Crítica | The Young Pope – 1ª Temporada

estrelas 5,0

Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Fernando Pessoa

– Há spoilers.

Para não baratear a discussão

Era Heine quem dizia que só se é traído pelos seus. Pobre teologia, traída, maltratada e ridicularizada diariamente no cenário eugênico contemporâneo. Ora expressada pelos seus como caridade social tingida com estrelas vermelhas, ora como marketing religioso – nosso papa é adepto do Selfieismo e faz cara feia para Trump, o que comprova a tese do poeta Humberto Gessinger – quando não os dois ao mesmo tempo, a Igreja virou piada em qualquer conversa intelectualóide. Faça um experimento e tente falar sobre Deus – sem militar ou exortar – com os crentes da História, da Política, da Neurociência, da Estatística, da Pedagogia ou da Cultura. O monopólio da pureza que tais deuses produzem em seus fiéis é intocável.

É bem verdade que teólogos amadores fazem melhor teologia do que os profissionais. Krzysztof Kieslowski cansou de fazer isso. Dostoievski, filósofo religioso, é outro que oferece muito mais consistência do que humanistas ingênuos que creem na conciliação escatológica entre racionalidade científica e religião. Sua denúncia – e seu estrago – é focada na modernidade ridícula, incapaz de reconhecer a insuficiência do ser humano como ser abandonado, exilado, rasgado ontologicamente. Uma visão, convenhamos, pouco atrativa para engolidores de soma Prozac.

Se o autor de Os Demônios propôs decência nessa discussão na literatura, na televisão de ouro do século XXI é The Young Pope que herda, com certa dose de sátira e cinismo – como Dostoievski – o papel de indagar a relevância do Cristianismo e as diversas máscaras cristãs já vestidas nos âmbitos políticos e espirituais.

Isso significa, em suma, que leitores de Dan Brown e Richard Dawkins se decepcionarão. Se você procura preconceito crítico – pueril, leia-se – contra a Igreja Católica, não vai entender uma vírgula do contraditório Lenny Belardo, o papa Pio XIII interpretado brilhantemente por Jude Law. Existe uma aparente opção pela agonia em The Young Pope que aponta, diferentemente de discussões irrelevantes e teorias da conspiração – sempre envolvendo a Ordem dos Templários, fetiche dos diletantes lights – para uma renúncia àqueles que levaram a sério Ivan Karamazov: Mata-se o pai – Deus, a tradição – para que a fé divirja até alcançar as ilusões de perfectibilidade da Modernidade

Um equívoco parece nublar constantemente qualquer conversa quando se chega ao flerte com as soluções para o niilismo – curiosamente, o próprio Ivan acaba surtando por não aguentar as últimas consequências do seu brado niilista à mesa confortável de jantar. O seu tudo é permitido não é um mandamento ascendente, otimista, revelador de que o homem pode ser extraordinário e trazer o reino de Deus para o reino de César, matando piolhos, como pensava outro personagem dostoievskiano. Muito pelo contrário, ainda que esta discussão não caiba aqui. Fato é que uma má interpretação da conversa do autor russo com o niilismo – que culmina no absurdo de chamar o próprio Dostoievski de niilista – acaba criando tal equívoco que apontei: acredita-se que a religião cria a busca pela imortalidade, não o contrário.

Matando-se Deus, pensou-se acabar com o problema de sentido, posto que elegeríamos o nosso próprio sentido existencial – existencialista, no caso do empreendedor de ideias Jean-Paul Sartre. E mais. A bem da verdade, o real problema em matar Deus, no sentido de ancestralidade, hábitos, costumes etc. foi o da cegueira em relação ao desejo humano por Imortalidade, não como figura metafísica atingível, mas como expressão do vazio existencial que o mero fato de existir provoca. A Modernidade coloca fé no humano e pensa ignorar sua posição de abandono, mas seu próprio brado contra a religião soa como o choro infantil diante da indiferença cósmica.

Esse crucial aspecto já tomou diversas formas. Para ficar em dois, o auto reconhecimento como homem caído pode figurar no absurdo de Camus ou no homem ridículo de Dostoievski – sem contar o Gênesis, obviamente. Na série ora criticada, diz o cardeal Voiello: Esther disse que não queria mais pecar. A frase que mais ouvi na vida, todos acreditando no que falavam. Mal ela sabe que enquanto tivermos consciência, estamos condenados ao pecado. Mais interessante é notar como a Modernidade produziu uma negação à tal visão em suas diversas formas – ou a englobou na auto-ajuda barata aniquiladora de qualquer aproximação com a angústia, que deixa de ser a vertigem da liberdade kierkegaardiana para se tornar simplório mal-estar a ser resolvido eficazmente em alguns cliques de consumo. Nega-se sofrimento, nega-se nossa condição ontologicamente contingente, nega-se o acidente que é o nascimento – um simples orgasmo fora de hora, por vezes – e nega-se o milagre que é viver. Negando nossa fome pelo Absoluto que, repito, serve aqui como horizonte negativo para qualquer percepção sobre a própria falibilidade, começa-se a gritar por direitos lá longe, bem distante de qualquer espiritualidade que acaba por cair ou em puro marketing – sabe aqueles pastores e padres que fazem shows e rezam alto? – ou no próprio âmbito político.

A salvação tornou-se sócio-política. Mais resiliente, ela não cessou com a morte de Deus, apenas tomou uma forma espetacularmente sutil.

Para matar Deus não precisamos chamar Ivan Karamazov ou Nietzsche – ambos muito alertas sobre outras divindades e ambos, curiosamente, mal lidos pela galerinha “paz e amor” do século XX. Basta, como The Young Pope indica com um sorriso de canto de boca, a Igreja esquecer de si mesma e seus fiéis tornarem-se preguiçosos semiletrados.

A Contradição

It’s the devil’s way now
There is no way out
You can scream and you can shout
It is too late now
“2+2=5”, Radiohead

Entre graça e natureza (o dilema de A Árvore da Vida), a modernidade aposta na última. É a partir desta constatação que The Young Pope começa a derramar seu ácido. Esquecemos de quê, pergunta Lenny nas suas primeiras palavras. Após breves frases demagogas, sua resposta taxativa vem: esquecemo-nos de masturbar. De abortar, de celebrar casamentos gays, de usar contraceptivos. De permitir casamentos de padres, de divórcios, de suicídios. Esquecemos, em suma, de ser feliz.

Mas era só um sonho – ou um pesadelo.

O ponto de partida da série revela muito sobre seu intuito. O que no primeiro momento aparece como a crítica ordinariamente feita à Igreja, do tipo que dá sono, é posto em cheque. Não sabemos se Lenny, ou melhor, Pio XIII, atende a agenda secular moderna vista no sonho ou se a abomina. Se ele escolherá a natureza, acreditando que o sentido da vida é a felicidade e que alcançá-la só será possível por meio da libertação da Igreja de seus dogmas, ou se o sonho é indício já crítico à ética utilitarista totalizante, apenas descobriremos com as pistas de um sorriso ou de um olhar de Jude Law.

O próprio jovem papa se assume como uma contradição ambulante – e a bíblia é fundamentalmente ambivalente. Repousando na conflituosa personalidade de seu protagonista, a série, ainda que pontue justamente a hipocrisia da Igreja como instituição política que é, opta pelo subjetivismo. A jornada de The Young Pope é, de fato, a dessa figura que Law interpreta com perfeição. Aparentemente imprevisível, irascível, vingativo, narcísico. Precário, Pio XIII não faz um longo percurso para chegar, ao final da série, na dúvida de Deus. Ele parte dela.

A noção da fé em crise, se bem trabalhada, sempre dá frutos, exatamente por olhar àquela fratura ontológica que nos caracteriza e nos fascina. É como uma saudade de Deus – como Deus laico, que fique claro. A novidade é colocar o tema na persona do papa. Um papa americano, jovem, bonito e conservador. A antítese de Francisco I.

Com isso, The Young Pope se faz ouvir e, ao falar, mostra uma perspectiva interessantíssima. Os jovens são sempre mais radicais do que os velhos, é dito na primeira metade da série. Em vez de duelos políticos na surdina, ao estilo Westerosi, a série busca explorar essa frase em suas arestas mais recônditas. De Lenny ao Cardeal Voiello de Silvio Orlando, que dá uma aula de atuação atrás da outra, descobrimos faces e mais faces das personagens. Ainda assim, imagino gritos esbaforidos de “reacionário”, “conservador” – como um ultraje – e, por que não, de “fascista” ao papa e à Igreja, essa instituição opressora que não entende nada da humanidade há dois mil anos.

É preciso frisar a preocupação prioritária. Não raramente as denúncias dos modos do Vaticano e de seus problemas morais e políticos viram tema para Oscars e afins. Há tudo isso em The Young Pope, jogos do conclave, etc., mas a série se recusa a ser reduzida a isso, o que a faz um ponto fora curva. Importante é o embate interior no próprio Lenny. O que deixa seus pares preocupados e desconfiados? De onde vem sua percepção sui generis do papel da Igreja? O que o faz uma contradição?

A definição de Miguel de Unamuno pode jogar uma luz – ou trevas, definitivamente – sobre o tema que a série trata: Vida é tragédia e a tragédia é uma perpétua luta, sem vitória nem esperança dela: é contradição. É valor afetivo, sentimento. Não surge de ideias, as determina. Quer-se, em resumo, mais vida e menos vida ao mesmo tempo. Em Lenny, isso se expõe em uma passagem memorável dessa temporada, talvez a mais reveladora.

Em face de um “plano” bolado pelo papa, seu mentor e pai espiritual Spencer (James Cromwell) o acusa, dentre outras coisas, de agir como uma criança ressentida com a própria vida e, além disso, de imaginar que seu sofrimento seja o mesmo de bilhões de católicos. Ressentimento este devido ao fato de ter sido, quando pequeno, abandonado por seus pais hippies em um orfanato.

Que meus colegas de coletivos sociais não me ouçam, mas o mesmo escritor espanhol diz que não há nada mais universal que o individual. Lenny, de fato, parte da sua própria experiência subjetiva, mas não a vê com maus olhos. Muito pelo contrário, responde, à certa altura, que orfandade não se trata apenas de não ter pai nem mãe. Sob a perspectiva aberta de existir órfãos de outra maneira, o papa indica seu núcleo espiritual a ser refletido em sua política, não o contrário.

A Primeira Homilia

O primeiro momento chave de The Young Pope vem com a esperada primeira homilia do papa, graças à bela expectativa arquitetada desde o sonho inicial que abre a série. Se no sonho a simples presença de Lenny abre os céus e retira os negros guarda-chuvas da população ansiosa e sorridente na Praça de São Pedro, a realidade cai como uma dura pedra em cima do espectador que se deixou levar pelo brilhante jogo de composição das duas cenas.

Na homilia há chuva. Há noite. Um clima pesado paira no ar, prestes a virar chumbo quando o próprio papa se mantém oculto. Vemos apenas sua silhueta, escura, impessoal. Esquecemos de quê, pergunta Lenny novamente. A resposta vem com o dedo em riste: esquecemos de Deus. Vocês esqueceram de Deus. Eu não tenho de provar que Deus existe.

Receita pronta para leituras melindrosas acusarem a série de tudo aquilo que já falei. Lenny é o novo Trump.

A notória falta de humildade e o excesso de raiva do papa, como se tivesse engolido por tempo demais a estupidez alheia, ultrapassa o reducionismo que religiões lights e cientistas sociais gostam de apontar. Uma frase resume o perigo de sua jornada: Eu não sei se vocês me merecem. Palavras duras, mas não novas. Jó já havia apresentado o pecado da idolatração da própria virtude. Em outros termos, por que um justo – como eu – sofre?

Mas um outro lado do discurso também precisa ser analisado. Frisados os justos perigos desse brado inicial, por que não tentar compreender o que Lenny chama de seu plano? Sem espaço para livre-arbítrio, liberdade, emancipação e caridade, faladas genericamente, a homilia é um convite à procura – especificamente, à procura na escuridão e na chuva fria, como a própria cenografia sensivelmente indica. Suspenda o julgamento impetuoso sobre a radicalidade do papa.

Em palavras kierkegaardianas citadas por Paul Auster em seu Retrato de um Homem Invisível: aqui fica claro que somente aquele que trabalha obtém o pão, somente aquele que se angustia encontra a resposta, somente aquele que desce ao submundo resgata a amada, somente aquele que puxa a faca recebe Isaac (…) Aquele que não trabalha deve tomar conhecimento do que está escrito sobre as virgens de Israel, pois ele gera o vento, mas aquele que deseja trabalhar gera seu próprio pai.

O plano de Lenny é fundamentar o mistério já anunciado em cenas anteriores. Ausência é presença. Como papa, sua ausência é o que despertará, em sua lógica, a centelha dos fiéis a se angustiarem, pois só quem se angustia encontra a resposta. E como Joseph Brodsky disse, na boca de Lenny, a beleza, em temperaturas baixas, é beleza.

Diante da morna resposta moderna às próprias crenças, o papa Pio XIII relembra uma estratégia que fez o cristianismo triunfar, ainda no Império Romano: provocar e impor seu fervor. Mas tal fervor só vem por meio do vazio. De seu reconhecimento. E a natureza – lembrando de ser esta a opção da Modernidade, inclusive a dos católicos lights e católicos ateus modernos – tem horror ao vazio, como diria Lucien Jerphagnon, especialista em filosofia antiga e medieval.

Atuando não apenas no plano espiritual, mas também no político, o personagem de Lenny se mostra maquiavélico. Estrategista nato, sabe jogar com as peças da religião e do marketing – tão inseparáveis hoje em dia, afinal – para se fazer ser ouvido, mesmo que não compreendido na maioria dos casos. Apostando no hiperbólico da inacessabilidade, o papa, junto com a assessora de imprensa que parece ser a que mais o compreende – exceção feita à Irmã Mary – começa um culto à sua figura oculta.

Muita luz, afinal, cega. Idolatrar as “luzes” pode ser sintoma de estupidez. Ou mera intolerância disfarçada de virtude secular. É contra este comportamento que brada Lenny. Com seus exageros, é claro. As questões da pedofilia e da homossexualidade, para não entrar em spoilers demais, são tratadas com magnífica sobriedade no arco do cardeal Gutiérrez (Javier Cámara), indicando os excessos de ambos os lados da moeda.

O medo, enfim, de duvidar de Deus – de sofrer da contingência ontológica que Lenny sofreu quando seus pais o abandonaram e desapareceram – aparece progressivamente em todos os lugares no seriado. Uma freira chora sem parar pela morte da irmã, mas se recusa a voltar à sua terra natal porque não quer duvidar de que Deus existe. Ninguém deseja mais Deus e só se tornando mistério aos olhos do grande público que Ele retomará sua relevância, pensa Lenny. E Lenny veste a persona divina. Buscando pureza, é taxativo: melhor poucos e confiáveis do que distraídos e indiferentes. Bye Bye amor universal.

A tendência totalitária pode soar óbvia aos ouvidos dos desavisados, mas é importante que se diga que o papa fictício é herdeiro de sólida tradição teológica, uma que vai de Santo Agostinho ao protestantismo de Lutero. Lenny busca pureza na interioridade. Se, como papa, opta por meios marqueteiros bem direcionados e por discursos incisivos, pobre da sensibilidade mimada moderna. É nessa denúncia que o diálogo entre formas de pensamento religioso diametralmente opostas se dá, algo pouco apreendido por quem pensa que o mal no mundo é relativo e que basta o homem querer que vai conseguir conciliação nessa dualidade.

Seu discurso até pode se assemelhar a um traficante de drogas que aparece na série: só há violência se há falta de respeito. Mas houve violência, na perspectiva de Lenny, e cabe a ele, chefe da Igreja, retomar sua ortodoxia provocando uma mórbida curiosidade que, se bem direcionada, permitirá um descobrimento da própria morbidez presente em cada alma.

Uma Queda

Indiquei no prefácio a noção do homem caído, cara aos autores mais lúcidos e menos redentores da humanidade como um “todo político”. Tal noção implica, como o homem ridículo de Dostoievski expressa, um outro lado da moeda, o da maldade inerente à condição humana. O mal, mais do que tudo, é o exemplo cristalino de como a contemporaneidade moderna é ignorante de si, patética e boba em suas discussões sobre a famigerada “conscientização política”, tão querida nos ensinos médios. Não é preciso ressaltar mais o sangue fascista que corre nas veias dos melhoradores de mundo, muito comumente o mesmo tipo de pessoa que grita “Fascista!” a torto e a direito.

Sendo ou não a Política a nossa Deusa – já apontei outros tipos de divindade, mais próximas do cartão de crédito – o fato é que o papa Pio XIII recusa a redução às tais heresias. Mas não clama, como poderia se imaginar, à crença cega, como um anjo faria. Nas palavras de Harold Bloom, anjos benignos muito frequentemente parecem confundir sua inocência com ignorância, mas anjos caídos sempre parecem ter passado por uma educação à moda antiga (…) anjos caídos, demônios e diabos. Eles provocam em nós tanta ambivalência quanto uma certa ambiguidade de afeto. Essa mistura de prazer e horror é mais antiga do que o Romantismo e mais universal do que a tradição ocidental.

A mesma intuição shakespeariana que vemos em Macbeth, por exemplo, opera aqui. Lenny atrai pelo seu carisma e, principalmente, pela sua lucidez. Seu ceticismo é encorpado, o que o faz imune aos raciocínios simplistas – e também o deixa extremamente inseguro nos momentos mais frágeis em que sua responsabilidade como papa pesa.

O problema não é o niilismo em si – consequência possível desse ceticismo extremo – mas o que se faz a partir de sua constatação. Raramente se leva tal postura filosófica ao limite no plano simbólico. Os que o tentam no plano prático ou se tornam risíveis ou viram, geralmente, totalitários absolutamente ridículos em busca de salvação pela política, daqueles que monopolizam a virtude. Pode-se construir a partir do niilismo? Deve-se abraça-lo? Afundar-se nas trevas? É possível ignorá-lo? Dá-se ou não um salto de fé?

Não é de meu interesse responder a tudo, nem o da série. Certamente, porém, The Young Pope indica que afundar-se na escuridão parece ser o único caminho para encontrar uma luz que seja, na falta de palavra melhor, genuína. Só o desespero revela nossa fragilidade, sob este olhar. Pois este olhar é o único que vê os detalhes, as frestas das portas que permitem a entrada de Deus, como no Cântico dos Cânticos. Partindo do pressuposto de que a religião, ao contrário do que a moda prega, é uma das poucas expressões de pensamento que não teme o sofrimento e o pesadelo, a série dita um viés do intelecto teológico extremamente maltratado pela própria teologia. Sob os holofotes aqui, a famigerada Teologia da Libertação.

A escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís já dizia em sua época do desejo inexorável de todo mundo querer agradar e salvar o próximo. Lenny ficou de saco cheio dessa postura que, ainda que parta de uma hermenêutica cristã, acaba por desvirtuá-la, jogando no lixo os sinais do mistério salvífico de Cristo e da liturgia. Como contraponto à Modernidade e à TL, insistentes em ideologias que querem o reino da Paz e do Bem-Estar aqui e agora a todos, a ideia que The Young Pope provoca – sobre a existência de um sentido na desgraça e na dor – é olhada como completo nonsense.

A busca convicta de auto-estima e felicidade ensurdece. Dada tanta miopia interpretativa, que parte dessa preocupação prioritária da própria paz de espírito – normalmente comprada à vista ou alcançada em torcida para reality shows – o discurso de The Young Pope, quando não soa totalitário politicamente, recai no velhíssimo e chatíssimo argumento da morbidez pela morbidez, como se a morbidade fosse uma característica distante daquele abençoado que já alcançou estabilidade nas energias de sua vida new age.

Ou melhor, como se a morbidade não tentasse. Como se fosse possível evitar o chamado das sombras – e pior: como se a misericórdia e a graça não passassem por essa questão. Como se elas pudessem ser compradas ou atingidas se trabalharmos muito, ou meditarmos muito, ou conhecermos muito. Vira-se a cara para o encanto que a perversão profunda da nossa alma provoca, ou tende-se a anulá-la com algum tipo de animismo ou energia positiva barata.

Novamente, acha-se que o homem consegue fazer tais coisas, ignorando-se completamente aquilo que Dostoievski – sempre ele – indicou de diversas formas: o homem é um ser visitado, como na epilepsia do princípe Michkin em O Idiota. Autocontrole, racionalidade, sabedoria, erudição, merecimento. Nada disso é levado em conta quando o mal ou a misericórdia resolvem cair em nós como um raio.

Como ilumina Luiz Felipe Pondé: não há como amar alguém sem ver nele o mal. Sem Lars Von Trier não há Terrence Mallick.

Virtuosos Espalhafatosos

In my eyes, indisposed
In disguises no one knows
Hides the face, lies the snake
The sun in my disgrace

“Black Hole Sun” Soundgarden

A maldade humana, enfim, é um problema político? Seria o sistema opressor que desperta o mal em nós? Seria ele, pelo menos, um intensificador da serpente do paraíso que se esconde no âmago da nossa alma? A questão perpassa por visões de mundo, é preciso dizer em face dos candidatos a isentos, conflitantes. Ou se vive Sob o Sol de Satã ou nossa existência é um projeto a ser moldado livremente, sem culpa, sem orgulho, sem inveja. Com indiferença metafísica e plena liberdade.

Evidentemente, a série, como boa teologia, denuncia logo de cara a fraqueza da segunda opção – as duas opções que coloquei não são, a bem da verdade, uma questão de escolha subjetiva. Focando-se na personagem do papa, mais do que em seus arredores políticos no Vaticano – justamente e belamente trabalhados e denunciados – The Young Pope fala de poder, mas, como alerta o criador e diretor dos dez episódios, Paolo Sorrentino, este não é o aspecto prevalecente da obra. O principal aspecto da série é ser um suspense sobre a alma.

Por que? Porque o papel da Igreja é o de olhar a miséria eterna humana. Eterna, não histórica. The Young Pope denuncia os excessos de Lenny Belardo quando este se vê, mesmo que com firme noção de que a Igreja trabalha na eternidade e não na história, orgulhoso. Revoltado – politicamente – o papa Pio XIII transpõe a revolta do amor-próprio ferido – aquele rasgo ontológico básico – para o âmbito narcísico da teologia como política.

Pega-se no calo de muita gente quando a denúncia é tão visceral, geralmente porque, na seara político, há briga de foice entre cegos e surdos, algo sondado por Lenny quando, em sua primeira homilia, jogou “amor ao próximo” à frugalidade. Em foco, teólogos da libertação. Mais escancaradamente, os hippies, que englobam por si mesmos traços de um imenso contingente de gente, incluindo o primeiro-ministro italiano, que classifica as teses do papa como retrógradas e obscuras.

Para reduzir o escopo, uma palavra sobre o problema com a política – e a relação que os hippies e a contracultura estabeleceram com ela – que a obra aponta como um fator basilar da perda de identidade da Igreja. A teologia é levada a um limbo intelectual por uma inversão óbvia de valores. Se o que importa é o bem-estar e se o mal no mundo não é culpa minha, mas de quem está no poder – afinal, tudo é relação de poder, diriam os viúvos de Foucault – logo, meu bem-estar será alcançado apenas por vias políticas. Reduz-se, como já apontado, a teologia às margens sócio-políticas.

No plano da série – e aqui pulamos para sua parte final – os pais hippies de Lenny simbolizam o transporte da dor existencial à revolta política. Como adoradores da Política, seus pais fecham a cara e a alma para o momento de graça do filho. Como bem observa Voiello, ainda encontraram forças para renegarem o filho, mesmo que por meras divergências ideológicas, para surpresa do papa.

Ressentidos eternamente, exatamente por colocarem a salvação fora do viés espiritual, viram as costas para a mensagem teológica – uma mensagem poderosa, posto que passou por uma intensa crise de identidade religiosa ao longo de tantos capítulos. Como disse o cardeal Caltanissetta, Lenny finalmente tinha algo a falar. Ele havia encontra em si a leveza que o tirara da radicalidade imatura de outrora. Radicalidade imatura permanecida em seus pais.

Entre o conservador grosseiro e o progressista risível, Lenny ultrapassa o primeiro e exorta a população católica ao mesmo, enquanto ao segundo dedica seu espírito, primeiramente atormentado e, posteriormente, agraciado.

O Tom

The Young Pope é executada com tanta sabedoria que disfarça o perigo que uma série com sua premissa poderia apresentar. Um papa jovem com tais idiossincrasias – e interpretado por um ator famoso – poderia soar como arrogância desmesurada. Poderia, também, expor mais uma obra a se propor teológica que acabaria por cair no esquecimento fugaz. A maestria de seu showrunner, Paolo Sorrentino (Aqui é o Meu Lugar, A Grande Beleza, A Juventude), impede, felizmente, qualquer tipo de heresia.

Antes de qualquer palavra ser dita, vemos o papa nu. Isso bastaria. Mas adicionando à mistura personagens que flertam com o caricato e uma trilha sonora que varia do clássico ao pop italiano – tem até Sexy and I Know It em um peculiar contexto – o que temos é uma obra convictamente cínica.

Se eu fosse escolher uma música que ditasse o tom de The Young Pope, recorreria ao poema Darkness, de Leonard Cohen – homenageado nos créditos de um dos episódios, inclusive. Não é o grito em face das trevas. É o charme da resignação sincera, provocante da misericórdia quando se reconhece a aporia da existência. Hallelujah, aqui, só em covers desonestos de X-Factor, literalmente.

Aberta essa fresta de piedade, a piada vem com perfeito timing. Diane Keaton, interpretando Irmã Mary, traz humanidade nos detalhes de seu personagem. Jogar basquete nos jardins do Vaticano ou dormir com uma camiseta escrito Eu sou virgem, mas esta camiseta é velha, são pérolas só comparáveis ao amor de Voiello ao seu deus, ou melhor, ao seu D10S, Diego Armando Maradona.

Falando em futebol, uma pequena cena no segundo episódio, de freiras batendo bola melhor que muito marmanjo, ao som de Ave Maria, é de se aplaudir de pé.

Das piscadelas do papa à câmera aos zooms exagerados, Sorrentino pontua cada episódio dramático com uma leveza que não tira a ambiguidade e a angústia emanada pela trama. Uma hora a guitarra no cenário sacro, outra hora um tocante tema musical com o papa de roupa esporte fumando cigarro. Até a altura de Law é utilizada como demonstração de poder e força pelo papa, normalmente exposta em um plano contra-plongée que só deixa a cena ainda mais cômica.

Há, diria, até um excesso de planos frontais e de nuca. Justificáveis, até pela opção felliniana de Sorrentino. Olhar no olho dos cardeais Caltanissetta (Toni Bertorelli) e Aguirre (Ramón Garcia) seria um convite instantâneo ao riso, não fosse a alternância entre o austero e o gracioso tão trabalhada a cada capítulo. A dificuldade em captar o(s) propósito(s) da série em seu início é lentamente diluída ainda na primeira meia hora, graças à narrativa que sabe o que quer e como chegar lá desde seu início.

Não à toa diz Lenny que suas piadas contêm a verdade. Sua personalidade é mostrada pela forma com que a série é feita – algo que só obras-primas como Decálogo, Fargo e Better Call Saul são capazes de se atentarem, para ficar em duas atuais e uma memorável. Sem ter tido uma revelação como um Santo Agostinho, tornar-se padre para Lenny foi mera falta de uma alternativa melhor. Daí ele tira um distanciamento que acaba por se mostrar, paradoxalmente, providencial: um ceticismo que pode até beirar em niilismo, em raiva e em ressentimento, mas que, além de sustentar crítica atrás de crítica no âmbito confessional, percebe seus próprios excessos patéticos. Em sua virtude silenciosa – perdão pelo pleonasmo – o papa é inseguro. Em suma, como diz ele ao confessar seus pecados, às vezes eu não acredito.

Conclusão

The Young Pope não busca afundar Deus no humano, mas suspender o humano até alcançar Deus. Para além do barulho de androides paranoicos adeptos dos novos deuses, busca-se expor a procura interna, solitária e intensa, quase mística, de um indivíduo em sua ambígua relação com o Além.

Essa conversão agostiniana por meio da ascese e da interioridade se reflete na atitude que este homem, que calhou de ser o papa, aplica em relação à Igreja: ela não tem de atender as demandas modernas ensurdecedoras. Ela opera em outro registro e, a bem da verdade, pode ser para poucos, sim. Não há caminho fácil, pois não há facilitadores. O exílio de Lenny é o exílio proposto à Igreja como forma de demonstrar a capacidade de acreditar na própria fé.

Não é fuga, é discernimento. E discernimento não é cultivado em meio à coletividade que provoca falsas sensações de utopia, segurança, saúde e felicidade em prol, sempre, da própria virtude. Em face da contingência, o virtuoso espalhafatoso berra sua ética. Mas Lenny é solitário, fala pouco e com poucos, ainda que não tenha receio do conflito. Sua atenção com a liturgia é sua atenção com a própria alma, em constante perigo de perda por culpa própria.

É da culpa, aliás, que nasce o capítulo final da primeira temporada de The Young Pope. Como bom cristão, por sinal, posto que o cristianismo nunca foi história para boi dormir e aliviar a consciência. Se Lenny parte do ressentimento, como seu pai espiritual na série aponta logo no começo, é só o superando – tarefa não comprada em best-sellers – que consegue alcançar o amor cristão.

O papa para de cobrar Deus e consegue perceber que sua vida é uma dádiva. É um salto, do sufoco ao mísero respiro. Mas, veja, o sufoco é imprescindível. O final místico de Jó é o final místico de The Young Pope, ambos implicando em transformações no núcleo espiritual que permitem uma compreensão – para além da epistemologia, evidentemente – da graça.

Tal como a modificação que Ivan Ilitch sofre em seus momentos derradeiros, a transformação de Lenny, nas palavras de Paulo Rónai sobre o romance de Tolstói, dilui a dor e apaga a morte. Mas mesmo o drama resultando em catarse, nada se resolve sobre os medos e dúvidas.

Como a irmã Mary cedo compreende, não se tira o palco nem se interfere no sofrimento de outrem. Pois há verdade neste sofrimento, mesmo que ele parta de experiências banais, mesmo que o sofrimento do mundo seja maior. Uma mera nostalgia da infância é suficiente para conter em si a porta a um autoconhecimento que supera a racionalidade estrita para atuar no âmbito místico com lucidez impetuosa.

No final de The Young Pope, há um transbordamento do coração de Lenny. Antes, porém, ele alcança o que se poderia arriscar ser uma espécie de graça. Ele encontrou um traço de juventude, como havia previsto o cardeal mais experiente da Igreja. Sentiu o riso na boca do gordo cardeal Aguirre. Compreendeu Deus, enfim, como disse Juana: Deus é uma linha que abre. Tal como Pseudo-Dionísio alertava, só com o esvaziamento total do intelecto que você está pronto para se relacionar com este que nós não temos ideia de sua natureza.

Longe de ser ópio, a religião é expressão poética.

Os seres humanos sofrem de solidão em todas as circunstâncias de sua vida terrena. Eles podem ficar sozinhos a sós ou sozinhos acompanhados; podem entrar numa sala repleta de pessoas amigáveis e simplesmente ver que sua solidão é aprofundada por ela; eles podem sentir-se sozinhos até mesmo na companhia de um amigo ou de um cônjuge. Existe uma solidão humana que nasce de alguma fonte que não a falta de companhia, e não tenho dúvida de que os místicos que meditaram sobre esse fato têm razão de vê-lo em termos metafísicos. A separação entre o ser autoconsciente e seu mundo não é superada por nenhum processo natural. Ela é um defeito sobrenatural, que só pode ser remediado pela graça

Roger Scruton

Ps.1: Quem não gostaria de ter o botão verde da sala do papa para escapar de qualquer reunião tediosa ou saia justa?

Ps.2: O que aconteceu com Tonino Pettola?

The Young Pope – 1ª temporada — EUA, Outubro de 2016
Criador e showrunner: Paolo Sorrentino
Direção: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino, Stefano Rulli, Tony Grisoni, Umberto Contarello
Elenco: Jude Law, Diane Keaton, Silvio Orlando, Javier Cámara, Scott Shepherd, Cécile de France, Ludivine Sagnier, Toni Bertorelli, James Cromwell
Duração: 10 episódios (50 minutos cada)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.