Crítica | The Witcher: A Casa de Vidro

estrelas 4,5

Se há alguma história que perfeitamente exemplifique o conceito de transmídia essa é aquela do witcher Geralt de Rívia. Criado pelo polonês Andrzej Sapkowski, em 1990, a saga do caçador de monstros teve seu pontapé inicial na literatura, cujos contos e livros rapidamente dominaram a Europa. Desde então dezenas de histórias em quadrinhos, séries de televisão e até filmes utilizaram tal material como fonte e em 2007 a CD Projekt Red trouxe ao mundo o game The Witcher, que expande a mitologia de Sapkowski criando novas histórias, sem ser estritamente uma adaptação. A franquia de games atingiu seu ápice, recentemente, com The Witcher 3: Wild Hunt, o maior sucesso do desenvolvedor e uma verdadeira obra-prima. A Casa de Vidro, embora certamente dialogue com todas as outras peças em outras mídias, é parte do viés criado nos games, tanto que recebe o nome The Witcher.

casadevidroNão é por isso, porém, que não conhecedores dos games ou até mesmo dos contos devem se distanciar desses quadrinhos. O roteiro de Paul Tobin é cuidadoso ao não se apoiar no que veio antes, algo feito com maestria pela própria CD Projekt Red, que constrói seus jogos como peças únicas e individuais que apenas referenciam umas às outras. A Casa de Vidro traz o que há de melhor nesse sombrio universo. Geralt, em uma de suas viagens solitárias, acompanhadas apenas pelo seu cavalo, Roach, cruza com um estranho caçador, um homem que é atormentado por uma espécie de fantasma de sua falecida esposa. Estabelecido esse contato inicial, onde ambos trocam poucas histórias de si próprios, eles adentram a Floresta Negra e prontamente concluem que isso fora um grave erro. São forçados, portanto, a fugir para uma mansão amaldiçoada, onde mais monstros e aterrorizantes revelações se fazem presentes.

Não há como deixar se imergir dentro dessa misteriosa narrativa. Com diálogos realistas e bem construídos, sempre oferecendo detalhes, que ora constroem os personagens ora a própria história desenrolando ao seu redor, enxergamos que nada nas 144 páginas dos quadrinhos está ali por acaso. Tobin constrói sua história como uma verdadeira investigação, onde o leitor, sempre sob a perspectiva de Geralt, deve ser atento e dessa forma passa a tomar as mesmas conclusões que o witcher. No fim a narrativa flui de forma tão orgânica que não poderiamos esperar um desfecho diferente para ela e, assim como muitas quests dentro dos games da franquia, somos deixados com um nítido desconforto, algo que, inclusive, se mantém durante todo o quadrinho.

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Responsável por isso, é claro, é a arte de Joe Querio, que a principio gera certo estranhamento no leitor pelo constante oscilar entre os detalhes e a falta deles. Um olhar atencioso, porém, revela sua intenção por trás de tal escolha artística. Enxergamos a ausência de um maior detalhamento em certos quadros como uma espécie de foco fotográfico, que atrai nossa atenção para outro lugar, ao mesmo tempo, Querio procura aproximar as ações dos personagens com os vitrais na casa de vidro, algo que deve ser especialmente observado a fim de construirmos em nossa mente toda a história por trás daquele local e dos personagens centrais da obra. Acima de tudo, Joe consegue estabelecer com exatidão o clima necessário para nossa total imersão, um de terror e mistério, que faz cada página implorar pela próxima.

Diante de tal qualidade – tanto do roteiro quanto da arte -, aliados a uma edição brasileira, em capa dura, simplesmente fantástica, elaborada pela Pixel Media (pertencente à Ediouro), não consigo pensar em um único motivo sequer pelo qual qualquer leitor de quadrinhos deva se afastar dessa leitura. A Casa de Vidro é um perfeito exemplo de como o mundo criado por Sapkowski é simplesmente apaixonante e tenebroso ao mesmo tempo e mais uma vez, essa é uma história que não requer qualquer conhecimento prévio desse universo, ainda que ela certamente crie uma vontade grande de conhecermos todo ele.

The Witcher: A Casa de Vidro (The Witcher: House of Glass – EUA, 2014)
Roteiro:
Paul Tobin
Arte: Joe Querio
Cores: Carlos Badilla
Editora (nos EUA): Dark Horse Comics
Editora (no Brasil): Pixel Media
Páginas: 144

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.