Crítica | The Walking Dead – Vol. 5: A Melhor Defesa

estrelas 5,0

Obs: Leia as críticas dos volumes anteriores aqui e da série e games aqui.

Após cinco volumes, The Walking Dead finalmente ganha seu primeiro antagonista, através da figura do governador presenciamos um grau de brutalidade e loucura ainda inédita na obra de Robert Kirkman, algo que seria superado apenas através de Negan, inúmeras edições após. Em A Melhor Defesa temos, talvez pela primeira vez, momentos que sentimos que os personagens principais estão efetivamente em perigo, podendo ter entrado em uma situação extremamente difícil de se sair e que, logo ameaça toda a vida que eles vem construindo na prisão desde Segurança Atrás das Gradeso terceiro volume da série.

twd5-capaSeguindo o estilo dos números anteriores, não temos uma grande passagem de tempo desde Desejos Carnais, afinal, os encadernados são uma mera coletânea de uma obra serializada. A situação na prisão, apesar dos recentes eventos dramáticos, parece estar calma e os moradores dela terminam de limpar o bloco A a fim de aumentar seu espaço e dar início ao funcionamento do gerador de energia. Tudo isso muda, contudo, quando avistam um helicóptero em queda e prontamente, Rick, Michone e Glenn partem para investigar. Essa jornada acaba levando essa parcela do grupo para Woodbury, a pequena cidade onde encontram mais sobreviventes, estes liderados por uma figura conhecida apenas como Governador, que, apesar de sua calorosa recepção, logo se demonstra ser um verdadeiro psicótico.

É interessante observar como os zumbis, a este ponto, se tornaram já quase um elemento do plano de fundo de The Walking Dead, aqui passamos a temer o que os sobreviventes fazem com eles, como se portam em relação a esses mortos-vivos. Já vimos no volume anterior um uso criativo das criaturas por parte de Michonne, que os utilizava como proteção, para se mascarar dos sentidos dos outros roamers, como eles próprios chamam. O Governador, porém, dá um sentido completamente diferente a eles, banalizando sua existência, utilizando-os como diversão em uma deturpada arena construída meramente para o entretenimento dos moradores de Woodbury. É o clássico pão e circo, o antagonista entende isso, precisa manter seus seguidores com as mentes ocupadas a fim de não se virarem contra ele.

O que mais nos chama atenção no vilão, contudo, é como seu declínio é descrito, ainda que seja feito de forma rápida. Ele é uma versão de Rick que “deu errado”, é exatamente o que ele estava para se tornar antes da criação do pequeno conselho que governa a prisão. Os paralelos são óbvios: ele surgiu do meio do povo, sendo o mais apto para a posição, tinha uma família (sua filha agora zumbi) e parece colocar o bem de Woodbury acima de questões morais e éticas. É claro que Rick percebe isso – palmas mais uma vez para o trabalho de arte e do próprio roteiro de Kirkman, que prefere deixar isso nas entrelinhas ao invés de explicitar em um emburrecimento do texto.

É muito curioso observar a diferença entre o Governador da série e dos quadrinhos, enquanto o primeiro conta com uma aura de bom moço, que se transforma em um verdadeiro monstro, as páginas de Robert preferem não nos enganar por muito tempo. Na mesma edição que ele é apresentado já é revelado no ser desprezível que é, e sua verdadeira natureza chega a ser genuinamente assustadora – não há mais volta para um homem desses, ele estupra, mata por diversão, tortura e mutila. Efetivamente ele chega a gostar do que faz, é um exemplo de um homem que se encontrou de verdade após o apocalipse e a beleza dessa construção está em desconhecermos seu passado por inteiro – daqui surge meu receio em ler os livros que contam a história do personagem, algumas coisas ficam muito melhores com o não-dito que a explicitação.

A Melhor Defesa, portanto, é um volume que, em ponto algum nos dá espaço para respirar. É uma jornada insólita ao centro da loucura e o quão o ser humano pode se corromper diante de situações extremas. Nele somos apresentados a um antagonista que consegue, em todos os aspectos, nos enojar e, com isso, esquecemos de todos os outros problemas, como os zumbis. Acima disso tudo, Robert Kirkman consegue, de uma vez por todas, nos fazer temer os seres humanos e deixa a ponta solta para a quebra do status quo na prisão – a segurança atrás das grades acabou.

The Walking Dead – Vol. 5: A Melhor Defesa (The Walking Dead – Vol. 5: The Best Defense)
Contendo:
The Walking Dead # 25 a 30
Roteiro:
 
Robert Kirkman
Arte: 
Charlie Adlard
Arte-final: 
Cliff Rathburn
Capas:
Tony Moore
Letras:
Robert Kirkman
Editora nos EUA:
Image Comics
Data original de publicação: 
janeiro de 2006 a agosto de 2006
Editora no Brasil:
HQM
Data original de publicação no Brasil:
julho de 2011 (encadernado)
Páginas: 
148

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.