Crítica | The Walking Dead – vols. 1 a 11 (Edições #1 a 66)

estrelas 5

Há pelo menos quatro razões para nós, do Plano Crítico, fazermos agora a crítica da HQ The Walking Dead, escrita por Robert Kirkman. A primeira delas é que um site que tem uma seção inteira de críticas de quadrinhos não poderia deixar de falar da que talvez seja a mais bem sucedida série em andamento de HQs fora das grandes editoras (DC e Marvel). A segunda é que a terceira temporada de The Walking Dead acabou de começar e, ainda que a série de TV seja bem diferente dos quadrinhos e muito inferior (sim, muito inferior), é um assunto quente, do momento. A terceira razão é que estamos no meio de nosso Especial Halloween e não há nada mais propício do que falar sobre os zumbis que mais vendem revistas no mundo. A quarta razão, que não é a última, mas vou parar por aqui para vocês não desejarem comer meu cérebro, é que, apesar de The Walking Dead vir sendo publicada aos trancos e barrancos no Brasil em forma de volumes, com o décimo a ser lançado ainda em outubro pela HQM Editora, sob o nome Os Mortos-Vivos vol. 10 – O Que Nos Tornamos, parece que a situação vai mudar e a mesma editora começará tudo do zero, também em outubro, publicando mensalmente a revista, só que com seu nome original em inglês. Antes tarde do que nunca, não é mesmo?

Mas a verdadeira razão para falar de The Walking Dead é o efetivo domínio da narrativa por Robert Kirkman, algo que ele vem mostrando, com bastante solidez, desde o primeiro número da saga do policial Rick Grimes que acorda de um coma em um mundo tomado por zumbis. Kirkman escreve a série ininterruptamente desde 2003, com o 103º número recém-publicado nos Estados Unidos. A presente crítica, porém, somente cobre os volumes 1 a 11, correspondente aos 66 primeiros números da história.

Kirkman, pegando a deixa dos clássicos filmes de George A. Romero, criador do gênero, inventa um universo em que o mundo, basicamente da noite para o dia, foi dominado por lentos zumbis comedores dos poucos sobreviventes ainda humanos. Nosso herói, o policial Rick Grimes, acorda de um coma em um hospital vazio, em uma cidade vazia e não entende nada que está acontecendo. Essa é a exata premissa do ótimo filmeExtermínio, dirigido por Danny Boyle, em 2002. Fica claro que Kirkman pegou emprestado essa estrutura, mas, a partir daí, construiu uma obra bem diferente, muito mais visceral, extremamente perturbadora.

É normal esperar de uma revista em quadrinhos mensal grandes altos e baixos em termos de roteiro e uma troca incessantes de escritores. Por ser controlada exclusivamente pelo autor, porém, a consistência de The Walking Dead não é a de uma revista em quadrinhos normal. É possível ver que o autor tem um plano maior e sabe para onde está indo, ainda que, claro, o enorme sucesso de sua empreitada tenha muito provavelmente acrescentado anos e anos de publicação a mais que ele não havia originalmente planejado. Mas há material para isso e Kirkman sabe escrever de forma a prender o leitor do começo ao fim.

Para quem não leu, não vou estragar nada pode deixar, mas a história se desenvolve em ritmo alucinado, com a introdução de personagens novos de maneira constante e crível. Como quase todo material que lida com zumbis, Kirkman procurou fazer uma alegoria sobre a raça humana, mostrando o que aconteceria se uns poucos  humanos restassem depois de um cataclisma. Kirkman, porém, tenta fugir um pouco da crítica ao consumismo, comum nos filmes de Romero e ataca mais a natureza humana. Em seus quadrinhos, o maior problema de Rick Grimes e seu grupo de sobreviventes não é o fato de estarem todo tempo cercados de zumbis, mas sim a reação dos seres humanos ao seu redor. Os maiores horrores são causados por outros sobreviventes, mostrando que somos nós os verdadeiros monstros. Os zumbis são meros MacGuffins.

E Robert Kirkman não deixa pedra sobre pedra. Ele nos brinda com situações envolvendo de vilões clichê até criancinhas que ficam completamente insensíveis às mortes ao redor. E ele não deixa a peteca cair. Quando a situação está estabelecida e uma aparência de calma baixa sobre os personagens, Kirkman cria novas situações piores que as anteriores, para testar a força de sua criação e os limites do que seus leitores aguentam. Há apenas uma constante: Rick Grimes. Não esperem mais nenhuma outra. E, mesmo assim, o que Kirkman faz com seu herói é de uma maldade inenarrável.

E, aliás, como são seus personagens? Grimes é o protótipo do líder relutante. Um policial honesto que, de repente, tem que lidar com situações indizíveis. Ao encontrar o primeiro grupo de sobreviventes, suas atuações acabam colocando-o naturalmente como um verdadeiro líder a quem todos vão perguntar o que fazer. No entanto, cada personagem tem personalidade própria, que é tratada e desenvolvida em detalhes. Nós, leitores, somos levados a conhecer cada um dos componentes do grupo de Grimes e, obviamente, nos apegamos a alguns mais do que a outros.

Mas é aí que a serra elétrica de Kirkman entra e saculeja o status quo. Descobrimos, logo de início, que nenhum personagem – nenhum mesmo – é tão importante que não possa morrer, ser mutilado, abusado ou enlouquecer, dentre outras possibilidades mais aterradoras. Kirkman nos choca com uma história contínua de horror em que tudo que achamos que já sabemos pode mudar de uma página para outra.

A presente crítica não pretende esgotar o assunto. São, afinal de contas, 11 volumes para comentar. Há momentos de ação intensa envolvendo só humanos e humanos e zumbis. Mas há momentos de calma, paz, tranquilidade que deixam qualquer um desesperado, pois é claro que não podem durar muito e que a sana destruidora de Kirman virá a qualquer momento.

No entanto, o gigantesco arco da prisão da Geórgia merece destaque. Ele vai do número 13 ao 48 e são acontecimentos chocantes em sucessão. Grimes e sua turma, depois de muito fugir dos zumbis, parecem ter encontrado um paraíso: uma prisão cheia de zumbis que eles logo limpam e passam a lá morar. A calma se estabelece e as pessoas recomeçam, vagarosamente, a viver o semblante de uma vida normal, ou, pelo menos, o quão normal a vida pode ser em um mundo povoado por monstros devoradores de humanos. Todavia, a calma revela outros tipos de monstros. Monstros que matam, mutilam e estupram sem dó, sem pensar duas vezes. Monstros que causam muito mais dor que um zumbi jamais poderia infligir numa pessoa. Rick, que, nesse momento, está feliz já que achou sua esposa e filho (isso não é segredo, pois acontece logo no início), tem que tomar as rédeas das diversas e perfeitamente críveis situações que vão se desenrolando, até um final de arrancar lágrimas de qualquer marmanjo que leia a série (sei que vocês não vão admitir, mas é verdade!).

O arco da prisão é uma prova da habilidade de Kirkman em manipular os sentimentos de seus leitores. É uma prova de que sua capacidade de contar histórias é inabalável, quase perfeita. Depois do famoso arco da prisão (que é o arco da terceira temporada da série televisiva, mas que eu duvido que, na telinha, os produtores tenham coragem de reproduzir o que acontece nos quadrinhos), Kirkman faz uma longa pausa, deixando que os leitores se recomponham e respirem. O autor vai, aos poucos, pegando os cacos de tudo que sobrou e cria um novo status quo. Não tem muita ação, mas o lado psicológico é forte e brutal, como deve ser a dor de uma faca perfurando lentamente a carne.

A arte também é sensacional, toda em preto-e-branco, sem concessões. É o contraste do chiaroscuro criando cenas arrebatadoras, que deixarão qualquer um na ponta do sofá roendo as unhas. Tony Moore  desenha o começo da série e Charlie Adlard pega a partir do número 7, sem qualquer solução de continuidade ou mudança muito radical no estilo.

Sendo fãs ou não da série de TV, aqueles que nunca leram The Walking Dead e gostam de quadrinhos, façam um favor a vocês mesmos e acompanhem essas publicações.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.