Crítica | Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luis Borges

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estrelas 5,0

Originalmente publicado na revista argentina Sur, em maio de 1940, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius faria de Jorge Luis Borges um dos precursores do conto ensaístico e filosófico, uma obra que se propõe a escavar a biblioteca em busca de palavras, teorias e disciplinas do conhecimento humano, construindo um labirinto de ideias, uma das figuras formais e simbólicas mais queridas e utilizadas por Borges em seus escritos.

Como não estamos na seara de um autor fácil, e que é mais citado do que lido, é preciso ter cuidado para não se distrair, na mesma medida em que é preciso ter muita paciência para seguir a leitura após as explosões iniciais de neurônios que a obra causa no leitor. Uma informação de utilidade pública é necessária: se você está adentrando ao Universo de Borges, não comece por este conto. Mas se você já começou, tenha calma. O autor é mesmo “muito cerebral” e sua erudição dá essa profunda sensação de megalomania, onde real e fictício se misturam e onde você não sabe se o uso de personalidades históricas aparecem em experiências de fato vividas com e por Borges ou se absolutamente tudo é inventado. E acreditem, no término, essa é a graça da coisa toda.

O primeiro ponto de exclamação vem quando o autor se coloca como personagem, dialogando com o amigo e também escritor Adolfo Bioy Casares sobre a escrita de um romance. Sabemos que Borges e Casares são pessoas reais, portanto, o tom de metalinguagem é plenamente orgânico e nos chama a atenção, pois parece um relato pitoresco de dois escritores amigos falando sobre um possível livro-labirinto. A ficção passa a servir de plataforma para essa introdução quando Bioy cita uma frase (“Os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número de homens“) e diz que ela estava registrada na The Anglo-American Cyclopaedia no verbete sobre um país chamado Uqbar.

O leitor passa a servir de pesquisador e bibliotecário desse ponto em diante, porque Borges e Bioy tentam encontrar, sem sucesso, esse tal país Uqbar, que acaba surgindo em um outro exemplar, um volume aparentemente único, acrescido de 4 páginas, da mesma The Anglo-American Cyclopaedia, cuja única diferença para o volume anteriormente consultado é a presença do tal verbete. A construção da verdade, a investigação e crítica literária, o processo de ordenação do conhecimento… tudo isso passa por um sem-número de métodos, ao qual adiciona-se camadas de realidades criadas dentro do conto (mise en abyme) à medida que as descrições enciclopédicas nos são conhecidas. Quando chegamos na literatura de Uqbar, temos a citação de um planeta fictício, presente em uma série de obras desse país, o planeta Tlön. E mais um outro Universo de possibilidades e investigação é aberto nesse momento.

Esse manto de ficção especulativa passa a dominar o restante da narrativa, que é temporariamente pausada para um “relato pessoal” de Borges sobre um certo engenheiro ferroviário, amigo de seu pai, de quem “herda” um dos volumes da Primeira Enciclopédia de Tlön, e a partir do qual haverá todo um desprendimento da nossa realidade para uma visita guiada pelo autor através da reprodução dos verbetes sobre o planeta, evidenciando o idealismo de George Berkeley — em Tlön as coisas não necessariamente existiam, elas eram imaginadas ou precisavam ser utilizadas para poderem existir –, abrindo espaço para uma belíssima construção estética de um umbral salvo por um mendigo que nele se recostava, ou das ruínas de um anfiteatro, salvas por pássaros e cavalos que nelas pousavam ou que nelas pastavam e caminhavam.

Até que ponto a linguagem influencia o pensamento e em que medida esse pensamento cria coisas? Não seria a História, a Sociologia, a Filosofia e o registro dessas ciências através de uma literatura acadêmica, apenas uma reprodução desse comportamento de “pensar e fazer existir“? Nessa visão, não estariam os humanos degraus abaixo dos Tlönianos, tendo que produzir aquilo que pensam? E que ganhos uma e outra espécie têm a partir desse método, se considerarmos o produto finalizado?

A verdadeira intenção de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius não se revela de imediato. O autor nos propõe uma corrida, um jogo de percepções que só se resolve — na medida do possível — no pós-escrito (fictício) de 1947, quando o autor, sete anos depois da descoberta de Uqbar, vê a farsa da Sociedade Secreta Orbis Tertius (que em latim significa ‘Terceiro Mundo’) ganhar a mídia, causar o maior alvoroço na sociedade e rapidamente dominar a produção e divulgação do conhecimento humano, pois se trata da ficção de um lugar ordenado (o autor chega a citar o nazismo como elemento de “amor pela ordem” que faz o homem se agarrar a qualquer coisa que prometa isso) e em tempos de caos, a melhor coisa a se fazer é substituir a situação atual por uma farsa lógica, não mudar o que está errado. Percebem a ironia ácida do autor?

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius fala sobre o poder da linguagem e sua capacidade de alterar o mundo em que vivemos. O autor sacaneia a megalomania de criação estadunidense (para quê criar um país se podemos criar um planeta?), questiona ou brinca com sistemas matemáticos e literários, pensa sobre a maleabilidade do conhecimento humano diante do tempo, e nos coloca para refletir sobre a possibilidade de as mentiras produzidas por diversão de “seletos escolares” tornarem-se A VERDADE de toda uma sociedade.

Mudando pontos de vista, mostrando mundos realistas, imaginários e naturalistas,  a obra é uma difícil jornada pela produção, desconstrução e supra-reconstrução através da Palavra. Seu impacto e importância são tão grandes que inspiraram produções de muitos outros escritores e artistas, seja como modelo para a criação de algo parecido ou citações, dentre as quais podemos destacar a cidade de Orqwith em Patrulha do Destino, de Grant Morrison; a presença de Tlön em Vingadores Secretos, na fase de Ales Kot e Michael Walsh; e a colocação de Uqbar como um planeta no game Mass Effect. Para um conto labiríntico e com um grande número de discussões literárias, o alcance de seu conteúdo fictício (ou semi-real?) é surpreendente. Mais uma prova de que o ideal de Tlön não está assim tão distante da nossa realidade.

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius (Argentina, 1940)
Autor: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius
Publicações: Revista Sur (original). No Brasil, saiu em uma coletânea da Editora Gobo em 1998 e pela Companhia das Letras em 2007.
176 páginas (coletânea da Cia. das Letras)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.