Crítica | To Be Takei

estrelas 3,5

George Takei é um homem no mínimo fascinante. Apesar de ter feitos vários papéis no cinema e na televisão antes de ser escalado como o tenente Hikaru Sulu (depois capitão da nave Excelsior), em Jornada nas Estrelas, é por esse papel que ele até hoje é lembrado. Mesmo sem outros papéis de destaque depois de Sulu (nas três temporadas da série original, na série animada, em um episódio de Voyager e em seis longas da franquia), ele conseguiu se desvencilhar dessa memória única, desse estigma. George Takei não é Hikaru Sulu e sim George Takei, o autor, o ativista de direitos humanos e, claro, o sensei da internet, com 8,3 milhões de seguidores em sua ativíssima e divertidíssima fanpage do Facebook, mesmo considerando que Takei está no alto de seus bem vividos 77 anos.

Foi com esse conhecimento do ator, autor e produtor que procurei assistir To Be Takei, documentário de Jennifer M. Kroot que, como o título diz, tenta nos dar um gostinho do que é ser Takei. Kroot faz um misto de documentário em homenagem rasgada a seu ídolo, de pinceladas sobre sua vida e de publicidade para o musical Allegiance, que tem George Takei como mola propulsora e ator. O resultado é um balaio de gatos simpático, mas que não mergulha de verdade na vida de Takei, pelo menos não da maneira que esperava ou que o título dá a entender.

Não há nada errado com um documentário que tem como objetivo idealizar o biografado, mostrando, apenas, digamos, seu lado bom, correto e intocável. No entanto, o grande pecado de To Be Takei é funcionar em grande parte como publicidade de Allegiance, focando talvez tempo demais no objeto do musical: a segregação dos sino-americanos depois do ataque à Pearl Harbor e seu envio para prisões especiais, chamadas eufemisticamente de “Centros de Realocação”. Vejam bem, não quero dar a entender que esse não tenha sido um evento traumático para aqueles que o viveram, mas o documentário tem, pelo menos em tese, uma proposta mais ampla e, ao focar muito de sua duração nessa questão, quando Takei era uma criança de oito anos, a obra perde um pouco de seu impacto, especialmente ao abordar especificamente o musical produzido pelo biografado. Em determinados momentos, parece algo feito para chamar atenção para Allegiance e não algo que realmente mereça o título “Ser Takei” (em tradução livre).

Mas, se pudermos esquecer esse aspecto, há coisa boa para extrairmos do trabalho de Kroot. A primeira delas é a honestidade na retratação do casamento de George com Brad. Personalidades quase opostas, a interação entre os dois é divertida e franca, em uma montagem que não tenta esconder eventuais pequenos problemas maritais do dia-a-dia. É por vezes hilário ver as feições contrariadas de Brad Takei (ele assumiu o sobrenome de George) quando seu marido simplesmente ignora sugestões ou faz gozações por vezes beirando a grosseria. Da mesma maneira, a organização e o senso de seriedade de Brad se choca fortemente com o tom jocoso – às vezes até beirando o “ríspido” – de George durante, por exemplo, uma das várias convenções em que ele participa vendendo autógrafos e fotografias. Esses são os momentos que fazem jus ao título do documentário: coisas frugais do dia-a-dia de um casal célebre, como uma ida ao barbeiro ou à eventos de uma agenda abarrotada. E ainda somos brindados com um pouco – talvez muito pouco – sobre o passado dos dois, mesmo antes de se conhecerem e um momento particularmente íntimo em que George e Brad viajam até as montanhas para jogar as cinzas da mãe de Brad ao vento, que ganha um tom lírico, com pitadas de comicidade involuntária.

Há participações especiais também, particularmente de Howard Stern em seu famoso programa de rádio/televisão em que aprendemos como Stern foi importante ao longo da carreira de Takei, incluindo sua decisão de assumir sua homossexualidade. Vemos Nichelle Nichols, a Uhura de Jornada nas Estrelas e, claro, Leonard Nimoy, o eterno Spock, também dando seus depoimentos sobre o amigo. A rivalidade clássica entre Takei e William Shatner não é deixada de lado, ainda que ela seja manipulada de maneira talvez injusta com Shatner – injusta, mas não completamente indevida, devo salientar.

No final das contas, acho que teria ficado mais feliz com um olhar mais constante sobre a vida ativista de George Takei. Não que o documentário não aborde esse ponto. Ele aborda, mas são passagens rápidas em que aprendemos sobre a relutância de Takei em primeiro assumir sua homossexualidade e, depois, sua luta ferrenha pelos direitos iguais independente da orientação sexual, assunto que me parece ser muito mais premente do que as injustiças cometidas pelo governo americano aos sino-japoneses. Mas essa pode ser uma interpretação míope minha, confesso, em razão do momento em que vivemos atualmente, com muito preconceito à flor da pele.

De toda forma, o resultado geral de To Be Takei é um documentário muito agradável, bem dirigido, com a câmera apontada para a intimidade de George e de Brad, que não se furtam de serem eles mesmo a todo momento. Há clara honestidade nos sentimentos tanto do biografado quanto da biografista e isso transparece a cada fotograma, tornando a experiência de assistir ao filme deliciosa, apesar dos incômodos momentos de “publicidade de Allegiance“.

Mas vou confessar: se o objetivo era chamar atenção para o musical, Kroot consegiu. Agora eu quero assistí-lo!

To Be Takei (EUA, 2014)
Direção: Jennifer M. Kroot
Roteiro: Jennifer M. Kroot
Com: George Takei, Brad Takei, Walter Koenig, William Shatner, John Cho, Telly Leung, Nichelle Nichols, Leonard Nimoy, Howard Stern
Duração: 94 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.