Crítica | Titãs – 1X04: Doom Patrol

Contém spoilers.

O destino é um verdadeiro pregador de peças. Rachel (Teagen Croft), correndo pela mata, fugindo da sociedade após ocasionar uma explosão em St. Paul’s, concluindo o episódio passado de Titãs, encontra, entre árvores e árvores, surpreendentemente, Gar (Ryan Potter) – melhor falando, o personagem em seu estado felino -, que conhecera pouco tempo antes. Doom Patrol é um capítulo que, em muitos aspectos, trabalha o destino diretamente, criando, consequentemente, justificativas competentes para existências de coincidências narrativas, a exemplo de argumentação sobre pontuações coesas entre si. O destino, no final das contas, guiou os personagens até aquela situação, aparentemente uma decisão maior, independente deles. Quando entramos, mais para frente, no quarto do garoto, enxergamos um pôster de Abbott e Costello Contra Frankenstein, comédia de 1948, notação preparando o terreno do espectador para as criaturas que a protagonista do episódio encontrará, não muito diferentes – extremamente parecidas, em um caso específico – dos monstros clássicos do horror britânico, transportados para o cinema norte-americano e transformados em verdadeiros ícones cinematográficos. O público conhecerá, enfim, a curiosa e interessantíssima Patrulha do Destino.

Como pedaço de um conjunto maior, Doom Patrol necessitava, contudo, de uma carga não-existente consigo, inicialmente, para carregar completamente os espectadores a essa premissa de descobertas, de encontro ao fantástico. Os equívocos que existem são datados, portanto, de eventos anteriores, ainda impactando negativamente, mesmo que pouco, o resultado dessa incursão. O entendimento da série  – apesar de pontuais tentativas certeiras – em trivialidades, aparentemente supérfluas, mas realmente relevantes para uma construção maior de relacionamentos, ainda mais aqueles pautados em tempos de tela reduzidos, era essencial para, aqui, a química entre os protagonistas, como amigos, florescer mais organicamente. Anteriormente, por que não mostrá-los jogando alguma coisa no fliperama? Um diálogo era o suficiente para os roteiristas, aparentemente. O envolvimento dos dois personagens, sendo assim, acontece por meio de uma estrutura simples, demasiadamente segmentada – ambos se conhecem, ambos se cruzam na mata – para que, em resposta ao que veio antes, esse encontro abrupto, sem justificativa aparente, fosse encarado com maior naturalidade, senão obrigação programada pelo enredo. A computação gráfica, em questão do tigre, também não convence.

John Fawcett, em contrapartida, controla, com mais cuidado e apego, as interações entre os personagens – muitos inéditos são apresentados -, se saindo melhor do que os responsáveis pelas direções dos episódios anteriores. O roteiro, de certo, apresenta algumas pieguices – como a cena do cervo -, no entanto, uma maior naturalidade é percebida justamente quando as criaturas que moram junto a Mutano, a Patrulha do Destino, são finalmente introduzidas, originando, ao público, uma ambientação completamente diferente, em tonalidade, das vistas anteriormente, uma mistura de sensações que dão margem ao melhor episódio da série até o momento – e ansiedade pelo spin-off prometido. O cenário é uma mansão chamativa, em vários e inúmeros aspectos, minimamente curiosos, combinando vertentes temporais díspares, da atualidade tecnológica, ainda que quase retro-futurista, ao mistério escondido atrás de um óculos escuro, conjugado ao passado de uma artista perdida com o tempo. A trilha sonora, paralelamente, também absorve o espírito, passando pelo rock’n roll e encontrando o jazz, dos anos 50 aos 90, uma mistura deliciosa de gerações. Os personagens são seres destinados à salvação, resgatados quando à beira das suas respectivas destruições.

Uma segunda vertente, enquanto Rachel e Garfield enfrentam a apresentação do Chief (Bruno Bichir), é aberta, por fim, acerca da procura da jovem, drama menos interessante para o âmbito maior – porém, percebam como o diálogo entre Estelar (Anna Diop) e Robin (Brenton Thwaites), dentro do carro, soa mais natural do que os de costume, reiterando a capacidade dessa direção em explorar trocas orgânicas entre certos personagens. Grayson, ademais, na conclusão do capítulo, transforma subitamente os seus pensamentos mais desesperançados, apresentados e impulsionados anteriormente, tornando-os conciliadores. Durante Origins, por exemplo, o justiceiro disse à Rachel que a garota enfrentaria sozinha o confronto contra os males que estavam a atingindo. “Você não precisa enfrentar isso sozinha”, comenta agora, após reencontrá-la. A série, obviamente, se esqueceu de caminhar de uma pontuação para outra, sem ser suficiente o único discurso direcionado ao personagem, promovido por Kory, que afirmava que o garoto “tem problemas”. Qual o destino dos nossos personagens principais, portanto? A canção “We’ll Meet Again” encerra o episódio ironicamente. O depois certamente permitirá esses seres estranhos, de um grupo e de outro, se encontrarem novamente.

Titãs – 01X04: Doom Patrol – EUA, 2 de novembro de 2018
Criação: Akiva Goldsman, Geoff Johns, Greg Berlanti
Direção: John Fawcett
Roteiro: Geoff Johns
Elenco: Brenton Thwaites, Anna Diop, Teagan Croft, Ryan Potter, April Bowlby, Brendan Fraser, Jake Michaels, Matt Bomer, Dwain Murphy, Bruno Bichir
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.