Crítica | Tinha Quer Ser Ele?

estrelas 2,5

Quando assisti ao trailer de Tinha Que Ser Ele? prontamente tirei conclusões antecipadas. Insosso em dois minutos de cenas presumidamente engraçadas, tinha como quase certeza que estaria diante de um futuro clássico de Sessão da Tarde. Sem falar na dor de ver Bryan Cranston, o eterno Walter White, em um papel, mesmo que ainda no campo das especulações, tão banal. Na trama, Ned Fleming (Bryan Cranston), CEO de uma companhia de impressão, descobre da pior maneira, em seu 55º aniversário, que sua filha está namorando Laird Mayhew (James Franco), um jovem milionário. Convidando sua família para passar o Natal com ela e tentar fazê-la conhecer melhor seu namorado, Stephanie (Zoey Deutch), a filha, começa a passar por diversos desconfortos, visto que seu namorado não conseguiu ganhar a simpatia de Ned. Sendo assim, na mansão Mayhew, Laird buscará a todo custo convencer Ned que ele é o cara certo para a jovem, e finalmente, receber a bênção do sogro para pedir a mão de Stephanie em casamento.

Você provavelmente já viu essa história antes. Baseado em uma fórmula fácil, o roteiro segue as convenções do gênero sem buscar caminhos mais ousados. A história previsível, que repete arcos já feitos anteriormente de modo mais competente, se sustenta nas ótimas análises sociais. O conflito de gerações, a passada e a atual, permeia bastante as quase duas horas de filme. O filme, aliás, promove uma conciliação entre as duas, sem tender a criticar por definitivo um lado ou outro. No mais, o longa segue uma linha bem parecida com Entrando Numa Fria, e suas sequências: a aceitação de um alguém por parte de uma figura paterna. Não é por menos que o roteiro é de John Hamburg, mesmo roteirista da trilogia dos Fockers.

A começar, o texto não consegue tratar de modo orgânico a esdrúxula vida de Laird. Com sua mansão gigantesca, o milionário tem um zoológico pessoal, com direto a lhamas andando pelo seu jardim, quadros extremamente sexualizados, animais empalhados pela residência e tecnologias de ponta inimagináveis. Embora o tratamento de Hamburg busque trazer um significado para a maneira como o personagem de Franco vê o mundo e se comporta nele, nada surpassa a superficialidade. Não é um mundo crível, embora as relações consideravelmente sejam.

De tal modo, James Franco e Bryan Cranston estão em perfeita sintonia. Há química entre os dois, fazendo-se promover diálogos mais operantes que os do resto do filme, remetentes aos clássicos embates de eras. Com alguns momentos engraçados entre os dois, o filme fracassa razoavelmente no ponto que mais deveria ter acertado: a comédia. Sobre as diversas invenções tecnológicas que são abordadas, e em suma, utilizadas como alívio humorística, dá-se destaque especial  a uma espécie de Siri mais avançada, capaz de promover conversas complexas e com a voz da estrela de The Big Bang Theory, Kaley Cuoco. As piadas desnecessariamente se repetem e são, em sua grande maioria, reciclagem de material já usado, até mesmo por Hamburg.

A obra Tinha Que Ser Ele? também tem uma grande inconsistência em seu tom cômico. Quando mais silencioso, menos verborrágico e mais expressivo, o filme acerta quase em cheio. Por outro lado, seus momentos mais escatológicos e grosseiros têm altos e baixos. A sequência no banheiro, na qual Ned tem de aprender a utilizar um bidê high-tech, embora não tão engenhosa, consegue ser divertida, assim como a revelação da existência de Laird para os Flemings nos primeiros minutos do longa. O contraste está na vulgaridade em torno das palavras, que são despropositadamente marginalizadas, e mais especificamente em uma cena no final do terceiro ato, envolvendo um alce, testículos e o irmão mais novo de Stephanie, Scotty (Griffin Gluck) – vergonha alheia completa.

Pois bem, o filme acerta em cheio no personagem Gustav (Keegan-Michael Key). Bastante cômico, o ator consegue se mostrar presente mesmo com poucos minutos de cena. Análogo a isso, o roteiro contribui na caracterização da amizade entre ele e Laird. No campo das interpretações, aliás, James Franco está muito bem, embora esse seja um papel que o ator esteja acostumado a fazer. Suas caretas funcionam muito melhor que as de Megan Mullally, intérprete de Barb Fleming, esposa de Ned. Ressalvas existem, mas novamente localizam-se em outra exceção: um encontro hilário entre ela e Ned, com a esposa forçando uma relação sexual enquanto o marido busca se evadir. Completando a família, Zoey Deutch se sobrepõe ao restante do elenco por ser a única, além da dupla principal, a passar por uma jornada pessoal com questionamentos genuínos.

Para falar de Cranston como protagonista, é preciso compará-lo a Robert DeNiro. O segundo, mesmo estrelando o já citado ótimo Entrando Numa Fria, participou de inúmeras obras risíveis, que não exploraram nem um pouco a real capacidade interpretativa do ator. Não que uma comédia peça isso, mas o senso de vergonha alheia é uma constante em produções como Tirando o Atraso, por exemplo. Dá para se entender, no entanto, as escolhas do ator. Tendo em vista que ele esteja se divertindo, a aposentadoria de filmes mais robustos vem a calhar. Sendo assim, retomando a comparação, não é de se entender muito bem o que Bryan Craston está fazendo em Tinha Que Ser Ele?. Mesmo já tendo se desvencilhado em papéis mais leves, o ator que há menos de três anos estrelava a última temporada da aclamada série televisiva Breaking Bad, e vinha de uma indicação ao Oscar por Trumbo, fez um escolha, no mínimo, estranha.

Inconsistente, o longa de John Hamburg não diverte como alguns de seu filmes de maior sucesso já fizeram. Porém, o diretor e o co-roteirista Ian Helfer conseguem acertar a mão em algumas situações excetuais. A sensação de preguiça na idealização do enredo, entretanto, corrobora para que torne o material final um frívolo resquício de uma reunião de boas ideias, que ainda assim, já haviam sido utilizadas. Sem a veia cômica que o ator já demonstrou ter, em seriados como How I Met Your Mother e Malcom In The Middle, Cranston não consegue segurar o filme, dando margem para que James Franco se sobressaia em um papel que o ator tem costume em interpretar. Surge de tal maneira um último ressentimento, de fato, relacionado a presença de Bryan no filme. Afinal, tinha que ser ele?

Tinha Que Ser Ele? (Why Him?) –  EUA, 2016
Direção:
 John Hamburg
Roteiro: John Hamburg e Ian Helfer
Elenco: James Franco, Bryan Cranston, Zoey Deutch, Megan Mullally, Griffin Gluck, Keegan-Michael Key, Kaley Cuoco, Cedric the Entertainer
Duração: 111 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.