Crítica | Thor

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Gostando ou não, a Marvel tem feito história também no cinema. Assim como nos quadrinhos, ela conseguiu criar uma malha coesa de filmes e séries que não são necessariamente continuações um do outro, mas que convivem no mesmo universo e relacionam-se uns com os outros. No primeiro Homem de Ferro, de 2008, o recém-formado Marvel Studios lançou, via Paramount, a pedra fundamental desse universo, mas de maneira extremamente tímida, ainda que, mesmo hoje em dia, seja um dos melhores filmes desse Universo Cinematográfico.

Em seguida, continuou nessa narrativa com O Incrível Hulk, no mesmo ano. Em 2010, lançou Homem de Ferro 2 que, apesar de seus enormes defeitos, funcionou para criar forte ligação entre as histórias, já pavimentando o caminho para Os Vingadores.

Mas, até então, a Marvel havia “brincado” apenas com seus personagens calcados, de alguma maneira, em uma explicação científica: um super gênio que cria uma poderosa armadura e outro super gênio que se transforma em um monstro verde incontrolável depois de um acidente de laboratório com radiação. Faltava, assim, um grande passo para a chamada Casa das Ideias: abordar seus personagens baseados na magia e no sobrenatural e como fazê-los combinar com o que já havia sido feito até aquele momento. Lembrem-se: até aquele ponto, o hoje mais do que bem-sucedido UCM ainda andava pisando em ovos, por assim dizer, pois um fracasso retumbante poderia significar seu fim ou desequilibrar gravemente seus planos. Portanto, abordar um personagem mágico de cabeça era uma aposta perigosa, algo que hoje, como Doutor Estranho provou, não mais se aplica, por razões óbvias. Thor, portanto, foi um momento decisivo e uma grande aposta da Marvel, mas também uma peça essencial para o futuro filme dos Vingadores. Afinal, a “Santíssima Trindade” do super grupo é formada pelo Homem de Ferro, Thor e Capitão América. Sem qualquer um dos três, a reunião da equipe ficaria no mínimo estranha.

Entra, então, Kenneth Branagh, diretor de obras shakespearianas, para comandar esse arriscado filme. Escolha acertada para dar certa solenidade ao evento ainda que sua escolha de estilo tenha sido um tanto quanto irritante (falarei mais sobre isso em breve). Somando-se a Branagh, temos a perfeita escalação de Anthony Hopkins para viver Odin. Esse grande ator emprestou aquilo que precisava ao personagem: peso, respeito, majestade e nobreza. E as escolhas de elenco continuaram nessa linha com a escalação do então desconhecido, mas eficiente Chris Hemsworth no papel título (ok, não era completamente desconhecido, mas seu papel anterior mais famoso, o pai do futuro Capitão Kirk no reboot de Star Trek, não é bem um papel propriamente dito e sim não mais do que uma ponta), da bela Natalie Portman para viver Jane Foster (agora uma astrofísica e não uma enfermeira como nos quadrinhos), Stellan Skaarsgard para o papel do mentor de Foster, Idris Elba para o imponente Heimdall e, finalmente, o excelente Tom Hiddleston para viver o importante papel de Loki, o Deus da Trapaça e meio-irmão de Thor.

Com tudo isso em mãos, pode-se dizer que a Marvel municiou-se muito bem para criar um Thor que fosse crível, dentro de uma lógica estabelecida desde o primeiro Homem de Ferro. A ciência abre espaço para a mágica, mas sem que se perdesse de vista o primeiro. Thor deixa isso claro para Jane Foster ao dizer que ciência e mágica são basicamente a mesma coisa de onde ele vem, conceito esse reforçado posteriormente em Doutor Estranho.

Sobre a trama, escrita por um trio de roteiristas, ela é simplória. Thor, o Deus do Trovão, é o arrogante filho de Odin, o Pai de Todos. Eles vivem no muito bem limpo e brilhante reino de Asgard, um dos Nove Reinos ligados pela ponte Bifrost (ou Ponte do Arco-Íris). Na cerimônia de passagem da coroa de Odin para Thor, os Gigantes do Gelo, do reino de Jotunheim, tentam roubar um tesouro guardado por Odin e Thor, em vingança, age de maneira estúpida. Com isso, ameaça a paz alcançada depois de muita guerra por Odin (em um ótimo resumo introdutório em forma de flashback mostrando a influência de nosso herói na mitologia nórdica) e acaba sendo banido para Midgard, a Terra. No Novo México, ele imediatamente esbarra com Jane Foster e, então, a aventura vai pulando de Asgard para Midgard.

Já li muitos comentários sobre o filme, alguns dizendo que somente as sequências em Asgard são boas, outras afirmando que as sequências na Terra é que funcionam melhor. Creio, porém, que as sequências em ambas as terras, em seu agregado, apesar de burocráticas, funcionam bem, em um equilíbrio difícil de alcançar, mas que Branagh consegue transpor para as telonas. Em Asgard, temos a grandiosidade do reino e a solenidade dos guerreiros que parecem andar vestidos para festas de gala todo o tempo. Em Midgard, temos aquela história básica do “peixe fora d’água”, com Thor tentando adaptar-se, o que gera momentos de alívio cômico que, apesar de muitos torcerem o nariz, retiram o tom potencialmente esnobe que deuses nórdicos na Terra poderiam ter. Branagh equilibra a seriedade “estranha” de Asgard com a comédia leve de Midgard, sem nunca exagerar em um ou outro lugar.

As batalhas são boas, ainda que não extremamente originais ou especialmente excitantes, e pontuam o filme de maneira cadenciada, sem deixar a trama ficar morna. Vemos menções ao Dr. Bruce Banner e a Clint Barton, o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), que faz uma ponta microscópica só para fazer os fãs apontarem os dedos excitados. E, como nos demais filmes, há a famosa cena pós-créditos que não deve ser perdida, pois leva quase que diretamente a Os Vingadores.

Mas a fita tem alguns problemas que não são fáceis de serem deixados de lado em uma análise mais fria.

O primeiro deles é a qualidade dos efeitos especiais. Para esconder a economia feita, muitas cenas são escuras (notadamente no Reino de Gelo) e, quando a luminosidade é inevitável, como nas tomadas em plano aberto de Asgard, ficam claras as limitações e a artificialidade do que foi criado. Mas esses defeitos não chegam a prejudicar o filme, pois a ação ininterrupta nos impede a observação tranquila dos problemas.

O segundo defeito é a passagem de tempo na Terra. Thor é banido para Midgard para aprender uma lição de humildade (como na origem do personagem nos quadrinhos) e, ao longo de meros dois dias (ou algo assim), ele aprende a lição e tudo se resolve como se o problema não tivesse existido. Não dá para entender a pressa de Branagh, que poderia muito bem ter ampliado a impressão temporal por meio de uma montagem mais esperta ou, até mesmo, com o uso de uma das maiores muletas cinematográficas: a montagem mostrando o desenvolvimento do herói (normalmente ao som de alguma música pop excitante). Mas o diretor não faz nem uma coisa nem outra, tornando toda a situação bem improvável e exigindo demais do espectador e isso, claro, mesmo depois de aceitarmos todas as demais coisas improváveis ao redor, mas que fazem sentido dentro de toda a mitologia do herói na Marvel).

Além disso, há uma outra questão, talvez a mais irritante delas: Branagh usa e abusa das tomadas na diagonal (ângulo holandês), que geralmente são usadas para transmitir sensação de estranheza ao espectador, refletindo a mesma sensação em algum personagem ou sobre alguma situação. Aqueles que se lembram daquela série cômica da década de 60 do Batman saberão o que estou falando. Essas sequências funcionam bem para amplificar o choque entre Asgard e Midgard, quando Thor está entre os mortais. No entanto, o diretor aplica a técnica por vezes demais e também nas cenas de Asgard, onde Thor não é um estranho, o que torna o emprego da técnica apenas um capricho diretorial sem nenhum sentido prático. Desnecessária escolha de estilo de Branagh que apenas retira qualidade da fita. Ele deveria ter visto novamente O Terceiro Homem para ver como se emprega essa técnica.

No final das contas, mesmo com seus problemas, Thor é um divertimento simples para quem gosta ou não da Marvel. Não é um marco cinematográfico, mas nem pretende ser. Apenas cumpre sua função de entreter, de apresentar um personagem potencialmente complicado ao UCM ainda jovem e de, assim como Bifrost, criar uma ponte entre os vários filmes na direção certeira de Os Vingadores.

  • Crítica originalmente publicada em 24 de julho de 2014. Atualizada para republicação.

Thor (Idem, EUA – 2011)
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Ashley Miller, Zack Stentz, Don Payne
Elenco: Chris Hemsworth, Anthony Hopkins, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Stellan Skarsgård, Idris Elba, Ray Stevenson, Josh Dallas, Clark Gregg, Jaimie Alexander, Rene Russo, Jeremy Renner
Duração: 115 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.