Crítica | Tintorera

estrelas 2

A memória do subgênero jawsplotation é bastante densa. Quando pensamos que já vimos de tudo, eis que emerge das profundezas dos catálogos deste segmento mais uma produção. Depois do tubarão branco de Spielberg e das demais espécies de feras marinhas exploradas pelo cinema, o cineasta René Cardona tornou-se responsável por manchar mais uma vez o mar de sangue com Tintorera, tendo em mira os ataques de um tubarão-tigre.

O animal possui ótimo potencial cinematográfico: é uma espécie quase ameaçada de extinção e mede até seis metros. Agressivo, se alimenta de um repertório extenso de animais, inclusive os seres humanos, haja vista o terceiro lugar do “tigre” no ranking dos ataques, ficando atrás apenas do tubarão-branco e do tubarão cabeça-chata. Em 12 de novembro de 2014, pescadores acharam uma perna e uma cabeça humana no interior de uma fera de 600 quilos. A notícia, midiatizada com sensacionalismo, demonstrou que este tipo de situação fascina no cinema e na vida real.

Cientes deste potencial, ainda nos anos 1970, diante da febre com filmes de tubarões, produtores decidiram focar nesta espécie e entregar um novo exemplar. Apesar das aparências e de algumas manchas de sangue, o filme está mais para um romance. Apesar do mérito de não copiar o ponto de partida do gênero, Tintorera peca em vários aspectos: a história é confusa, desconectada com qualquer regra de coesão e coerência imagética, além de mesclar diversos subgêneros e não se decidir por nenhum deles.

Com pitadas de softporno e filme de aventura, a trama é a seguinte: Steve (Hugo Stiglitz) passa mal em seu trabalho e é aconselhado por sua irmã a dedicar parte da sua vida ao gozo de férias. O local escolhido é Cancun, espaço paradisíaco que promete muita diversão e prazer. Ao chegar é recebido por Colonado (Roberto Flaco), um excêntrico pescador de tubarões que promete lhe fazer companhia nas férias. Não demora muito para surgir em cena Patrícia (Fiona Lewis), uma turista estadunidense que fornecerá ao viajante os prazeres carnais. Mais adiante somos apresentados ao Miguel, um homem que ganha a vida saindo com mulheres abastadas financeiramente. Logo mais, Gabriella (Susan George), outra moça dotada de bastante carga sensual.

O leitor pode ter se perguntado onde está o tubarão nesta história. Pois bem, acredite, apesar de aparecer pouco, mas deixar alguns rastros de sangue, a fera marinha é o que menos importa neste filme. Segundo dados de produção, os criadores deste filme oportunista, lançado em 1977, utilizaram tubarões reais para a realização das cenas marinhas. Mesmo diante deste potencial para a narrativa, os envolvidos na produção estavam mais interessados em outros aspectos.

Focado na onda gerada pelo filme de Spielberg, Tintorera deixou o ser marinho como pano de fundo (pano, por sinal, bem desbotado) para focar numa história confusa de diletantismo e sexo suave. A trama de 126 minutos aproveita o sucesso deste tipo de narrativa com tubarões, mas prefere focar na farra amorosa de Steve, numa mistura de Tubarão com Três Formas de Amar, porque como se não fosse suficiente toda carga sexual a dois, eles ainda investem num triângulo amoroso entre personagens que passam quase todo o filme sem roupa.

Com roteiro assinado pelo cineasta René Cardona, em parceria com Christina Scuch, responsável por adaptar o romance de Ramon Brávo, Tintorera talvez não tenha interesse de ser crível ou compreensível: pense num romance de verão, somado aos ataques de um tubarão. Pronto, eis a fórmula da narrativa que pareceu interessada em agradar a uma grande fatia do público da época: homens, mulheres, homens que adoram filmes com cenas de sexo, mulheres que gostam de aventuras sangrentas, em suma, todos os arquétipos do fabuloso mundo da recepção cinematográfica.

Tintorera pode não ser um primor narrativo e um filme de extrema importância para a linguagem do cinema em termos estéticos, mas sem dúvida é um valioso objeto de análise para os moldes de uma parte da indústria cultural interessada em capitalizar em cima de boas ideias e exaurir todo o potencial energético deste tema. E não, se você leu e acha que o filme não faz sentido, acredite, o seu pensamento está fundamentado no próprio filme: Tintorera não faz sentido algum, mas ainda consegue ser melhor por outras pérolas pretensiosas deste subgênero, que insistiam em se levar á sério.

Tintorera ( Tintorera) – EUA, 1977
Direção: René Cardona Jr.
Roteiro: René Cardona Jr, Christina Scuch e Ramón Bravo
Elenco: Hugo Stiglitz, Susan George, Andrés Garcia, Roberto Flaco, Fiona Lewis, Eleazar García, Jennifer Ashley, Laura Lyons
Duração: 126 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.