Crítica | Tickled

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estrelas 5,0

Obs: Apesar de ser um documentário baseado em fatos reais ou, pelo menos, na interpretação de fatos pelas lentes dos diretores, e de não haver spoilers na crítica, é altamente recomendável, diante da estrutura da narrativa, que Tickled seja assistido sem conhecimento prévio algum. Desbravem o filme e surpreendam-se! E, depois, voltem aqui…

A forma mais saudável de se encarar Tickled é como se ele fosse um episódio de Black Mirror. Digo saudável, pois o documentário neozelandês começa de um jeito, se desenvolve de outro e nos deixa com constatações aterradoras sobre a natureza humana e sobre o uso da tecnologia ao seu final. Portanto, encarar tudo como ficção é mais reconfortante e agradável e menos comprometedor. Mas, infelizmente, os eventos de Ticlked, mesmo que filtrados pela interpretação dos diretores, são verdadeiros.

David Farrier, repórter neozelandês especializado em bizarrices, um dia, lá por 2013, esbarrou em uma página do Facebook dedicada a algo chamado “competição de resistência à cócegas” (foi a melhor tradução que consegui fazer de competitive endurance tickling) em que homens jovens e fortes “sofrem” cócegas de outros homens jovens e fortes. Curioso, ele manda um e-mail para lá e, ato contínuo, recebe uma violenta resposta em que a dona da página e aparentemente da produtora Jane O’Brien Media, produtora dos vídeos da competição, diz que não quer saber de David, pois ele é gay (e ele é) e não quer sua empresa conectada de alguma forma com esse tipo de “desvio de caráter”.

O que qualquer repórter que se preza faria diante de situação como essa? Cavaria mais fundo, não é mesmo? Especialmente porque a tal dona passa a fazer bullying com David, mandando mensagens ameaçadoras diárias para ele. Não se fazendo de rogado, o intrépido David começa a achar mais e mais informações sobre a misteriosa empresa e o bizarro “esporte”, o que o leva a escrever um artigo e a iniciar uma campanha no Kickstarter para angariar fundos justamente para o documentário sob análise. É nesse ponto que a coisa começa a ficar mais séria e a Jane O’Brien Media passa a realmente tomar medidas para que ele pare de fazer o que está fazendo…

Assim, um documentário que seria sobre um surreal campeonato de cócegas dá uma guinada completa e envereda por caminhos cada vez mais esquisitos e sombrios. E David Farrier, com seu amigo geek Dylan Reeve, criam uma obra investigativa que faria inveja a muitos filmes e séries de TV do gênero por aí, genuinamente construindo uma narrativa de suspense que conta com pesquisas a fundo, remontando ao começo da internet como a conhecemos hoje, passando por entrevistas que dão calafrios e revelações surpreendentes que montam um quadro quase inacreditável que vai muito – mas muito mesmo – além da premissa inusitada, mas bem inocente que o título deixa entrever.

É como um mergulho nas entranhas escuras, sujas e fedorentas de manipulação da mídia e do poder do dinheiro que suga o espectador para dentro desse redemoinho na mesma proporção que David e Dylan são sugados, tornando o documentário uma pequena pérola que não pode ser perdida por quem gosta do gênero ou mesmo por quem apenas procura uma história aterrorizante que, por acaso, é verdadeira. A experiência de se assistir Tickled é, chegaria a dizer, única, pois vários elementos que são desvelados mais para a frente, quando o caldo realmente começa a engrossar (estou sendo críptico propositalmente aqui), são coisas que podem, de uma maneira ou de outra, fazer parte do dia-a-dia de muita gente. As portas secretas que os diretores – e vítimas – vão abrindo são de fazer o queixo cair e vão muito além do tal “esporte” para lá de estranho.

Falando nas cócegas, aliás, é importante salientar que, se algum espectador espera aprender mais sobre esse fetiche (por curiosidade ou por tê-lo, não sei…), ele potencialmente sairá desapontado. Não que não haja uma interessante abordagem sobre esse submundo, pois há, mas sim porque simplesmente as circunstâncias levaram a história a outro caminho muito mais inacreditável, interessante e, francamente, assustador.

Usando de artifícios típicos de filmes de suspense, como trilha sonora antecipativa, construção narrativa lenta, mas lógica e trabalhando muito bem uma montagem célere que deixa o espectador roendo as unhas, o documentário é um inesperado triunfo fílmico que nos deixa com a certeza de que a realidade é realmente bem mais estranha que a ficção.

Tickled (Nova Zelândia, 2016)
Direção: David Farrier, Dylan Reeve
Com: David Farrier, Dylan Reeve, David Starr, Hal Karp
Duração: 92 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.