Crítica | Titanic (1997)

estrelas 5,0

É uma tarefa tão prazerosa quanto surpreendente reconhecer e atestar a importância cultural e o poder influenciador de um fenômeno como o que foi, e ainda é, Titanic. Prazeroso por, a cada revisita, percebermos de que se trata de um dos projetos mais justificáveis em sua ambição já feitos, algo que começou à partir do posicionamento autoritário e tirânico de um nome já solidificado aquela época, James Cameron; e surpreendente por poucos dos espetáculos já idealizados para o cinema se igualarem a cinematografia majestosa de algo que, nos anos 90, assumiu a posição de produção mais cara já levada para a tela grande, nada menos que 200 milhões envolvidos na jogo entre brigas com produtores, elenco e um diretor que abriu mão de seu próprio cachê e tirou dinheiro do próprio bolso para permitir que tudo chegasse ao fim.

E falar sobre o alcance de Titanic é algo tão essencial quanto falar sobre o filme em si. Considere que, em dezembro de 97, os ingressos eram surpreendentemente mais baratos e não havia o desespero da inflação; considere que este tão caro romance ambientado no malfadado transatlântico foi o primeiro a atingir a marca de 1 bilhão mundialmente; considere o conhecimento dos que viveram e não viveram o período de lançamento sobre as filas quilométricas que dobravam quarteirões, lotavam absolutamente todas as salas e disputavam ingressos (isso sem contar os relatos das pessoas que afirmaram ter voltado para assistir ao filme mais de três vezes, pelo menos). Reunindo esses fatos, temos uma noção do que Titanic movimentou em 97 com sua popularidade instantânea.

Foi há 84 anos…

Vinte anos se passaram, e Titanic segue com a mesma força no imaginário popular. De lá pra cá, Leonardo DiCaprio  e Kate Winslet ganharam seus cobiçados Oscars, Cameron seguiu quebrando sua própria ambição desmedida com os 2 bilhões de Avatar e suas várias sequências já planejadas, mas é na história de amor entre (numa linguagem vulgar) o pobretão Jack Dawson e a mimada Rose durante os dias em que o RMS Titanic navegou sobre o atlântico que o público enxerga seu marco, o que não seria pra menos diante do Cameron e sua equipe enfrentaram durante os 160 dias de gravações, nos quais até ataques de pneumonia e envenenamento na alimentação. E ainda assim, os esforços não cessavam: Cameron atrasou em cinco meses a entrega do filme, elaborou uma câmera especial para as filmagens debaixo d’água, construiu uma réplica do navio apenas um pouco menor do que o próprio, além de que, reza a lenda, o primeiro corte bruto do filme tinha cerca de 36 horas! Haja fôlego…

E junto com toda a sua história das discutíveis atitudes de Cameron e até onde o diretor levou todos os seus envolvidos, está o verdadeiro motivo pelo qual Titanic se tornou um marco popular, que nada mais é do que sua capacidade inacreditável em contagiar e envolver durante suas mais de três horas com todos os clichês românticos possíveis e imagináveis junto a um casal de rostos bonitos e que personificam o que há de mais estereotipado na persona da princesa e do plebeu. E mesmo hoje, é difícil chegar a uma explicação plausível sobre como Cameron obteve o êxito de chacoalhar tantos elementos batidos e fazê-los funcionar perfeitamente a seu favor. Titanic é um filme alcance e efeitos mágicos.

I’m the king of the world!

Muito da própria paixão (fugindo um pouco do termo “obsessão”) de Cameron, é claro, foi materializada de forma palpável na tela, em especial no choque inicial com todo o perfeccionismo nos mais ínfimos detalhes sobre a reconstrução realista do navio, algo que rendeu a Cameron um longo tempo de pesquisa, seja sobre a arquitetura do navio, sobre a divisão de classes e sobre figuras lendárias daquele acontecido que marcam ou não suas presenças na visão de Cameron. Titanic já se revela um filme de posicionamento corajoso quando seu roteiro se ambienta dentro deste romance que abraça o piegas e o improvável e faz do naufrágio seu pano de fundo para atrelar estas duas linhas. O navio é quase um personagem silencioso e ameaçador que está ali para por à prova os limites dos sentimentos avassaladores entre Jack e Rose.

E Cameron, habilidoso, faz deste retrato romântico improvável  a sua principal força para nos fazer rir, chorar, emocionar e torcer por indetectáveis três horas de projeção. Jack e Rose formam sua relação durante os 4 dias em que o navio esteve no Atlântico, mas tratamos o casal como se estes já se conhecessem há tempos. É louvável a paciência e riqueza com que o diretor firma o interesse mútuo entre os personagens, trabalhando em cima de diálogos e olhares que exemplificam, aos poucos, o que Jack e Rose sentem. Há a primeira troca de olhares, as farpas iniciais entre o casal, para depois começar a troca de sorrisos e encontros furtivos que denotam o surgimento e crescimento daquela paixão. E não apenas isso, há ainda a presença do noivo vilanesco de Rose, Cal (Billy Zane) e sua mãe Ruth (Frances Fisher), ambos sujeitos mesquinhos, aristocráticos e pomposos que serão imediatamente contra a aproximação de Rose com o rapaz da terceira classe. O maniqueísmo, em tese, está formado, mas conforme Titanic se desconstrói, o que parece “preto no branco” no papel se torna um mosaico palpável de mocinhos e vilões que, quando nos damos conta, já estamos envolvidos.

Mas Cameron também nutre um respeito notável pelo fato histórico em si e toda sua representação trágica, passeando com sua câmera num take que revela toda a majestosidade do navio e, em seu interior, o prevalecimento de uma hierarquia entre os mais ricos e os mais pobres. O tratamento diferenciado entre as classes é perfeitamente representado desde a subida para o navio até todo o seu naufrágio, onde vemos que até na tragédia iminente, permanece a hierarquia sobre quem deve viver e morrer. Cameron é pontual sem ser didático, e com isso enriquece a balança história que é Titanic.

O Titanic era o navio dos sonhos

E enquanto a primeira metade toma para si a responsabilidade de instaurar a presença de todos os rostos que acompanharemos, suas relações e a tragédia que se anuncia, a segunda parte é a responsável pelo teste definitivo sobre o quanto nos envolvemos até ali e sobre até onde a mão pesada de Cameron com sua equipe se fez justificada. Todo o ato do navio sucumbindo após colidir com um iceberg toma cerca de uma hora e pouco de projeção, e com todo esse tempo em mãos, Cameron elabora sua ópera de desespero, lágrimas e o verdadeiro retrato da dimensão dos fatos, da solidariedade vs a necessidade de sobrevivência, da ganância vs o despreparo e excesso de auto-confiança do homem. “Nem Deus poderia afundar esse navio”, diz alguém à certa altura, e Cameron faz questão de manter esta linha de diálogo como uma ironia incômoda sobre a representação de poder que o Titanic dava aos seus responsáveis e como seu destino simbolizou a queda dos mesmos e como diversas vidas tiveram que pagar junto por isso. Cameron não explicita isso em diálogos, mas através de situações enquanto o navio naufraga que tornam impossível o público permanecer impassível diante do fato de que, sim, o destino do RMS Titanic poderia ter sido outro.

E mesmo na destruição do navio diante de nossos olhos, não é lá que encontramos a certeza para os posicionamentos de Cameron atrás das câmeras, mas apenas atestamos o quanto este é um cineasta de requinte, que atingiu aqui o seu ápice sobre o que saber exatamente o que fazer, como fazer e o que seria necessário para chegar até aquele resultado. Cameron já havia comprovado ser um hábil manipulador de efeitos especiais e digitais com os dois O Exterminador do Futuro ou mesmo seu Aliens, o Resgate, e mesmo depois de Titanic, o cinema evolui muito em possibilidades, probabilidades e avanço tecnológico. Mas lembrem-se que 20 anos acabaram de se passar, e mesmo numa análise minuciosa, é bastante difícil (arriscando dizer, impossível) encontrar um espetáculo visual como o proporcionado por Titanic. A magnitude de tudo é indescritível, seja pela destruição dos cenários enquanto a água gélida do atlântico destrói os aposentos e deforma o navio, as tomadas com um número incontável de figurantes correndo e lutando pela própria vida, os momentos lendários e marcantes como o casal de idosos abraçados na cama ou a orquestra de violinistas, ou a aguardada cena onde o navio se parte ao meio. Tudo é de arregalar os olhos e impressionar os sentidos. Uma tragédia complexa revivida quase que em tempo real.

Você é boba, Rose!

E ao envolver sua história de amor e tragédia dentro desta aura clássica shakesperiana, não havia como Cameron dispensar nomes em seu elenco que trouxessem a respiração e o abraço necessário para que seus personagens fossem pulsantes o suficiente para fisgar o público, ou então todos os clichês reunidos seriam um tiro no pé e sacrificariam o envolvimento. E quando olhamos para trás, nos perguntamos se ou Cameron realmente foi um sortudo, ou até mesmo para montar seu elenco o diretor tinha visão. Kate Winslet já vinha de uma notável indicação ao Oscar por Razão e Sensibilidade, e no papel da determinada Rose comprovou ao mundo como era uma atriz de nuances ricas, nuances essas que podem ser notadas com gosto nos conflitos internos de Rose que Winslet exemplifica através de expressões que variam entre o medo , o desespero (ela está sendo obrigada pela mãe a permanecer noiva de Cal) e a certeza do que seu coração quer. Em seu contraponto, a já falecida Gloria Stuart encarna Rose com mais de 100 anos de vida, e nos míseros minutos em que aparece para narrar sua história no navio, transmite uma verdade em seu rosto sobre os fatos como se ela realmente tivesse passado por tudo aquilo (e lamentavelmente, a atriz perdeu seu Oscar naquele ano para Kim Basinger em Los Angeles – Cidade Proibida). DiCaprio, instantaneamente cimentado como um símbolo juvenil (o ator tinha míseros 23 anos na época) pelo papel de Jack Dawson, toma muito bem a posição daquele rapaz juvenil, sem recursos próprios, mas esperançoso, apaixonado e de alma sensível, a receita perfeita para que seu rosto conquistasse corações. Billy Zane, que poderia ter recebido maiores atenções nas premiações daquele ano, dosa perfeitamente a vilania de Cal que, no fundo, não passa de mais um homem que não quer ser passado para trás pela figura feminina que lhe foi prometida. Kathy Bates cativa como a lendária Molly Brown (apesar da personagem não receber para si um desfecho digno, algo confessado pela própria atriz anos depois), Frances Fisher estampa em seu rosto o desespero em perder todo o seu dinheiro caso Rose não firme seu compromisso com Cal, e entre todos os outros nomes, Bill Paxton e Victor Garber comovem com seus conflitos pessoais envolvendo diretamente o navio.

You’re here, there’s nothing I fear
And I know that my heart will go on
We’ll stay forever this way
You are safe in my heart and my heart will go on and on.

Junto à explosão do filme nos cinemas, a música-tema de Celine Dion para o filme, My Heart Will Go On, inundou as rádios durante um período impressionante, quebrando recordes e acumulando para si diversas paródias e referências em outros veículos ao longo dos anos. Muitos torcem o nariz para a canção devido a sua aura grudenta e pela intensidade com que ainda martela nos ouvidos, mas é uma música enérgica e contagiante, na qual o próprio compositor James Horner, já falecido, aproveita suas nuances, acordes e evocações para compor a marcante trilha sonora responsável por tantas lágrimas. E detalhe: Cameron não era a favor de nenhuma canção dentro do filme, então Horner compôs a música em segredo junto com Will Jennings para que Celine pudesse gravá-la. Cameron só concordou em utilizá-la após ouvir a música várias vezes e chegar a conclusão de que uma música com potencial sucesso pudesse acalmar os ânimos dos executivos do estúdio. O sucesso nos prova de que My Heart Will Go On é indispensável para a popularidade de Titanic.

No aniversário de 100 anos do naufrágio, o filme foi relançado nos cinemas numa versão convertida para o 3D, e este ano novamente ganhou uma exibição única pelo vigésimo aniversário da obra de Cameron. Mas a memória do fenômeno sempre estará lá, no longínquo ano de 1997, quando um ambicioso visionário deu suor, (muita) água, dinheiro, dedicação e paixão para conceber um dos espetáculos mais envolventes já proporcionados pelo cinema. Titanic é único.

Todo filme muda o mundo, ainda que seja pouco. – James Cameron

Titanic – EUA, 1997
Roteiro: James Cameron
Direção: James Cameron
Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Billy Zane, Kathy Bates, Bill Paxton, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bernard Hill, Victor Garber, Jonathan Hyde, Suzy Amis, Lewis Abernathy, Ioan Gruffudd, Nicholas Cascone, David Nucci, Jason Barry, Ewan Stewart
Duração: 194 minutos.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.