Crítica | Thor: Deus do Trovão – The God Butcher e Godbomb (Marvel NOW!)

estrelas 4

The God Butcher (que pode ser traduzido como “Assassino de Deuses”) e Godbomb (algo como “Bomba de Deuses”) são os primeiros dois arcos de Thor: Deus do Trovão, como parte do semi-reboot Marvel NOW! que passará a ser publicado no Brasil em breve pela Panini. Em decisão editorial acertada, a Marvel não exige, nesses arcos, qualquer tipo de conhecimento prévio sobre as aventuras do Deus do Trovão. Os dois arcos contam uma história só, dividida em duas partes mais para a conveniência de edições encadernadas, já que essa aventura poderia muito bem ser uma coisa só, talvez uma graphic novel.

O primeiro arco (Thor: Deus do Trovão # 1 a 5), escrito por Jason Aaron, autor de Scalped, um dos grandes sucessos de crítica do selo Vertigo, volta às origens míticas de Thor. Não vemos o super-herói Thor, o Vingador Thor. Vemos o deus Thor. E vemos o deus Thor em três momentos distintos de sua vida: na Terra no ano 893 d.C., jovem, como um deus viking irresponsável e cabeça quente defendendo um vilarejo islandês; nos dias de hoje, no planeta Indigarr, respondendo às preces de um E.T. que precisa de chuva em seu planeta e a milhares de anos no futuro, em Asgard, barbudo, sem um olho e sem um braço (que é substituído pelo braço do Destrutor) como o último deus sobrevivente, empunhando Mjölnir e a espada de Odin contra um exército de seres estranhos. E o que costura essas três narrativas? Um assassino serial de deuses cujo trabalho Thor vê pela primeira vez na Islândia, enfrenta pela primeira na órbita do planeta Indigarr e, pelo visto, pela última vez em Asgard.

O assassino de deuses é Gorr, como aprendemos rapidamente. Ele quer acabar com os deuses, pois os considera grandes enganadores e trapaceiros. Para isso, ele inicia uma cruzada em todas as épocas, usando conhecimentos que adquire dos deuses que tortura. É por isso que vemos Thor em três eras diferentes.

E Aaron consegue organicamente passar de uma época para outra sem criar solavancos e sem perder o fio narrativo, em uma excitante investigação de milênios. Sua escrita é fluida e a apresentação dos personagens é orgânica. Nesse primeiro arco, seu maior deslize é no terceiro número, quando o Thor atual, querendo achar uma caverna onde há centenas de anos lutou contra Gorr, pede ajuda ao Homem de Ferro. Não é que eu não goste do Vingador Dourado, mas sua presença em um épico dessa natureza funciona quase como uma maneira de se quebrar a suspensão da descrença e retirar o leitor do tom da narrativa. Ainda que estejamos lidando com o Thor atual, que é um Vingador e, portanto, tem seus colegas para pedir ajuda, essa muleta era desnecessária. O deus nórdico poderia muito bem ter simplesmente se lembrado onde era a caverna de forma que a presença de Tony Stark se tornasse completamente inútil. Só que o Homem de Ferro, da mesma forma que aparece, desaparece completamente desse primeiro arco (e não volta no segundo), o que é uma excelente notícia.

O arco acaba com a luta do Thor jovem contra Gorr, luta essa que seria importantíssima para o desenvolvimento do assassino e com a reunião dos Thors atual e futuro em um daqueles momentos fantásticos que só os quadrinhos permitem.

Antes do início do segundo arco, Aaron cria uma história semi-independente da narrativa, chamada What The Gods Have Wrought, que poderia ser traduzida como “O Que os Deuses Forjaram” (Thor: Deus do Trovão # 6), dedicada exclusivamente a Gorr e sua origem. Ainda que seja interessante ver como Gorr ganhou seus poderes, em última análise, é uma história desnecessária. As motivações de Gorr – basicamente um senso de vingança distorcido e amplificado – não acrescentam muito ao personagem e poderiam ter sido costuradas dentro da narrativa principal. Não que o número não seja fácil de ler, pois ele o é, mas tenho para mim que vilões envoltos em mistério tendem a ser muito mais interessantes do que vilões explicados em seus mínimos detalhes.

No segundo arco propriamente dito (Godbomb) que, para fins de edição encadernada, engloba o número 6, sobre a origem de Gorr, e vai até o número 11, descobrimos o plano do assassino de deuses: ele literalmente está em vias de construir a bomba do título, capaz de aniquilar todos os deuses simultaneamente em todas as linhas temporais. Esse artifício, tipicamente de quadrinhos, soa ridículo, mas gera uma história interessante nas palavras de Jason Aaron. Essa bomba está sendo construída no futuro, ou seja, na época do Thor velho, caolho e sem um braço e vemos deuses de Asgard e de outros lugares escravizados.

Com a união dos dois Thors mais velhos no arco anterior, a narrativa tripartite desaparece e é dividida apenas em duas agora. No número 7, porém, que abre com o Thor jovem em sua habitual esbórnia, vemos Gorr atacá-lo e remetê-lo ao futuro, pois é esse Thor que o assassino mais odeia. E, não demora muito, no número seguinte, o jovem Thor, mesmo acorrentado e tendo que trabalhar forçado, começa a paquerar três belas deusas que logo se revelam suas netas, Atli, Ellisiv e Frigg, em uma divertida sequência de quadros. Também descobrimos que Gorr tem esposa e filho morando com ele no planeta onde a bomba está sendo construída.

Mas o Thor atual e o do futuro, literalmente navegando no espaço em um imponente navio viking carregado de bebida, logo chegam para tentar estragar os planos do assassino e a esperada reunião das três gerações do mesmo deus acontece (santo paradoxo, não é mesmo?) e, a partir daí, batalhas verdadeiramente épicas passam a ocorrer.

No final, que não revelarei aqui, Aaron, porém, não torna as coisas fáceis e, no lugar de uma luta e uma simples derrota ou vitória, vemos mais do que isso, com um dilema moral crescendo em Gorr e sendo alimentado pelos Thors, além do envolvimento direto e poético de sua família. O encerramento é belo, mas violento e teria sido perfeito se Aaron não tivesse escrito o denouément que se segue, apenas para mostrar os destinos dos Thors.

Mas já falei muito sobre a narrativa de Jason Aaron. Seu trabalho não seria o mesmo se não fosse acompanhado pela maravilhosa arte de Esad Ribic. Ele consegue não só criar três Thors distintos como, também, mostrar Gorr de maneira diferente nas três linhas temporais. Além disso, seus traços variam levemente de uma época para a outra, sempre deixando claro onde estamos, mesmo que não olhemos para Thor. Sua imaginação para criar deuses distintos também parece não ter fim, ainda que todos sejam humanoides, o que é improvável, mas que facilita nossa identificação. Seu pincel parece criar verdadeiras obras de arte a cada página. Ele não ousa muito na estrutura de quadros, nem faz uso de splash pages, mas o detalhe de cada guerreiro viking está lá, assim como paisagens estranhamente bonitas.

Seja como um ponto de entrada na mitologia de Thor, seja para a apreciação de fãs de longa data, The God Butcher e Godbomb são dois arcos memoráveis na longa carreira editorial do Deus do Trovão e um excelente começo para o projeto Marvel NOW!.

Thor: Deus do Trovão – The God Butcher e Godbomb (Thor: God of Thunder #1 a 11)
Roteiro: Jason Aaron
Arte: Esad Ribick
Cores: Dean White (#1), Ive Svorcina (# 2 a 11)
Lançamento oficial: EUA, novembro de 2012 a setembro de 2013 (em andamento)
Lançamento no Brasil: ainda não lançado
Editora original: Marvel Comics
Editora no Brasil: Panini
Páginas: 138 (cada arco)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.