Crítica | Thor: Contos de Asgard (1963 – 1967)

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Em 1962, nas páginas da revista Journey Into Mystery Vol.1, edição #83 (capa de agosto de 1962), Larry Lieber, baseado em uma ideia de seu irmão Stan Lee, mais Jack Kirby na arte e Joe Sinnott na finalização, criaram um personagem bem diferente dos que até então a Marvel Comics vinha adicionando à sua galeria. Nascido envolto em uma grande aura de mistério e pensado para ser um dos personagens de maior poder da editora na época, Thor era um herói que tinha tudo para chamar a atenção do público, mas não foi de imediato que isto aconteceu. Talvez porque o foco dos primeiros roteiros dava mais atenção à Terra do que ao lado divino do personagem… ou talvez porque faltavam informações sobre ele e seu universo original — a mitologia nórdica — para que os leitores se interessassem por suas aventuras. Foi então que, no segundo semestre de 1963, Lee e Kirby tiveram uma ideia que viraria completamente a sorte para o filho de Odin.

Na edição #97 da JIM (outubro de 1963), surgiu uma historinha de 5 páginas que deveria ser o início de uma pequena série, um adendo às aventuras do Deus do Trovão. A intenção editorial aqui era mostrar para o público o lado divino de Thor, seu lar, seus amigos, os poderes de seu pai e todo o ambiente de fantasia e maravilhas que se pode imaginar no Universo de um Deus. Surgiam os Contos de Asgard. E já na primeira edição, os leitores se manifestaram de maneira extremamente positiva em relação à proposta. Os Contos de Asgard ajudaram a tornar a Journey Into Mystery um hit de vendas, assim como ampliaram a história de Thor (dando suporte às aventuras principais) e o alcance de seus poderes, isso desde a sua infância até o momento em que o leitor o conheceu em Midgard, o mundo dos homens.

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Já no primeiro conto temos as grandes batalhas dos Aesires; o nascimento de Odin e o estabelecimento da Árvore Mágica de Yggdrasill e seus ramos espalhados pela Terra.

Durante 49 edições (lembrando que na edição #125 a revista Journey Into Mystery mudou de nome para Thor Vol.1, mas a Marvel manteve a numeração e os contos continuaram sendo publicados até a edição #145 do título, quando foram então substituídos pelas aventuras dos Inumanos), o público foi brindado com uma imensa variação de histórias, biografias, recontagem de mitos, mini-arcos e situações que ambientadas inteiramente em Asgard e todos os seus fantásticos entornos, como a Ponte Bifrost; o Mar do Terror (Utgard Thryheim), as Terras de Mimir e Hymir; o Domínio dos Gigantes de Gelo (Niffleheim); a Terra dos Gigantes das Montanhas, o Reino dos Anões e as Florestas Encantadas (todos no território de Gundershelm); o Domínio dos Trolls (abaixo de Asgard) e muitos outros.

Ao longo das edições, Stan Lee aproveitou ao máximo os mitos nórdicos para adaptá-los às necessidades da Marvel Comics e fazer de Thor um personagem apaixonante e com valores morais e éticos admiráveis, tendo em igual medida a decadência dos padrões de comportamento de seu irmão Loki. Descobrimos aí como o filho de Odin levantou o Mjölnir pela primeira vez; como Loki fez a sua primeira aliança maligna em um dos territórios visitados numa missão ordenada pelo pai; como a nossa Lua nasceu; além dos relatos épicos de missões de paz, de reconhecimento, conquista e aprendizado, de onde saíram informações valiosas e ótimas contextualizações sobre Balder, Lady Sif, os Três Guerreiros (Fandral, Hogun e Volstagg), e sobre o guardião da Ponte do Arco-Íris, Heimdall.

Com o relançamento do compilado pela Marvel — padrão seguido para o encadernado da Salvat aqui no Brasil (e creio que isto será utilizado em reedições posteriores) — as limitadas cores originais foram reajustadas digitalmente, dando a possibilidade de o leitor ver em grande estilo a arte de Jack Kirby, que é um verdadeiro espetáculo. Dos uniformes dos personagens, criação de monstros, máquinas, heróis, vilões, terras devastadas, reinos de Asgard até às estupendas cenas de batalha, o artista faz jus à grandeza e beleza dos mitos nórdicos, mantendo o caráter rústico e ao mesmo tempo permeado de magia e um tipo muito peculiar de tecnologia, dando uma marca visual impressionante aos eventos.

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E assim se encerra a excelente série de mini-histórias chamada Contos de Asgard.

O grande trunfo desta série é que Stan Lee a manteve em curta, com cinco páginas por edição. Isto fez com que cada história tivesse o ritmo e a dose certa de ação, dando para o leitor a vontade de saber como aquele mini-arco continuaria ou que biografia ou história seria contada a seguir. Até os cacoetes meio bobos típicos dos roteiros de Lee são enxugados neste formato, a ponto de praticamente não se fazerem sentir. O fato de não haver espaço para justificativas risíveis ou descrições desnecessárias de cenas deixou a linha de histórias sempre viva, com algo importante acontecendo em cada quadro, contando com uma das melhores administrações de ritmo narrativo de Stan Lee em uma série regular em toda a sua carreira, algo capturado com precisão pela já analisada arte de Jack Kirby.

Cumprindo a promessa de nos mostrar o mundo dos Deuses, os Contos de Asgard exploraram a terra dos Aesires em seus mais diversos cantos: no subterrâneo, na superfície e nos confins do espaço, sempre elencando algo grandioso, mantendo vivo o elemento cultural que também atribuímos aos povos nórdicos (a paixão pela guerra, pela conquista e pelos muitos prazeres), fazendo do passado de Thor uma das memórias de fantasia mais incríveis dos quadrinhos mainstream dos anos 60. Definitivamente uma leitura obrigatória para fãs do filho de Odin, para Marvelnáticos de plantão e até mesmo para quem não gosta de quadrinhos de super-heróis.

Thor: Contos de Asgard (Tales of Asgard — Journey into Mystery Vol.1 #97 a 125 + Thor Vol.1 #126 a 145) — EUA, outubro de 1963 a outubro de 1967
Marvel Comics
No Brasil:
 Capitão América, Thor e Homem de Ferro #11 e 12 (Editora Abril, 1971); Heróis da TV #15 a 46 — de forma não-contínua (Editora Abril, 1980 a 1983); Capitão América #29 e 50 (Editora Abril, 1981 a 1983); Grandes Heróis Marvel #16 (Editoria Abril, 1987); Biblioteca Histórica Marvel – O Poderoso Thor n°1 (Panini, 2008); Thor: Contos de Asgard (Salvat, 2016).
Roteiro:
 Stan Lee
Arte: Jack Kirby
Arte-final: George Bell, Don Heck, Paul Reinman, Chic Stone, Vince Colletta, Bill Everett
Letras: Artie Simek, Sam Rosen
Capas: Jack Kirby, George Roussos, Stan Goldberg, Artie Simek, Sol Brodsky, Sam Rosen, Chic Stone, Vince Colletta, Frank Giacoia, Wally Wood
Editoria: Stan Lee
312 páginas (encadernado da Salvat)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.