Crítica | Timbuktu (2014)

estrelas 4

Abderrahmane Sissako, diretor mauritano com forte sensibilidade para fazer filmes críticos e humanos — vide os memoráveis A Vida Sobre a Terra (1998), Esperando a Felicidade (2002) e Bamako (2006) — nos traz em Timbuktu, uma tocante e questionadora obra focada na violência, terror e intolerância religiosa dos extremistas islâmicos em Timbuktu, a famosa cidade histórica (patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO) do Mali, país vizinho da Mauritânia, a terra natal do cineasta.

Trata-se de uma obra sobre adequações, recuos, dor e sacrifícios que vemos ocorrer em diversos pontos da cidade, tocando um grande número de cidadãos e famílias. Após a chegada dos rebeldes islâmicos, a vida em Timbuktu não segue mais a mesma e tudo parece ir de mal a pior. Leis arbitrárias são feitas e refeitas constantemente, ao bel prazer dos rebeldes. Mulheres devem cobrir o rosto, vestir meias e luvas. Não se pode mais fazer música ou jogar futebol. Totens são destruídos. Casamentos forçados são feitos. Tudo isso em nome de Alá.

O grande ganho da obra é a forma como o roteiro de Sissako e Kessen Tall aborda os excessos da religião e, muito sabiamente, também mostram o seu outro lado da mesma moeda, através de um dos líderes locais da Mesquita de Sankore. Enquanto a morte e a força em nome de Deus ganham espaço nas ações de um grupo, a compreensão, o perdão e a compaixão parecem querer esgueirar-se no meio da tragédia e fazer o bem. O tom utópico que isso possa aludir é de fato a realidade que Sissako nos faz pensar, a contradição incômoda que nos traz a seguinte pergunta: como podem indivíduos de uma mesma religião, que cumprem os mesmos rituais e adoram o mesmo deus terem uma visão tão diferente no que diz respeito às ações para com outros seres humanos?

Através de uma fotografia saturada e permeada de tons naturais (marrons e verdes) alternada com as diferentes cores dos figurinos e das tomadas noturnas e diurnas, vemos essa luta pela sobrevivência em meio ao terror religioso-ideológico-cultural ganhar fôlego e se tornar algo trágico. O filme transmite uma sensação de calor e claridade que de alguma forma tornam o espectador confortável — sentimento oposto à sensação causada pelo enredo –, até porque a beleza das paisagens do Mali e Mauritânia, onde o filme foi rodado, são de tirar o fôlego. A vegetação rala (típica do sahel), as dunas de areia, o rio raso, o filhote de veado correndo, todos os elementos naturais são um complemento de beleza que ajudam a contar a história pelo contraste e pelo contexto.

Amin Bouhafa se destaca na trilha sonora com composições belíssimas e de curta duração (o que nos deixa com vontade de querer ouvir mais), escolha do diretor que torna tudo ainda mais interessante porque uma das leis dos rebeldes islâmicos é que a música está proibida. Portanto, toda vez que um acorde é apresentado, temos a sensação de descumprimento de regra ou algo do tipo, um jogo dramático que funciona muito bem ao longo do filme.

Apesar de as histórias incompletas e personagens com papeis pouco ou nada úteis para a narração da história em si (e mulher com o galo é o maior exemplo) incomodarem bastante, o roteiro consegue transmitir sua mensagem quase que perfeitamente. A busca pela liberdade, o correr do perigo e a sensação de que se está preso àquela terra são as sensações que nos acompanham do meio para o final do longa, situação que fica em aberto com o corte abrupto do desfecho, ação questionável da edição mas que, se pensarmos bem, tem uma interessante função de atiçar a mente do espectador para pensar no que seria daqueles personagens ou no que será das cidades que hoje, na África e no Oriente Médio, vivem sob o domínio do medo causado por aqueles que acreditam que estão fazendo valer a palavra de salvação divina através de uma guerra conta pessoas comuns. Como se a manutenção da fé e o valor das palavras de Alá fossem conseguidos através de armas, força física, ditaduras e desumanidade.

Timbuktu (França, Mauritânia, 2014)
Direção: Abderrahmane Sissako
Roteiro: Abderrahmane Sissako, Kessen Tall
Elenco: Ibrahim Ahmed, Abel Jafri, Toulou Kiki, Layla Walet Mohamed, Mehdi A.G. Mohamed, Hichem Yacoubi, Kettly Noël, Fatoumata Diawara, Adel Mahmoud Cherif, Salem Dendou
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.