Crítica | O Teorema Zero

estrelas 3

O Teorema Zero marca a volta de Terry Gilliam à direção de longas metragens desde O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, de 2009 e à ficção científica desde Os 12 Macacos, de 1995. E o diretor volta em um filme menor, de caráter mais intimista, ditado por um orçamento mais modesto, ainda que tenha sido capaz de atrair um ator do gabarito de Christoph Waltz no papel principal, além dos festejados Matt Damon e Tilda Swinton em estranhas pontas.

Mas talvez o melhor paralelo que se possa fazer dentro da filmografia de Gilliam é com Brazil: O Filme, que apresenta um futuro distópico, controlado, com características que só poderiam sair mesmo da imaginação do diretor. O Teorema Zero é, em última análise, uma versão mais humilde e menos ambiciosa de Brazil.

Waltz vive Qohen Leth, um programador brilhante que é encarregado de resolver o tal teorema zero do título, que daria significado à vida. Qohen vive dentro de uma igreja abandonada, é cheio de manias e espera ansiosamente por um misterioso telefonema que nunca vem. Damon é o misterioso dono da empresa onde Qohen trabalha e que surge para seu empregado em uma festa que lembra as de Gatsby.

O mundo onde Qohen vive é uma mistura de Brazil, com 1984 e Minority Report, onde todos são vigiados e a publicidade é dirigida ao extremo. Usando uma cenografia multicolorida e cheia do que parece ser restos de outros cenários, Gilliam presenteia o espectador com algo que claramente veio de sua mente, sem tentar esconder a origem. Não é de se espantar, assim, ao ver nos créditos finais o nome de Nicola Pecorini como fotógrafo e David Warren como designer de produção, ambos colaboradores do diretor em Parnassus. No entanto, diferente da última película com o saudoso Heath Ledger, O Teorema Zero é muito mais galgado em efeitos práticos do que em digitais e, mesmo quando vai para todo um mundo criado digitalmente, vemos claramente como tudo é falso, imperfeito, justamente como deveria ser.

Esse mundo digital, no caso, é o resultante de uma espécie de sexo virtual que Qohen pratica com Bainsley (Mélanie Thierry) e que funciona como uma distração para dificultar a tarefa que ele tem pela frente. A proverbial tentação no paraíso.

Aliás, Gilliam não cansa de trazer iconografia religiosa para seu filme e o faz de maneira pesada, nada discreta, começando pelo local onde Qohen vive, passando por Bainsley e culminando com um menino prodígio chamado simplesmente de Bob (Lucas Hedges) que chega para vigiá-lo e que tem todas as características de um salvador. Seria Jesus Cristo? Ou esse salvador seria mesmo Qohen? E qual é mesmo o significado da vida?

A fita, porém, não tem uma cola perfeita que mantenha um caminho único durante a projeção. Gilliam, com base em roteiro do estreante Pat Rushin, não consegue dar a coesão necessária à narrativa e a missão de Qohen e companhia acaba se perdendo em conceitos poucos desenvolvidos. Por exemplo, apesar de perder um bom tempo para estabelecer o controle da sociedade nesse futuro distópico, essa questão simplesmente desaparece mais para frente. O mesmo vale para o próprio sentido da vida para Qohen que, até receber a função de desvendar o teorema, era esperar uma ligação que fora interrompida quando ele ainda era criança. Era seu chamado para algo mais importante? Nunca saberemos, pois o roteiro se perde nos variados elementos visuais que nos são jogados a todo minuto, incluindo os figurinos saídos de O Quinto Elemento de Bainsley e a maquiagem elisabetana de Tilda Swinton, como uma psiquiatra virtual.

Mesmo assim, Waltz dá o costumeiro show, fazendo um papel bem diferente do que nos acostumamos a ver. Cheios de tiques nervosos, careca e socialmente problemático, Qohen é fascinante e cativante, mesmo que o roteiro à sua volta não valorize seus melhores momentos. Sua interação estranha com Mélanie Thierry também funciona, pois, apesar da diferença de idade e das circunstâncias de seus encontros, os dois geram suficiente química para nos prender à tela e nos fazer ficar preocupados por seu futuro.

Havia potencial de um filme irmão de Brazil no que Gilliam vislumbrou em O Teorema Zero, mas esse potencial nunca é verdadeiramente realizado. Fica a sensação de que ele não achou sua forma ainda, mesmo que esse seu trabalho deslumbre por alguns momentos e tenha atuações que se sustentam apesar da história.

O Teorema Zero (The Zero Theorem, EUA/ Romênia – 2013)
Direção: Terry Gilliam
Roteiro: Pat Rushin
Elenco: Christoph Waltz, Matt Damon, Mélanie Thierry, David Thewlis, Lucas Hedges, Ben Whishaw, Tilda Swinton
Duração: 107 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.