Crítica | The Wicked + The Divine – Vol. 1: The Faust Act

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estrelas 5,0
Para entendermos melhor o quadrinho titular dessa crítica, é necessário que olhemos primeiro para a sua editora mãe, a Image ComicsJim Lee, Todd McFarlane, Erik Larsen, Jim Valentino, Marc Silvestri, Rob Liefeld e Whilce Portacio eram artistas que trabalhavam para as grandes editoras do mercado de quadrinhos. Entretanto, diferente do que o público desavisado tem em mente, trabalhar na casa das idéias e em sua concorrente não era tão bom assim. Lá os criadores não possuíam nenhuma liberdade criativa, todos eram limados pela figura do editor, que fazia questão de cortar as asas de seus criadores. Além disso, os desenhistas e roteiristas não possuíam nenhuma parte do lucro que o título arrecadava, tudo ficava para o bolso da editora, e a mente por trás da obra ganhava apenas o seu salário convencional.

Revoltados com essa ditadura de conteúdo, o grupo já citado resolveu criar a Image Comics. Não me aprofundarei nos detalhes da história e nem em suas mudanças de visão durante esses anos. Resumirei o cerne, ou melhor, a palavra mãe da editora: a liberdade.

É nesse conceito de liberdade que surge o quadrinho The Wicked + The Divine, escrito por Kieron Gillen e com ilustrações de Jamie McKelvie . Faz-se necessário a explicação da editora por trás do título, devido à trama que a HQ possui, já que ela nunca poderia ser publicada em grandes editoras, mesmo que vistam a máscara da vanguarda, ainda são muito retrógradas no conteúdo de suas páginas.

Ananke

A trama da obra nos diz que a cada noventa anos doze deuses se manifestam em jovens na nossa terra. Eles são chamados de panteão, as pessoas que recebem a reencarnação divina também ganham fama e poderes sobrenaturais, mas em compensação essas entidades só vivem na terra por um curto período de dois anos. É nesse mundo que encontramos Laura, a narradora e protagonista de nossa história.

Ela é uma menina de dezessete anos, no auge de seus conflitos e inseguranças. A história começa com a garota indo no show de uma grande cantora que, ganhou toda a sua enorme fama em apenas duas semanas. No show toda a platéia desmaia, sendo Laura a última a ficar inconsciente. Quando acorda a menina conhece Lúcifer que, pasmem, não é um demônio rubro com tridente e calda. Muito pelo contrário, aqui vemos uma mulher branca de terno branco e olhos azuis, que prefere ser chamada de Luci.

Muitas coisas acontecem e como essa é uma crítica que não contém o maior demônio atual, o temido spoiler, não poderei me aprofundar nas nuances da trama de Kieron Gillen.

Dizem que não pode se julgar um livro pela capa, não sei se isso se aplica para quadrinhos, mas se fosse o caso, The Wicked + The Divine não teria problema algum em ser julgado pela sua. Não devemos poupar elogios à arte de Jamie McKelvie, logo no começo já se pode notar traços muito bem detalhados e expressões de tirar o fôlego. Ele também acerta na continuidade de suas cenas, tudo é muito bem situado e as ações dos personagens são de fácil entendimento, tornando a leitura muito agradável. As cores de Matt Wilson e Dee Cunniffe também são muito bem trabalhadas, usando muito de vermelho, amarelo, azul e branco. As cores chegam a lembrar pop-art em alguns momentos chaves da trama.

Há um aspecto à arte de Jamie McKelvie que não deve passar em branco, o design dos personagens. Todos os deuses que encontramos no panteão são muito bem estabelecidos visualmente. Cada um possui sua individualidade fazendo com que, em nenhum momento o leitor se confunda durante a leitura.

The Wicked + The Divine

O roteiro de Kieron Gillen é no mínimo interessante. Vivemos em um mundo no qual as celebridades são amadas, veneradas e odiadas em uma velocidade tão rápida que chega a ser impossível saber quem é, ou foi, ou será o próximo super astro. The Wicked + The Divine lida com todo esse amor e ódio, Gillen nos faz refletir sobre a necessidade do indivíduo de amar e ser amado, ele manuseia com muita sutileza  temas difíceis de serem mexidos. Em uma sociedade extremista escrever sobre demônios e deuses é como pisar em ovos. Ainda mais quando se faz um personagem com o nome de Lúcifer que é bonita, inteligente e carismática.

O quadrinho ainda possui diálogos muito interessantes, que vem no formato de conversas banais de uma adolescente. Até as crises de revolta da protagonista são bem colocadas, fazendo com que a personagem deixe de ser uma simples jovem, e se transforme em algo em desenvolvimento. Com certeza Laura ainda irá crescer na saga, mas por enquanto Kieron prefere que o leitor se apaixone por Lúcifer, que é com certeza o brilho de toda a edição.

The Wicked + The Divine é um título que necessitava de liberdade para ser executado, ele lida com os taboos de toda a sociedade. Que bom que temos editoras como a Image que acreditam que não há limites para a arte.

The Wicked + The Divine – Vol.1: The Faust Act (#1 a 5) — EUA, 2014
Roteiro: Kieron Gillen
Arte: Jamie McKelvie
Cores: Matthew Wilson e Dee Cunniffe
Letras: Travis Lanham
Editora original: Image Comics
Datas originais de publicação: 2014
Editora no Brasil: Novo Século
Páginas: 160

PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".