Crítica | Thor: A Deusa do Trovão

O ano de 2015 foi difícil para os quadrinhos de heróis, a DC Comics amargava o cancelamento precoce dos Novos 52 e começava a sua nova iniciativa DC YOU, que foi um fracasso de vendas e acabou durando menos que a sua predecessora. Na Casa das Idéias a situação não era muito diferente, a Marvel tinha sua nova linha editorial que se chamava “Totalmente Diferente Nova Marvel”. Essa que custou a “morrer” e só foi substituída recentemente.

Esse ano ainda foi marcado por diversas mudanças no universo Marvel, personagens morreram e outros nasceram. Alguns ainda estão jogados no esquecimento e demorarão muito para aparecer, vide o Quarteto Fantástico. Mas foi uma mudança em específico que deixou o fandom da Marvel enfurecido, lembro-me de ver nerds indo para as praças e queimando seus exemplares de Guerra Civil e até de ver alguns jogando seus Action Figures na sede da empresa. O responsável por esse alvoroço tem nome, O Poderoso Thor… ou melhor, A Poderosa Thor.

A Deusa do Trovão começa com um lamento, o filho de Odin está na lua ajoelhado perante o Mjölnir, algo o fez indigno de empunhar o poderoso martelo. O alto escalão de Asgard vai até o local para presenciar o fato histórico transformando a tragédia em um ato político. Odin revoltado suplica para que seu filho retorne ao seu esplendor, sua esposa, mãe de Thor, tenta o acolhê-lo. No meio de toda essa loucura o martelo escolhe seu novo portador.

Teria sido maravilhoso se a Marvel tivesse guardado segredo e não divulgasse que a nova Thor era uma mulher. Ver o esplendor da cena já sabendo o que está por vir é muito interessante, vê-la sem nenhum spoiler deve ser uma experiência muito mais interessante. A primeira edição acaba com uma nova Thor surgindo e logo em seguida tendo a sua primeira batalha como a deusa do trovão.

O roteiro de Jason Aaron não se contenta apenas em contar a ascensão de uma nova Thor, vemos diversas subtramas na narrativa do escritor. Os elfos negros estão com um grande plano para dominar todo o submundo e se fazem muito presentes durante todo o volume. Aaron ainda desenvolve muito dessa parte da sua narrativa, fazendo com que os elfos ganhem importância em seu roteiro a cada edição.

Além dos elfos, Asgard também tem muito destaque durante a trama, a cidade sagrada está passando por momentos atribulados, vemos Odin ser refutado pela sua mulher, que se vê muito mais capaz de governar Asgard que o deus. Essa parte da trama de Aaron adiciona uma ironia muito grande para seu roteiro, estamos vendo o velho e ultrapassado ir e o novo surgir, esse que é muito mais competente, inclusivo e está sendo comandado por uma mulher.

A ação também não fica de fora, o autor é muito competente em balancear a sua história, colocando em momentos pontuais os socos e chutes, esses que são feitos para desenvolver a trama e não apenas para deixar a HQ mais violenta. Ao terminarmos esse primeiro volume fica a sensação de que estamos vendo apenas o começo de uma grande trama, e é exatamente isso que Aaron faz.

Não há como falarmos dessa nova fase da personagem sem comentarmos sobre a arte de Russel Dauterman e as cores de Matthew Wilson. Russel utiliza muito a sobreposição de quadros em sua narrativa, isso dá ao leitor uma impressão de amplitude, parece que as páginas do quadrinho não tem fim, excelente estratégia quando se está desenhando um deus. Ele ainda utiliza as páginas únicas e as splash pages de forma correta, a primeira vez que vemos a nova Thor é em uma linda página única que mostra a deusa em seu esplendor.

As cores de Matthew Wilson também são um show a parte, em todos os momentos elas se destacam por serem brilhantes, até quando estamos vendo os elfos negros as cores são vibrantes. Isso dá um ar para o quadrinho de divino, mostrando uma realidade que, mesmo quando ela é ruim, ainda é muito mais bonita e diferente da nossa.

Thor: A Deusa do Trovão é a prova que boas idéias só dependem de uma coisa para acontecer: pessoas competentes. A história surgiu em um dos piores momentos criativos e financeiros da Marvel Comics e, mesmo assim, conseguiu provar seu valor. Aaron é um roteirista que teve seus altos e baixos na carreira, mas que foi capaz de entender o cerne do personagem que estava trabalhando, conseguindo criar uma protagonista que é totalmente diferente do seu antecessor. Olhando por esse lado, a Totalmente Diferente Nova Marvel até que faz mais sentido.

Thor: A Deusa do Trovão  (Thor: Goddess of Thunder) — EUA, 2015
Contendo: 
Thor (2014-2015) #1 a 5
Roteiro: Jason Aaron
Arte: Russel Dauterman
Cores: Matthew Wilson
Editora original: Marvel
Datas originais de publicação: novembro de 2014 a abril de 2015
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: janeiro a abril de 2016 (Novíssimos Vingadores #1 a 5)
Páginas: 136 Páginas
PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".