Crítica | Tigrão – O Filme

“Agora, esse é um título maravilhoso! E falando de coisas maravilhosas… woo-hoo-hoo-hoo!”

O desacordo que Tigrão – O Filme possui em relação ao longa-metragem original de 1977, As Aventuras do Ursinho Pooh, é bastante interessante. Enquanto, naquele filme, a coisa mais maravilhosa sobre os tigres era o fato de Tigrão – com a voz de Paul Winchell, originalmente – ser o único de sua espécie, nesta obra própria, esse pensamento é revisto, sendo, antes de tudo, aprofundado no psicológico do personagem. Estamos falando, portanto, de uma interpretação direta, agressiva, de certa forma, da primeira realização cinematográfica acerca desta franquia, um pouco subvertida sob as lentes de uma história inédita, sem qualquer fonte de adaptação. O que se deve passar dentro da mente de uma criatura extremamente diferente das outras? A personalidade tigrante, pulante e listrante de Tigrão, afinal, dá margem a inúmeras dores de cabeça para seus amigos, reclamando da extroversão do personagem. O caráter mais infantil das animações do Ursinho Pooh permanece, mas existe uma criação dramática relevante e, felizmente, operante, que, teoricamente, permitiria a obra trabalhar a essência de uma de suas figuras mais populares, sem transformar isso em um longa-metragem mais genérico, feito exclusivamente para a televisão. Muito pelo contrário, Tigrão – O Filme, apesar de ter sido pensado como uma obra feita diretamente em vídeo, acabou sendo lançado nos cinemas de todo o mundo.

A popularidade do personagem, além disso, permitiu a arrecadação da obra ser a maior dentro de uma franquia que não conseguiu números impressionantes nas bilheterias. A introdução da obra, para pontuar algo notável, porém menor dentro de uma visão geral, é equivocada, fugindo do escopo literário abordado nas obras anteriores e colocando Tigrão – agora com a voz de Jim Cummings, a mesma do Ursinho Pooh – como um personagem que salta das páginas dos livros, o que cria uma conversa mais aproximada do espectador com o protagonista, mas impossibilita, por exemplo, o uso de narradores e artifícios metalinguísticos. O desapego do filme, novamente realçando esse aspecto cinematográfico da produção, com o longa-metragem original é grande, mas a mudança não é acompanhada de muita imaginação para compensar. Sendo o filme mais longo da franquia, é uma pena que as situações não se renovem, apesar de manterem uma essência pueril. As músicas, apesar de não serem nenhum pouco desastrosas, são incomparáveis às do filme clássico. A única sequência animada que evidencia-se diante de uma narrativa sem muita imaginação na criação é a de Round My Family Tree, explorando a árvore genealógica de uma suposta família biológica que Tigrão tem, tudo através de muita criatividade, cores e traços diferenciados. A busca pelos parentes do protagonista, aliás,  é o que move a trama.

As omissões imaginativas, por outro lado, são substituídas por uma ideia dramática inédita, mais presente e significativa neste do que no, infantil e descompromissado com discursos gerais, longa-metragem de 1977. A criação de uma relação fraternal entre o protagonista e Guru (Nikita Hopkins) é promissora, atendendo batidas clássicas, mas possuindo uma espirituosidade que funciona consideravelmente, com o filme sendo auto-consciente do que planeja e não jogando essa trama paralela de qualquer jeito dentro do âmbito geral da obra. Tigrão – O Filme tem um sentimentalismo inerente, extremamente mais acentuado do que no filme anterior, que tinha uma relação afetiva com o espectador por outras questões que nasciam da mera natureza delas, não de uma intenção emocional posta sobre elas. A jornada do personagem, tentando encontrar a sua família, é singela, com os personagens em torno dele desempenhando funções coletivas bastante fortes – ainda que a ausência acima do normal por parte de Christopher Robin (Tom Attenborough) seja um problema. No final das contas, a trajetória acaba por ser muito mais psicológica do que efetivamente física. Embora não possua a criatividade ou o senso de maravilhamento do longa original, Tigrão – O Filme é corajoso e desenvolve um trabalho interessantíssimo sobre o psicológico de um personagem amado mundialmente.

  • Nota sobre a dublagem brasileira: Como acredito que a maior parte dos leitores se acostumaram com a dublagem, achei importante pontuar sobre ela, pois também conheci esses personagens nas vozes de Claudio Galvan, Isaac Bardavid e Alexandre Moreno. Além de diferenciar os personagens muito bem, tornando-os identificáveis e diferenciáveis apenas pela fala, o mais interessante da dublagem é como ela consegue se assemelhar com as vozes originais.

Tigrão – O Filme (The Tigger Movie) – EUA, 2000
Direção: Jun Falkenstein
Roteiro: Jun Falkenstein
Elenco: Jim Cummings, Nikita Hopkins, Ken Sansom, John Fiedler, Peter Cullen, Andre Stojka, Kath Soucie, Tom Attenborough, Frank Welker, John Hurt
Duração: 77 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.