Crítica | Timão de Atenas

estrelas 3,5

Existe ainda um certo debate sobre a autoria ou não dessa peça ser inteiramente de William Shakespeare. A versão hoje mais aceita é que Thomas Middleton tenha escrito uma boa parte da peça e que Shakespeare tenha trabalhado a ideia principal, realizado a maior parte dos atos de número dois, três e cinco e preenchido algumas “lacunas” nos outros atos. Contudo, independente dessa questão, não temos como negar que Timão de Atenas é uma peça sensacional, uma visão dura e crítica sobre a ambição, a hipocrisia, as falsas amizades e a ganância.

A tragédia se concentra na vida presente de Timão, que nos dois primeiros atos da peça é tido em alta conta pela sociedade ateniense, a quem ajudou a salvar e aos cidadãos da qual enche os bolsos de ouro e as mãos de presentes mais diversos. Fica no ar a incômoda questão: o dinheiro pode comprar amizades?

Já no início da obra temos a clara indicação de que esses tão próximos amigos de Timão são, na verdade, aduladores que se valem da falta de parcimônia do mecenas e disfarçadamente forçam-no a presenteá-los constantemente. Timão chega ao absurdo de pedir dinheiro emprestado aos seus “amigos” para comprar presentes para eles, sempre entregues com um algo a mais, algo muito além do valor emprestado.

Na adaptação de Jonathan Miller para a série da BBC, Timão é um jovem gentil-homem da sociedade ateniense, uma questão de idade pouco explorada nos palcos, já que a maioria dos atores que interpretam Timão são sempre homens maduros, a maioria deles de cabelos brancos. Mas a visão de Miller não é despropositada. Faz sentido ter escalado Jonathan Pryce, então com 34 anos, para dar vida ao herói mais incomum de Shakespeare. Sendo tão dispendioso, creio que a fortuna de Timão não duraria assim por tanto tempo – até a velhice, quero dizer -, logo, enxergo com bons olhos um ator mais novo para viver o personagem.

Algo bastante comum nos elencos dessa série da BBC e que vemos nessa versão de Timão de Atenas é a excelência das interpretações e a forma interessante com que alguns diretores dão vida a dramas que aparentemente teriam problemas para entreter o público. Aqui, o peso maior – e a melhor parte do filme – se encontra no momento que corresponde ao 4º e 5º Atos da peça, ou seja, o período da miséria de Timão, seu afastamento para uma caverna na floresta e a sua larga sequência de maldições aos homens.

É a partir desse ponto que o próprio espectador se pergunta se os falsos amigos de Timão, no contexto da obra, estão completamente errados; ou se Timão, que sempre desprezou os conselhos de seu contador ou do misantropo Apemanto, teve uma parcela de culpa tão grande ou até maior em sua própria derrocada. O mecenas podia ter boas intenções, mas seu orgulho e ego eram massageados com os elogios e fama que tinha em Atenas, algo sem o qual não consegue viver, tanto que, ao invés de tentar reverter a situação, se enfurna numa caverna afastada e lá, morre.

Timão de Atenas é uma excelente tragédia, uma visão crua sobre o comportamento humano em momentos de necessidade e do socorro que ele pode receber (ou não) nesses momentos. Jonathan Miller consegue fazer desse texto de Shakespeare uma obra agradável e instigante de se assistir, mesmo que mantenha alguns erros de execução durante os primeiros atos. Todavia, a adaptação mantém a essência da peça e só por isso deveria ser vista, até porque, deixar vivo o tom pessimista e denso que permeia o original não deve ter sido algo nada fácil. O resultado final, como não podia deixar de ser, vale bastante a pena.

Timão de Atenas (Timon of Athens) – UK, 1981
Direção: Jonathan Miller
Roteiro: William Shakespeare
Elenco: John Fortune, John Bird, Tony Jay, David Kinsey, Jonathan Pryce, John Welsh, Sebastian Shaw, Max Arthur, Norman Rodway, Geoffrey Collins, Terence McGinity, John Shrapnel
Duração: 128 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.