Crítica | Thor: O Mundo Sombrio

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Falem o que quiser da Marvel, mas seu projeto cinematográfico tem se mostrado próximo do irretocável. Começou com Homem de Ferro, em 2008, já criando um dos melhores filmes de super-heróis já feitos. A isso, seguiram-se filmes que são no mínimo razoáveis (Homem de Ferro 2, estou olhando para você), mas a maioria é formada de obras boas para ótimas, com a cereja no bolo que foi Os Vingadores, fita que todos duvidaram que daria certo e deu muito mais do que certo. O primeiro Thor foi a primeira grande aposta arriscada do estúdio, pois a natureza do herói – um deus nórdico com poderes mágicos – não combinava com a “pegada” mais realista dos demais filmes. Mas a Marvel fez funcionar também, ainda que com limitações.

E, com Thor 2, ela solidifica ainda mais seu universo místico pré-Doutor Estranho retirando de vez todo e qualquer misticismo que ainda havia. O próprio Odin (Anthony Hopkins) diz isso com todas as letras (“Não somos deuses!”) logo no começo da projeção e o tom do filme é completamente para o lado da ficção científica. O lado nostálgico em mim soou um alarme, pois isso poderia acabar jogando Thor em uma vala comum. No entanto, a produção, especialmente o roteiro feito a seis mãos, acaba injetando detalhes suficientes nos diálogos e na trama que, de uma forma ou de outra, afagam aqueles que, como eu, gostam desse lado puramente mágico do Universo Marvel.

Falando em roteiro, sem a necessidade de se preocupar em fazer uma história de origem, a narrativa começa, assim como no primeiro filme, há muito tempo atrás, mostrando como os Elfos Negros comandados por Malekith (um irreconhecível Christopher Eccleston, famoso por ter sido o primeiro Doutor da Série Nova de Doctor Who) tomam uma sova do exército asgardiano comandado por Bor (Tony Curran, em uma micro-ponta), pai de Odin. Malekith, que havia desenvolvido uma arma letal chamada Éter (um líquido viscoso vermelho que fica flutuando e que nós devemos aceitar que é muito poderoso), acaba tendo que fugir com seu tenente Algrim (Adewale Akinnuoye-Agbaje). Corta para o presente em Vanaheim e vemos Thor (Chris Hemsworth) e seus amigos lutando para livrar os Nove Reinos de ataques inimigos ocasionados pela destruição da ponte Bifrost no final do primeiro filme, que impediu a comunicação de Asgard com seus reinos. E, em seguida, somos arremessados à Terra para ver Jane Foster (Natalie Portman) fazer uma descoberta que a faz ser tomada pelo tal Éter. Malekith, então, acorda, e começa sua vingança contra Asgard e, de quebra, o resto do universo.

A ameaça formada por Malekith, Algrim (que, não demora, é transformando em Kurse, outro vilão clássico de Thor) e pelo Éter nunca realmente convence. Mas, talvez esse seja o mal de filmes de super-heróis: nós sabemos que o bem prevalecerá, mesmo que alguns sacrifícios aqui e ali tenham que ser feitos. Se aceitarmos que o Éter é alguma coisa que genericamente pode destruir o universo e que ele pode ser derrotado por um deus ex machina qualquer jogado no roteiro, então podemos relaxar e curtir a viagem.

E ela é muito divertida, ainda que longe de memorável. Especialmente quando as marteladas param um pouco e Loki (Tom Hiddleston) entra triunfalmente na trama, trazendo muito humor, diálogos afiados e uma sensacional – e completamente inesperada – ponta de outro membro dos Vingadores. A troca de farpas entre irmãos, a raiva de Loki e a ação que ele e Thor desencadeiam fazem do miolo do filme uma gostosura de se assistir. Não que o início não seja bom, apenas não tem a leveza do que vemos no meio, por precisar necessariamente pavimentar o caminho para o que assistiremos. Infelizmente, porém, apesar de essencial e irretocável, a participação de Loki é bem curta, deixando-nos com gostinho de quero mais. Hiddleston está absolutamente a vontade no papel e engole o cenário mesmo quando contracena com Anthony Hopkins.

Rene Russo como Frigga, esposa de Odin e mãe de Thor, tem uma participação estendida e realmente importante para a trama (essa foi uma das exigências da atriz para voltar ao papel), encadeando acontecimentos de maneira muito fluida e crível. Hemsworth é Thor do jeito que já nos acostumamos, sem nada especial a não ser, talvez, o físico perfeito que Alan Taylor, o diretor, faz questão de mostrar sempre que pode. O interesse romântico do herói, Natalie Portman, tem uma atuação sem brilho e muito burocrática, além de ela fisicamente estar muito magra, ao ponto de ser incômodo.

Um aspecto que a produção acertou em cheio foi a recriação de Asgard. Enquanto que, sob a batuta de Kenneth Branagh, o reino parecia muito artificial e “limpo”, Alan Taylor, com a equipe de efeitos especiais comandada por Beverly Abbot e a direção de arte por Ray Chan, dá um ar de “cidade vivida” ao local. Acreditamos que estamos vendo mesmo um reino milenar em que gerações e gerações de deuses, digo extraterrestres, viveram e ainda vivem. É uma cidade medieval no espaço. E, também como um todo, certamente porque a Marvel, mais segura, injetou ainda mais dinheiro na continuação, vemos efeitos especiais melhores, mais coerentes com o universo criado.

E esse universo sofre enorme expansão em Thor: O Mundo Sombrio, pois a ação não se passa apenas em Asgard e Midgard (Terra), mas também no mundo sombrio do título (Svartalfheim, o lar original dos Elfos Negros), em Vanaheim (lar da família de Hogun, vivido por Tadanobu Asano) e, por alguns breve segundos em Jotunheim (lar dos gigantes de gelo do primeiro Thor) e outros dos Nove Reinos. E, mesmo com essa profusão de mundos, o espectador não se perde, graças a uma montagem eficiente de Dan Lebental e Wyatt Smith que marca muito bem cada transição, até durante a muito bem bolada luta entre mundos de Thor contra Malekith.

Thor: O Mundo Sombrio, apesar de seus problemas, é uma ficção científica aventuresca eficiente que divertirá o espectador com diálogos bem estruturados, uma boa carga de alívio cômico (já uma marca registrada da Marvel), Loki particularmente inspirado e algumas boas surpresas aqui e ali. Digno, muito digno!

Ah, já ia me esquecendo de dois aspectos importantes: o primeiro deles é o 3D. Como já esperava, ele não serve para absolutamente nada, a não ser aborrecer o espectador com um par de óculos (a mais no meu caso) de plástico vagabundo no rosto. O outro aspecto são as cenas pós-créditos. Como o plural que usei indica, são duas: uma extremamente importante para a coesão do Universo Cinematográfico Marvel, que literalmente revela o “grande plano” do estúdio, mas que apenas os fãs dos quadrinhos entenderão em sua plenitude (se você quiser entender, com spoilers, clique aqui) e uma outra bem leve e, em última análise, completamente desnecessária, que acontece ao finalzinho dos créditos.

  • Crítica publicada originalmente quando do lançamento do filme nos cinemas em 2013. Atualizada para republicação.

Thor: O Mundo Sombrio (Thor: The Dark World) – EUA, 2013
Direção: Alan Taylor
Roteiro: Christopher Yost, Christopher Markus, Stephen McFeely
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins, Christopher Eccleston, Jaimie Alexander, Zachary Levi, Ray Stevenson, Tadanobu Asano, Idris Elba, Rene Russo, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Kat Dennings, Stellan Skarsgård, Alice Krige, Clive Russell, Tony Curran
Duração: 120 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.