibilidades existentes no transporte de um ex-policial moribundo a consequências nunca antes pensadas? O helicóptero como símbolo de esperança.

What Comes After é um episódio cheio de simbolismos, referências ao passado para justamente trabalhar o futuro – algumas tomadas idênticas. Uma série com muitas temporadas acaba se esquecendo do que veio antes, entretanto, The Walking Dead parece, sem vergonha alguma, se relembrar constantemente das minúcias anteriores, mesmo sem qualquer interesse em conversar – o que não é o caso daqui. O cavalo como meio de transporte é retomado. A música que surge quando o enredo se encaminha para o seu fim – a mesma que tocava enquanto o protagonista se encontrava preso no tanque de guerra do primeiríssimo episódio da série. As alucinações, em seu próprio meio, permitem uma interação entre vivos e mortos que, em um plano terreno, seria impossível. What Happened and What’s Going On, sobre a morte de Tyreese, é um comparativo poderoso. What Comes After não consegue igualar-se emocionalmente ao encerramento da jornada daquele personagem quase ordinário, contudo, um destaque existe no paralelo aberto entre as famílias do antes e do agora.

O saudoso Hershel Greene (Scott Wilson) recebe Rick Grimes em seu celeiro – as reações do protagonista são bastante harmoniosas com a carga dramática existente, assim como no caso de Shane (Jon Bernthal). Já a presença de Sasha (Sonequa Martin-Green), notando uma discordância clara, é dramaticamente injustificável, desmontando o envolvimento do público com a situação onírica retratada. O encontro a sua família, aparentemente, remete ao passado, à premissa de The Walking Dead – um protagonista à procura de sua esposa e de seu filho. O encontro a uma família morta? O convite do fazendeiro, portanto, é um convite de conciliação pós-vida, ao lado de pessoas que amou e não mais pode amar profundamente – nesse ponto, o episódio conversa com as duas tramas existentes nele. A subversão desse pretexto nos garante ainda mais crença no amor nutrido pelo protagonista aos seus outros familiares, os ainda vivos, completamente não-tradicionais, de um mundo avulso ao de outrora. A criança que carrega o sobrenome do pai como nenhuma outra pessoa carregou antes.

Os ajustes técnicos, em última instância, decepcionam no intuito de nos contar essa história sentimental. A defeituosa computação gráfica prejudica a composição visual de cenas contemplativas – por exemplo, certos horizontes. Os diálogos também se redundam nessas alucinações, porque o roteiro não consegue, em mais uma oportunidade fracassada, evidenciar um texto coerente com uma construção de discurso completa. Os personagens falam e falam – coisas pertinentes, de fato -, mas em quais sentidos a retomada do protagonista sanguinolento, de temporadas passadas, relembrado por Shane, conversa com as alucinações do ex-policial, voltadas a “encontrar minha família”? O elenco integral da série, abruptamente, surge para resgatar o herói, enfim – um roteiro despreocupado com isso. O sacrifício do cavaleiro montado em um cavalo branco. A ponte é destruída, no entanto, Negan permanece vivo. Guia à Atlanta em Days Gone Bye, um novo helicóptero surge para guiar o protagonista, mas, agora, a um destino desconhecido. “Eu sou Judith Grimes” significa legado.

The Walking Dead – 9X04: What Comes After — EUA, 5 de novembro de 2018
Showrunner: Angela Kang
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Matt Negrete, Scott Gimple
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Jon Bernthal, Scott Wilson, Sonequa Martin-Green,Lauren Cohan, Danai Gurira, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Tom Payne, Khary Payton, Cooper Andrews, Pollyanna McIntosh, Traci Dinwiddie, Callan McAuliffe, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Matt Mangum, Aaron Farb, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Mandi Christine Kerr, Jennifer Riker, Jeffrey Dean Morgan
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.