Crítica | Tiros na Broadway

estrelas 3

Nova York, anos 1920. Sob as sombras, filtros escuros e tonalidades quentes proporcionadas pela fotografia de Carlo Di Palma, somos apresentados à saga inglória de um dramaturgo (John Cusack) que se vê envolvido com o perigoso gângster Nick Valenti (Joe Viterelli) e é obrigado a dirigir uma das piores atrizes que já pisaram em um palco da Broadway, papel interpretado de maneira incrível por Jennifer Tilly e que teria seus reflexos na construção de Woody Allen para Linda Ash em Poderosa Afrodite (1995).

Com roteiro de Allen e Douglas McGrath, Tiros na Broadway faz parte de uma safra de produções curiosas do diretor na década de 1990, realizado pouco depois de seu rompimento com Mia Farrow e o escândalo que se sucedeu. Mas diferente de Um Misterioso Assassinato em Manhattan (1993), filme que o diretor também escreveu em parceria, desta feita com Marshall Brickman, Tiros na Broadway tem uma ideia interessante, seguindo com um bom elenco em cena, mas desencontrando-se de si mesmo em ritmo e composição dramática, algo que só consigo atribuir à dificuldade de alinhar a escrita de McGrath com a de Allen.

Há mais ou menos uma divisão equilibrada de tempo, cerca de 50 minutos, para dois momentos distintos da trama, blocos que infelizmente são mal trabalhados em acontecimentos internos (é justamente esse tempo diegético e sua decupagem falha a que me refiro como desencontrados). No primeiro, temos a apresentação episódica do mundo dos gângsters e da vida do escritor David Shayne. Filmados em atividades comuns de suas vidas — o que no bloco de Shayne é um total desperdício de tempo –, esses personagens são colocados em situações que os farão se encontrar aos poucos, como em um funil artístico-social bastante engenhoso e engraçado.

Nesse primeiro tempo, podemos pescar ocorrências ligadas aos relacionamentos amorosos, percepção de vida e arte e pontos comuns aos filmes anteriores de Woody Allen, que aqui servem para dar substância (por fazerem parte de um ciclo) a uma parte dos personagens. No entanto, o verdadeiro momento do filme vem nos 50 minutos finais, aproximadamente; tempo em que temos não apenas os ensaios da peça do dramaturgo que se achava um grande escritor, mas a interferência de Cheech (Chazz Palminteri) no processo de escrita, algo que desencadeará um problema, uma surpresa e uma situação já anunciada para o final, talvez o pior ponto da obra.

O que Allen consegue fazer bem é agrupar os elementos da comédia com a arte e isso até o roteiro em parceria com McGrath logra um excelente resultado. Essa situação só se distende no término do filme, quando a roda da fortuna gira e as consequências vêm à tona, resultando em uma morte esperada e em uma remissão (por parte do dramaturgo) que é uma grande vergonha, tanto pelo modo como acontece quando por suas motivações e diálogos.

À parte esses altos e baixos, Tiros na Broadway é uma divertida brincadeira com os bastidores do teatro e uma pequena homenagem aos filmes de gângster. Dianne Wiest está excelente no papel de Helen Sinclair, uma prima donna com notável capacidade de manipulação, e John Cusack faz um bom “divo iludido”, mesmo que sua participação só fique realmente aceitável na segunda parte da fita.

Woody Allen disse nas entrevistas a Eric Lax que achava Tiros na Broadway (e outros filmes de época como A Era do Rádio e A Rosa Púrpura do Cairo) uma de suas realizações mais bonitas, o que de fato é algo a ser considerado, ao menos nos setores de fotografia e direção de arte, com uma alternância entre o exuberante dos salões, bares e apartamentos para a crueza e comicidade trágica do palco, muitas vezes influenciando a vida de todo o pessoal envolvido.

São essas coisas que nos fazem esquecer um pouco as lombadas da fita e aproveitarmos bastante a sessão com direito a catchphrases, excelente trilha sonora, briga entre atores e um “Neanderthal” gângster que tinha cérebro de grande escritor. Mesmo não sendo nenhuma obra-prima, Tiros na Broadway é um interessante exemplar da filmografia de Woody Allen, um filme sobre arte, pedantismo e falta (ou excesso) de talento.

Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway) – EUA, 1994
Direção:
Woody Allen
Roteiro: Woody Allen, Douglas McGrath
Elenco: John Cusack, Dianne Wiest, Jennifer Tilly, Chazz Palminteri, Mary-Louise Parker, Jack Warden, Joe Viterelli, Rob Reiner, Tracey Ullman, Jim Broadbent, Harvey Fierstein, Stacey Nelkin
Duração: 98 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.