Crítica | Tintim na América

estrelas 3

Depois de Tintim no Congo, Hergé produziu um álbum que já começava a ter a graça do que seriam as melhores histórias de Tintim dali para frente. Era a sua terceira realização, e mesmo que ainda trouxesse elementos sociais pouco louváveis de sua época, o autor trouxe uma série de colocações muito interessantes sobre a dominação dos índios pelos brancos – isso também um sintoma de sua época, mas a colocação ganha ares críticos, hoje, e pode tranquilamente ser lida desse modo, embora não unicamente – e uma visão particular sobre o crime organizado em Chicago, em plena Lei Seca e sob os reflexos da crise de 1929 (lembremos que a obra original é de 1932).

Al Capone volta para uma missão jornalística de Tintim, e desta vez, em seu próprio território.

A junção entre o Velho Oeste americano e os Estados Unidos da Era Industrial são bem relacionados pelo autor e ganham uma sequência de quadros com tempo em elipse que é simplesmente maravilhosa, dando a entender não só a modificação rápida do espaço geográfico, após Tintim encontrar o poço de petróleo, mas a modificação dos valores sociais junto ao desprezo com que os estadunidenses tratavam os nativos, no caso dessa história, os Peles-Vermelhas.

Os bandidos, por sua vez, recebem uma atenção toda especial, sendo mostrados como parte indissociável do funcionamento burocrático, econômico e até institucional do Estado.

— Al Capone era, para mim, um personagem quase lendário: foi por isso que eu o coloquei em cena tal qual. (…) Nesta história eu não tinha argumento nem um plano estabelecido. Ia trabalhando ao acaso, ao sabor da inspiração. Em cada semana eu colocava Tintim numa situação difícil, perguntando a mim mesmo, frequentemente, como é que ia tirá-lo dali! Também para mim, as aventuras de Tintim eram uma grande aventura!… Foi só a partir de “O Lótus Azul” que eu modifiquei o meu método de trabalho e tentei construir verdadeiros argumentos.

Hergé

Um ganho louvável em relação ao álbum anterior é a sequência lógica da história, que apesar de se bifurcar em diversas frentes, acaba por afunilar-se em um único ponto, sendo este o verdadeiro objetivo do jovem repórter. A história se conclui sem o endeusamento de Tintim, como ocorrera no Congo, mas com a homenagem a um cidadão extraordinário. É evidente que a mudança de lugar permite essa segunda abordagem, mas não nos devemos esquecer que as tribos visitadas na América também tinham um intricada hierarquia social e códigos de respeito e honrarias, com os quais premiam Tintim e Milu durante sua passagem pela região.

Os índios acabam ganhando, vez ou outra, uma representação infantil que se torna evidente quando o fator religioso é posto em cena. Tendo os princípios sociais guiados pelos deuses e por símbolos específicos, como a machadinha de guerra, vemos um certo desdém da personagem branca para com o costume nativo. O modo com Hergé trabalha isso é praticamente corroborando com essa opinião, uma vez que “Deus mesmo” era o que atendia aos pedidos de Tintim em momentos terrivelmente complicados, como o “milagre” ocorrido na linha férrea.

Mesmo com pontos pouco atraentes no roteiro e um ciclo de ações ainda repetitivos, Tintim na América é um álbum notável. A maior parte da aventura transcorre de maneira ágil e sem desconexão narrativa, sendo apenas acrescida de bandidos, prisões e fugas que ajudam a tornar a história dinâmica e construir a personalidade de Tintim como importante cidadão destemido.

Algo que não se deve deixar de observar é o cuidado que o autor tem em não fazer com que o jovem belga parece um super-herói, fugindo milagrosamente de lugares e situações mortais. É claro que em um momento ou outro acabamos tendo essa impressão, mas nada que retire a verossimilhança pretendida por Hergé com sua personagem.

Com uma linha de história bem trabalhada e bom desenvolvimento dos acontecimentos paralelos, Hergé fez de Tintim na América uma aventura deliciosa, uma acusação descarada e muito divertida do modus operandido crime organizado nos Estados Unidos, a ineficiência de parte da polícia e o nó de valores antigos e modernos que acabavam gerando protestos e manifestações engraçadas, como a velhinha que puxa a alavanca do trem porque se compadece de um veadinho sendo perseguido por outro animal e acaba sendo multada por isso, quando o verdadeiro problema era um garoto amarrado no meio dos trilhos. Sem dúvida, é o primeiro álbum do herói que eu me lembro com carinho dos tempos de infância, e que hoje, ao relê-lo, vejo que é de fato a primeira história de Hergé de que gostei de verdade.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.