Crítica | Titus

estrelas 4

Titus Andronicus, considerada a primeira tragédia escrita por William Shakespeare e que serviu de base para o fiel e bem produzido filme de Julie Taymor, seu début como diretora, serve como trampolim para, além de fazer a crítica em si, comentar um pouco sobre a tão falada teoria que Shakespeare não era tudo isso que diziam. Como muitos sabem, há quem ache que o bardo inglês não foi o autor das mais importantes obras da língua inglesa, o que, claro, dá uma boa conversa de bar, mas não tem mais sustentação histórica. O que quase ninguém sabe, porém, é que essa teoria é muito antiga e, além disso, que, em alguns casos, suspeita-se efetivamente de uma co-autoria, isso sim com suficiente base histórica para gerar acalentadas discussões.

Aqueles que só quiserem ler a crítica pulem para o capítulo seguinte. Caso contrário, acompanhe-me em uma breve explicação sobre a controvérsia da autoria das obras de Shakespeare.

É de Shakespeare ou não é de Shakespeare? Eis a questão.

Titus Andronicus, conforme os estudos apontam, foi escrita entre 1588 e 1593. Trata-se de uma peça passada durante o final do Império Romano, mas inteiramente ficcional, sem personagens históricos.

Mesmo sem ser uma peça galgada na realidade como Ricardo III, Shakespeare a situou durante o comando de Theodosius, o que necessariamente a coloca entre 379 e 395 d.C. No entanto, há anacronismos e essas flutuações levam muitos pesquisadores a concluir o que afirmei logo no parágrafo anterior: a peça seria passada mais para o final do Império Romano, talvez durante o governo de Justiniano I, o que a colocaria entre os anos 527 e 565 d.C. Os especialistas reputam que somente assim seria possível escutar o imperador sendo chamado genericamente de “César”.

Mas há ainda outras questões históricas que impedem dizer com tanta certeza assim em que época se passa a tragédia, já que ela se inicia com a dominação romana dos Godos (o povo bárbaro que antecedeu os germânicos), o que sinaliza o auge de Roma, mas ela termina com a invasão dos Godos  a Roma, o que significa o fim do Império Romano.

Essa, por si só, é uma discussão interminável, que não será travada aqui. O que fica é que há incongruências temporais pouco características de Shakespeare ao longo do texto, características essas, aliás, que seriam exploradas de maneira inusitada por Julie Taymor no filme (mais sobre isso no próximo capítulo).

Apesar de ter sido incluída no primeiro fólio de obras de Shakespeare, a peça, como era comum na época, era apócrifa. Mas o problema maior é sua qualidade perto dos trabalhos anteriores e posteriores do bardo e sua estrutura muito próxima a de outra peças comuns à época, além da questão temporal aludida acima.

O teatro elisabetano era composto de gêneros de peças e um dos mais comuns e adorados era o de “vingança”. Atos cruéis eram seguidos de reações tão ou mais cruéis pelas vítimas ou seus parentes. Titus Andronicus é, do começo ao fim, uma peça que trata da vingança cega, sem perder muito tempo. Titus mata o primogênito de Tamora, a rainha dos Godos que, por sua vez, põe em movimento uma terrível vingança contra todos os membros da família Andronicus, o que, mais uma vez, desencadeia outra reação. Dizem os especialistas que o texto de Titus Andronicus é muito mais uma forma de emular o que se fazia à época do que um trabalho original, na linha do que Shakespeare faria.

E esses especialistas remontavam já ao ano de 1678, comandados pela crítica de Edward Ravenscroft, dramaturgo da época que considerava o teor gráfico da peça não característico do autor. E, realmente, Titus Andronicus é uma peça violenta, que não esconde a barbárie e não simula assassinatos, estupros e mutilações, algo pouco comum com tamanha exposição no legado de Shakespeare.

Durante o século XVIII, era uma quase unanimidade considerar que Shakespeare não havia escrito essa e outras peças. Havia um verdadeiro movimento “anti-shakespeareano” que serviu de base para as lendas urbanas que hoje ainda ouvimos sobre o dramaturgo.

No entanto, em relação a Titus Andronicus, o fato é que nenhum estudioso sério atual se debruça sobre a hipótese de ele não ter escrito a peça. O que se pesquisa é que ele teria escrito em regime de co-autoria com George Peele, autor que foi fundamental para o desenvolvimento da dramaturgia britânica.

Não se sabe, porém, exatamente como foi essa co-autoria. Se efetivamente a peça foi escrita a quatro mãos ou se houve uma participação maior de um ou de outro. Alguns estudiosos mais recentes consideram até que quem escreveu efetivamente foi Peele, com Shakespeare só se encarregando de revisões. Outros, por sua vez, ainda insistem na teoria da autoria única por parte de Shakespeare.

Como o leitor pode ver, Shakespeare, seja com suas peças ou com sua própria existência, criou material para discussões e debates eternos, todos eles edificantes. O que é certo é que seu legado (e eventualmente de seus co-autores) é um dos tesouros da humanidade.

Finalmente, o filme!

Titus, filme que marca a primeira direção de Julie Taymor que, depois, viria a criar Frida, Across de Universe e outra adaptação de Shakespeare, A Tempestade, é uma obra extremamente curiosa, daquelas que prendem a atenção pelo inusitado, pela ousadia. Esperando encontrar uma adaptação de época ou alguma atualização, o espectador é “enganado”, com Taymor indo pelo caminho do meio, mesclando épocas.

Tudo começa com um menino (Osheen Jones) brincando em uma mesa de cozinha com seus bonecos. A ambientação é de algo nos anos 30 ou 40. Uma bomba explode do lado de fora e ele é resgatado por um homem que o carrega até o porão. Quando o menino passa pela porta, ele está sozinho em um anfiteatro romano, tornando-se, a partir daí, observador da história como personagem (o neto de Titus, Lucius).

Em seguida, vemos Titus Andronicus (Anthony Hopkins), o general romano que retorna vitorioso da guerra contra os Godos (bárbaros que dariam origem ao povo germânico). Atrás dele vem seu exército, todos com armaduras enlameadas e fazendo uma coreografia que lembra robôs de filmes antigos andando. Mas a imponência da marcha imediatamente prende o espectador à tela, somente para Taymor sacudir todo mundo novamente com a entrada de motos e tanques motorizados. A plasticidade da sequência, a coreografia, o design da produção e a trilha sonora, de alguma maneira inexplicável, faz toda a ambientação funcionar e o anacronismo acaba ganhando uma uniformidade muito interessante, quase orgânica.

Uma das possíveis explicações para essa escolha estilística de Taymor (que montara peça com a mesma estrutura antes) é o anascronismo existente dentro do próprio trabalho de Shakespeare. Taymor sabe explorar o debate que existe até hoje sobre o exato período em que em tese a ação da peça se passaria, para fundir linhas temporais sem muito esforço, com um belo resultado.

Essa chocante introdução é seguida pela descoberta de que, para ganhar a guerra, Titus acabou perdendo 21 filhos em batalha e seus corpos são todos trazidos para o jazigo da família. Para acalmar os deuses, o general, então, mata o filho mais velho da Rainha Tamora (Jessica Lange), dos Godos, para oferecer suas entranhas para o fogo. Esse é o primeiro erro de Titus.

Logo em seguida, em outra cena de um anacronismo brilhante, em que vemos o senado de Roma como um prédio moderno com janelas no formato dos arcos dos anfiteatros romanos, aprendemos que o imperador morreu e que seus dois filhos, Saturninus (Alan Cumming) e Bassianus (James Frain) disputam o trono. Ato contínuo, o presidente do senado e irmão de Titus, Marcus (Colm Feore) anuncia que Titus, que dedicara 40 anos a serviço de Roma, seria o novo imperador. Mas Titus prontamente nega a honra e referenda a campanha do afetado Saturninus, que prontamente toma a coroa de louros. Esse é o segundo erro de Titus.

Lavinia (Laura Fraser), filha de Titus e noiva de Bassianus, é alvo da mira de Saturninus, que exige se casar com ela, com que Titus concorda, somente para ver seus filhos remanescentes se voltarem contra ele. Esse é o terceiro erro de Titus.

Seus três erros desencadeiam a vingança de Tamora, que é absolutamente devastadora e desproporcional. Vemos a vida de Titus ser retirada completamente dele, pedaço a pedaço, atrocidade atrás de atrocidade.

Mas mesmo nos momentos mais horríveis, Taymor, com a ajuda do excelente trabalho de design de produção de Dante Ferretti e da fotografia de Luciano Tovoli, além da trilha de Elliot Goldenthal, cria imagens hipnóticas. Vejam por exemplo o momento da revelação do que fizeram com Lavinia. O horror é tamanho que queremos fechar os olhos, virar o rosto, mas o enquadramento, a música e todos os demais elementos nos impedem. Ficamos literalmente apaixonados pelos detalhes do que vemos a nossa frente.

Apesar de ser muito teatral, Titus não se vale do recurso comum em filmes baseados em peças de Shakespeare que é a “conversa com a câmera”. Pelo menos não a todo o instante. O personagem que mais faz isso, conseguindo, porém, passar naturalidade, é Aaron (Harry Lennix) o mouro amante de Tamora. Ele, em determinado momento da narrativa, passa a ser peça chave, que efetivamente movimenta a vingança da rainha. E, ao mesmo tempo, ele passa a nos narrar os acontecimentos sob sua ótica maléfica, em uma absoluta antítese do outro mouro famoso do bardo inglês, o infeliz e enganado Othello.

O cadenciamento do trabalho de Taymor sofre com a montagem a partir do segundo ato, logo depois do final da vingança de Tamora. O reagrupamento dos pensamentos do que sobra da família Andronicus demora demais e isso quebra o ritmo da fita, que até então vinha bem com festas ao som de jazz, ações pesadas, mas sempre constantes e diálogos originais devidamente cortados para maior fluidez. Quando Titus está em sua casa nos arredores de Roma e vagarosamente monta uma estratégia para virar a mesa, Taymor acaba deixando passar muito tempo, o que acaba tornando a projeção desnecessariamente longa.

Titus, apesar da duração exagerada, não desaponta e consegue prender o espectador com sua integração entre o velho e o novo, o clássico e o moderno. Quando passamos a aceitar metralhadoras ao lado de gládios romanos e motocicletas ao lado de quadrigas, percebemos que toda a produção foi bem sucedida.

Titus (Idem, Itália/EUA/Reino Unido)
Direção: Julie Taymor
Roteiro: Julie Taymor, William Shakespeare (peça)
Elenco: Anthony Hopkins, Jessica Lange,  Osheen Jones, Raz Degan, Jonathan Rhys Meyers, Matthew Rhys, Harry Lennix, Angus Macfadyen, Kenny Doughty, Alan Cumming, James Frain, Colm Feore, Laura Fraser
Duração: 162 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.