Crítica | Thor Sapeia! (1986)

Após iniciar sua passagem à frente do título com um épico de dois anos que teve seu prelúdio em A Balada de Bill Raio Beta, para então desenvolver-se no maxi-arco conhecido como A Saga de Surtur, Walter Simonson seguiu a sabedoria da época e, como era de costume nas grandes séries como nos X-Men de Chris Claremont, tomou seu tempo para trabalhar cuidadosamente histórias que lidavam com as consequências dos acontecimentos de sua saga explosiva, ao invés de se lançar na preparação de uma outra que, derivativa em sua origem, só poderia decepcionar.

Trata-se de um forma de narrativa onde as mudanças cíclicas no status quo, destino aparentemente inescapável dos quadrinhos de super-herois, ao invés de parecerem advindas de uma decisão arbitrária, são sentidas como totalmente orgânicas e, por isso mesmo, muito mais envolventes. Assim é que passamos a acompanhar, no aftermath da batalha colossal que culminou na derrota do demônio de Muspelheim, uma Asgard tendo que lidar com a ausência de seu eterno governante Odin após seu necessário auto-sacrifício heróico visando deter Surtur.

Nesse período temos Thor enfrentando sérios problemas com Hela, auxiliando Balder, se aliando novamente a Bill Raio Beta e se aventurando ao lado do glorioso Quarteto Futuro em um tie-in com as bem menos gloriosas Guerras Secretas II. Nos entremeios dessas ótimas aventuras, são lançadas as bases para uma espécie de guerra fria pelo trono de Asgard entre ele e seu insidioso irmão adotivo Loki. E, como poderia ser de se esperar, essa disputa acaba culminando em… Thor virando um sapo, e tendo que auxiliar os sapos do reservatório do Central Park a enfrentar uma gangue de ratazanas mal intencionadas. Mas é claro, quem não pôde ver isso chegando?

Uma batalha a ser registrada nos Livros de Valhalla.

Não é por menos que a imagem do Thor “ensapeado” tenha se tornado parte marcada da mitologia do personagem. A história contada aqui é eficaz justamente em sua simplicidade, fazendo valer, na variação experimental e muito bem-vinda de estilo e tonalidade, o tradicional tema do heroísmo e valor de Thor, mais especificamente no que lhe cabe enquanto herdeiro obviamente favorito de Odin ao trono de Asgard – destino que no entanto não lhe apetece tanto, já que sente que seu coração não pertence apenas ao reino dourado mas também à querida Midgard.

Tendo ignorado os conselhos do Beyonder (e quem pode culpá-lo?) a respeito de cautela com as fãs mais entusiasmadas, Thor acaba caindo na armadilha plantada por Loki que, à distância e com o uso de um aparato complexo que suga ocultamente as energias da Espada Crepúsculo, criou um encantamento através do qual o beijo de uma dama transformaria o herdeiro favorito ao trono de Asgard em um príncipe sapo. O plano de Loki aqui lembra os divertidos esquemas pirados das primeiras escaramuças dos irmãos, dando um ar de leveza e humor bem colocados para as maquinações polticas de Asgard.

Transformado em sapo, Thor age com surpreendente calma e ponderação, buscando a ajuda dos Vingadores. Infelizmente Jarvis não é de grande ajuda, e ele acaba espantado a vassouradas da mansão. Entrando em uma briga com um rato enfezado, o deus do trovão acaba em uma fuga pela cidade, posteriormente descobrindo o conflito entre os sapos do reservatório, governados pelo Rei Gargarejo, e as ratazanas psicopatas que pretendem envenená-los e, se possível, acabar com os humanos e em seguida dominar o mundo.

Em Asgard é convocado pela enlutada Frigga o importantíssimo Alpingi, conclave que visa deliberar sobre o futuro do trono, sob a liderança de um legislador. Foi visando acabar com a concorrência indesejada do filho favorito de Odin que Loki reduziu-o a um anfíbio coaxante, preso em Midgard – uma vez que, após a destruição da Bifrost por Surtur, o trânsito entre as dimensões requeriria de Thor o pleno uso de seus poderes.

Um anfíbio de valor!

Assim como na batalha final da Saga de Surtur, o roteiro faz um excelente uso do contraste de escalas para estabelecer uma narrativa dinâmica e dramática, que se apresenta como grandiosa e íntima ao mesmo tempo. Em Asgard, temos Heimdall e Harokin se unindo para tentar descobrir qual é a ardilosidade que o deus da trapaça está tramando para o evento, suspeitando que ele tenha ligação com a ausência de Thor. Enquanto o futuro da ordem dos Nove Mundos está em questão, acompanhamos com igual afinco e interesse as desventuras de Thor e de seus recém-conhecidos companheiros de guerra, os sapos Pocinha, Canção Verde e Olhudo (esses nomes são bons demais).

O deus do trovão mostra-se desconfortável de início, mas logo se sensibiliza com as criaturas. Seu ímpeto encontra-se dividido entre a pressa em comparecer ao Alpingi e a necessidade de ajudar os sapos que tão bem o acolheram (com Rei Gargarejo dizendo em seu leito de morte que pedira aos deuses um sapo capaz de auxiliá-los com a crise, e que Thor seria obviamente sua resposta). Eles explicam os terrores do bando de ratos liderados por Zona Sul (!!) e Ratso, que têm usado veneno de rato (!!!) para atacar os pobres anfíbios, planejando inclusive um ataque ao reservatório de água, potencialmente fatal para os humanos que vivem an região.

Thor conviveu por tempo suficiente com vikings para saber reconhecer que essas ratazanas são heavy metal demais para os pacíficos sapos lidarem por si sós, e decide buscar ajuda dos “dragões” – na verdade os famigerados jacarés que vivem nos esgotos da cidade. Inicia-se uma batalha campal do tipo da qual o deus do trovão jamais participara até então. Toda essa narrativa é construída sob uma tonalidade de fábula, fazendo excelente uso do setting experimental onde a revista mensal do deus do trovão repentinamente se vê destituída de deuses, espadas e situações fantásticas para ser povoada, por páginas e mais páginas, por sapos e ratazanas falantes tramando estratégias de guerra em meio aos esgotos do Central Park. O uso da linguagem excessivamente rebuscada de Thor ajuda a dar a coisa toda um ar de conto de fadas, sendo que é muito interessante acompanhar como, numa perspectiva interna à história, o personagem leva extremamente à sério e se envolve profundamente com a guerra dos bichos. Na arte as sequências também funcionam muito bem, com quadros sempre representando os animais de perto e em perspectivas expressivas, intercalando cenas de ação onde recria-se um divertidíssimo tipo de humor visual de quadrinhos infanto-juvenis – não por menos a edição #363 é dedicada à Carl Barks e a todos os heróis e vilões de Patópolis.

Glória absoluta!

Talvez o grande segredo do charme desta pequena história seja justamente esse: a narrativa infanto-juvenil sendo utilizada para o máximo de sua potência. Simonson recua da fantasia cósmica em direção à simplicidade da fábula e, apoiando-se em visuais muito bem construídos, diálogos hilários e em tudo que sabemos a respeito de Thor e de sua atuação situação, faz com que a coisa toda funcione para além de uma mera distração humorística. O comprometimento com a proposta absurda da história e o fato de que ela é levada até o fim com a mesma seriedade de um enredo comum, sendo que todo humor é interno às situações e nunca deliberadamente auto satírico, fazem com que a coisa toda se sustente com a dignidade que toda excelente ficção infanto-juvenil tem de falar com a criança interior do adulto. Tem algo de especial em uma história em que, mesmo com uma disputa política pelo trono de Asgard envolvida, o leitor se interessa primariamente por um sapo capaz de dar super chutes em ratazanas assassinas.

A cena em que, após resolver o conflito contra os ratos, Thor-Sapo se vê forçado a tentar erguer o Mjölnir, mesmo em sua forma tão molenga e fraca, é magistralmente ilustrada, com a narrativa interna do sofrimento da pobre criatura que confia sua vida à possibilidade de seu velho conhecido encantamento do martelo reconhecer seu valor, mesmo em sua condição atual. Não tivesse Thor ajudado os sapos do reservatório, teria ele conseguido erguer novamente o martelo? Por sorte não saberemos, já que ele tomou a via heroica e é agraciado, assim, com seus fantásticos poderes. Sorte também do leitor que ganha uma conclusão de história que envolve um sapo de 2 metros de altura fazendo cosplay de Thor chegando em Asgard em uma carruagem puxada por dois bodes, para então dar uma surra de martelo em Loki e dissipar uma intriga política pelo trono. Foi pra esse tipo de coisa que inventaram as histórias em quadrinhos.

Um conto sobre heroísmo e humildade que cativa o leitor não apenas pelo humor mas também por uma história sentimentalmente inspiradora, Thor Sapeia! é um experimento muito bem sucedido e que merece seu lugar de destaque na cronologia do herói asgardiano. A dedicatória a Carl Barks revela que Simonson mirava alto quando concebeu a saga, e é com prazer que o leitor constata que o autor consegue ter sucesso em seu projeto.

Thor Sapeia! (Thor Vol.1: #364 – 366 / Thor Croaks!) — EUA, fevereiro a abril de 1986
Marvel Comics
No Brasil: Superaventuras Marvel #102 – 103 (Abril, 1990-1991); Os Maiores Clássicos do Poderoso Thor #3 (Panini, 2008)
Roteiro: Walter Simonson
Arte: Walter Simonson
Arte-final: Walter Simonson
Cores: Max Scheele, Paul Becton
Letras: John Workman, John Workman Jr.
Capas: Walter Simonson
Editoria: Ralph Macchio, Jim Shooter
72 páginas

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.