Crítica | Thor: Ragnarok

“Permita-me que eu me apresente. Meu nome é Korg. Eu sou meio que o líder daqui. Eu sou feito de pedras, como você pode ver, mas não deixe que isso te intimide. Você não precisa se preocupar, ao menos que você seja feito de tesouras. Apenas uma pequena piada de Pedra, Papel e Tesoura para você.”

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Não se enganem pela avaliação aparentemente modesta; Thor: Ragnarok é um exemplar daqueles filmes que nos encantam com gosto, mesmo não sendo excepcionalmente bem resolvido. Para ser sincero, esta é uma obra a ser ranqueada, já para deixar tudo estritamente claro, entre as melhores da Marvel Studios, mesmo sem ser uma das melhores da Marvel Studios. Confuso? Paradoxal? A realidade é que temos, nessa incursão de Taika Waititi pelo Universo Cinematográfico Marvel, uma obra com duas facetas, as quais podem funcionar separadamente, mas não encontram muita coesão quando misturadas. Um problema, sem sombra de dúvidas, mas que é realmente compensado quando ignorado; o foco está no contexto desse longa-metragem. O personagem de quadrinhos Thor (Chris Hemsworth), uma das principais figuras deste universo cinemático, apesar de consideravelmente menos empolgante que as demais com que contracenou, sofreu ostensivamente com suas duas adaptações cinematográficas. Até mesmo décadas passadas, A Volta do Incrível Hulk (que, curiosamente, também traz um duelo do Deus do Trovão com certo Gigante Esmeralda) não era flor que se cheirasse; muito pelo contrário. Os fãs ansiavam, portanto, por uma obra digna de ser protagonizada pelo filho de Odin. Um épico sobre a mitologia nórdica, com grandes batalhas, enormes exércitos e bastante seriedade. O que Taika Waititi faz com Thor: Ragnarok? Destroça todas essas esperanças da forma mais hilária possível. Uma obra com Immigrant Song não pode dar errado. Ainda mais uma que também tem Pure Imagination sendo tocada durante uma aventura completamente lisérgica.

Em primeiro lugar, ao falarmos do terceiro filme do Poderoso Thor estamos falando do Ragnarok – o apocalipse da mitologia nórdica. Um anúncio desses certamente mexeu com os sentimentos mais íntimos dos leitores de quadrinhos, que ansiavam por uma obra que fizesse jus ao herói de capa vermelha e elmo prateado. Uma fantasia carregada de densidade, como um Senhor dos Anéis, por exemplo. A contratação de Waititi, porém, já significou o completo contrário disso. Vindo de produções como O Que Fazemos nas Sombras, esperar que a comédia não se tornasse um dos gêneros do terceiro filme de Thor era ser ingênuo e assim foi. A maior diferença deste para os outros filmes do estúdio protagonizados pelo herói é exatamente esta. Thor: Ragnarok assume seu teor cômico, o quer quer que ele seja, e desconstrói muitas coisas sobre a temática de super-herói, mas, acima de tudo, não se permite ser genérico. A identidade de Taika Waititi está intrínseca a obra, que ainda possui uma identidade audiovisual única. Não há dúvidas que um Thor, se feito com uma diferente intenção, talvez mais “séria”, poderia ser interessante, diferente, mas é impossível não se afeiçoar pela completa subversão feita por Waititi. Ainda mais quando outra esperadíssima história dos quadrinhos, o Planeta Hulk, é adaptada de uma maneira única e genial como esta, muito diferente da original. Alguns “fãs” decididamente ficaram estressados. O começo da imersão vem da permissividade do público em enxergar outras óticas, outras verdades. Mas quando que chegaremos nos poréns dessa produção?

Ao falar sobre a ambiguidade do filme, caímos exatamente na maior inconsistência de Waititi. A comédia está presente, sem sombra de dúvidas, mas, ao mesmo tempo, Thor: Ragnarok não permite renegar suas amarras mais humanas, relacionadas as dores existentes entre certos personagens. O drama familiar está de volta, ao passo que Odin (Anthony Hopkins) torna-se a primeira missão de Thor e Loki (Tom Hiddleston); este segundo, levou o Deus dos Deuses para um asilo na Terra e tomou posse do trono, passando-se pelo seu pai e conquistando o amor de seus súditos, mesmo que de outra forma. Em uma jornada movida por constantes galhofas – que nos brinda com uma performance extraordinária de um Anthony Hopkins levemente diferente, regado a vinho, comida e teatro – não há espaço disponível para o desenvolvimento das relações familiares. O sentimento desses filhos em relação ao pai deles é pincelado de maneira muito breve e superficial, o que não dá margem para algo crucial: sentimento. Enquanto Guardiões da Galáxia Vol. II encontra o equilíbrio ideal entre o peso e a leveza, Thor: Ragnarok fica em um vai-e-vem questionável. O surgimento de Hela (Cate Blancett) não é necessariamente problemático – a ameaça é sentida e a escolha de Blancett foi certeira – mas fica a sensação constante de dois filmes completamente diferentes um do outro, empacotados em uma única produção. As amarras narrativas de um bloco com outro poderiam ter sido melhor resolvidas. Asgard é cenário do domínio da Deusa da Morte sobre um povo à beira da extinção. Sem nada disso, Sakaar é… indescritível. Só para começar, um planeta em que mora, mesmo escravizado, o “gigante” de pedra Korg – voz feita pelo próprio Waititi – não merece as nossas palavras. Que coadjuvante!

Todavia, ao falarmos sobre o trabalho de Taika, também estamos falando sobre essa exata quebra de expectativa apontada no início do texto, a qual, apesar de não ter sido dominada perfeitamente, é presente de uma maneira extremamente subversiva. A questão é que o diretor tem ao seu lado um roteiro ciente do passado de Thor neste universo cinematográfico – das vezes em que a fantasia asgardiana foi levada “a sério demais”. Este roteiro, portanto, simplesmente revira qualquer amarra deixada, zombando do que veio antes. À espera da busca do Deus do Trovão pelas Joias do Infinito, deixada em aberto em Era de Ultron? O começo da produção simplesmente pega as suas expectativas e as transforma em risadas; dependendo do seu bom humor, é claro. Algumas piadas, aliás, chegam a beirar a vergonha alheia. Mas vergonha do que? Enquanto algumas risadas fáceis podem incomodar certos espectadores mais “grandinhos”, algumas são mais difíceis de serem engolidas. Mas este é o jogo: até onde você consegue ir nessa viagem? Além disso, que tal saborearmos as consequências decisivas da “morte” de Loki em Mundo Sombrio? Uma peça de teatro talvez seja o jeito mais adequado de relembrarmos o que aconteceu. Taika Waititi, dessa forma, ganha um grandiosíssimo aliado: Chris Hemsworth. A química do ator com esse novo universo, muito mais colorido e espontâneo, é evidente, sendo o melhor trabalho de Chris em toda a franquia, não exatamente pelo teor dramático, mas pela abordagem cômica. O ator, no final das contas, surpreendera a todos no remake de Caça-Fantasmas, devido a sua performance engraçadíssima.

Entretanto, reiterando o que já fora comentado, Thor: Ragnarok também tem seus momentos mais significativos, de maior impacto, que, na falta de outras palavras, se levam “a sério”. Por um lado temos Jeff Goldblum – ator que está completamente divertido no papel e, acima de tudo, se divertindo no papel – como Grão-Mestre, anfitrião do Torneio dos Campeões, e por outro temos Heimdall (Idris Elba), ganhando uma considerável importância, muito mais presente se comparada com as de demais coadjuvantes. O problema maior é que Thor: Ragnarok certamente tem algo a falar sobre sua perspectiva mais sóbria, sobre o fim desse mundo asgardiano, o dever de cada uma das pessoas envolvidas nesse Ragnarok, quem é cada um desses homens e mulheres, destinados ou não a um fim maior. Enxergando-se desse modo, Valquíria (Tessa Thompson) e o Executor (Karl Urban) são duas apostas de Taika Waititi que mesclam ambas as vertentes, recebendo jornadas a serem cumpridas, mas não deixando de serem adições à veia cômica da obra. Em um último plano, até mesmo o Incrível Hulk (Mark Ruffalo) tem uma condição a ser trabalhada dramaticamente no filme, mas que, infelizmente, nunca é estudada devidamente. Os resquícios de uma transformação duradoura, além do contraponto entre os louros recebidos por um povo se comparados com os discursos de ódio emitidos pelo seu natal, não são sentidos além das inúmeras gargalhadas tiradas das sacadas geniais conduzidas por Taika, especialmente nas interações entre Thor e Hulk. A resolução acaba por ser apenas a conclusão de um arco narrativo para Thor.

Apenas mais um último demérito pode ser arrancado de Thor: Ragnarok: certos usos de efeitos especiais, acima de tudo, na composição de alguns panos de fundo cenográficos. A criação de mundo, contudo, tem seus acertos e eles não são poucos, indo além da própria direção de arte deslumbrosa, passando pelo figurino e maquiagem, partes de uma composição de espécies únicas, e encontrando a maior potência possível na trilha sonora, usando e abusando sem dó de sintetizadores – uma sonoridade distinta de qualquer outra já ouvida nesse universo. Ademais, as cores são extremamente vivas, muitas vezes parte de um psicodelismo estonteante, tratando-se de uma homenagem visual a Jack Kirby, um dos mais conhecidos ilustradores do personagem. Por falar em lendas, o cameo de Stan Lee é épico. Entretanto, mesmo com altos e baixos, os efeitos visuais acabam sendo certeiros na composição de Hulk, algo crucial para que o duelo entre o Gigante Esmeralda e o Deus do Trovão se tornasse um dos mais extraordinários já criados. Além disso, faz sentido que piadinhas sejam ditas nesse confronto tão esperado; todas, até mesmo as que não ocorrem dentro do coliseu de gladiadores, funcionam. Sendo assim, Thor: Ragnarok é decididamente uma obra singular dentro de uma pseudo-fórmula de se fazer cinema, criticada ostensivamente por alguns. As fórmulas sempre existiram e há algo que torna Ragnarok especial, embora não seja perfeito: a identidade impregnada por Waititi, que cria um filme autoral – dele. O contrário dos filmes que as pessoas queriam assistir, mas o filme que Taika quis fazer.

Thor: Ragnarok — EUA, 2017
Direção:
 Taika Waititi
Roteiro: Eric Pearson, Craig Kyle, Christopher Yost
Elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Jeff Goldblum,  Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch,  Taika Waititi, Clancy Brown, Ray Stevenson,  Rachel House
Duração: 130 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.