Crítica | “To Pimp a Butterfly” – Kendrick Lamar

estrelas 5,0

To Pimp a Butterfly (2015), terceiro álbum de estúdio do californiano Kendrick Lamar, já entrou para a história do hip hop como um dos mais inventivos, pessoais e exigentes discos do gênero. Mas não é só isso. Se olharmos para a obra em termos puramente musicais, veremos que não falamos só de variações do hip hop ou de engajamento político do rap, mas de um mergulho profundo nas raízes dessa árvore musical. É aí que entram elementos de jazz e funk — e não estou falando de pequenos experimentos não: To Pimp a Butterfly é, também, um álbum de [neo]jazz e funk –, além de R&B e mutações da disco music e do soul, tudo em um único lugar, cimentado com letras que figuram uma realidade político-social que transcende a forma mais arguta de fazer hip hiop.

Depois do ótimo Section.80 (2011) e do excelente Good Kid, M.A.A.D City (2012), Lamar estava diante de uma espada de dois gumes. De um lado, a tentação do apelo comercial que já tinha lhe rendido canções como Money Trees e Bitch, Don’t Kill My Vibe. De outro, a necessidade de expor algumas realidades através da riqueza da black music em suas diversas variantes, sem preocupação com refrões que grudam na cabeça, melodias de tendência romântica e concessões artísticas. Em partes, o rapper já havia enfrentado esse problema no disco de 2012, mas ali ainda havia o receio de arriscar um pulo total. Esse risco, por sua vez, é assumido inteiramente em To Pimp a Butterfly, que é uma obra complexa, extremamente rica de referências e organizada de forma a narrar situações e propor ações para o racismo, criminalidade, pobreza, escravidão e, ainda mais interessante, ao papel do próprio Lamar como “voz que clama” por direitos humanos e expõe a situação daqueles que são vistos como alvo social para todo tipo de descaso.

Ao lado de sua visão particular sobre a vida dos negros, dentre diversos outros elementos sociais que vão da abertura do disco com Wesley’s Theory (referência muda ao problema fiscal que rendeu a prisão do ator Wesley Snipes) até a fase mais depressiva do eu lírico do disco, centrada na genial Institutionalized (quem em dado momento da música vira institutional lies) e nas sequências crônicas These Walls, U, Alright e For Sale; temos também a visão do artista para o seu próprio crescimento.

Nesse sentido, vemos três partes de uma mesma ideia: o ambiente natal de Section.80; a infância, adolescência e juventude em Good Kid, M.A.A.D City, e a vida adulta em To Pimp a Butterfly. Canções como Complexion (A Zulu Love), You Ain’t Gotta Lie (Momma Said) e i demonstram a reformulação do próprio eu do cantor, amadurecendo, se construindo, libertando-se como homem, como cidadão politizado, como artista. É a reafirmação do título do álbum, a mostra simbólica do porquê esse título é melhor do que o pretendido inicialmente To Pimp a Caterpillar e uma forma de concluir essa jornada em um patamar lírico, nostálgico e perfeitamente métrico, características essas que marcam Mortal Man, uma “conversa” de Lamar com Tupac Shakur, cujas falas foram tiradas de uma entrevista do rapper em 1994.

Em certa medida, To Pimp a Butterfly me lembrou o também genial You’re Dead! (2014), do Flying Lotus (um dos produtores desse disco), especialmente pela qualidade de produção musical e coragem de experimentar coisas novas e meio malucas. Para tanto, Kendrick Lamar trabalhou arduamente durante três anos, gravando em 5 estúdios diferentes, em 4 Estados (Califórnia, Missouri, Nova York e Washington) e com um time dos sonhos na produção das 16 músicas do disco; além, claro, das icônicas participações especiais.

Agora vejam vocês que a qualidade sonora de To Pimp a Butterfly deve-se também ao esforço técnico de pessoas como o icônico Dr. Dre (produtor de artistas como Tupac, Eminem e Jay-Z), Flying Lotus (qualquer semelhança de estilo não é mera coincidência), Terrace Martin (que gerou toda aquela pegada jazz divertida e desbocada de For Free? – Interlude), Pharrell Williams (que Acerta com A maiúsculo no cool-jazz discursivo de u), Knxwledge (na excelente Momma) e Sounwave e Thundercat em diversas canções do álbum, que variam de gênero e apuro musical. Veja abaixo o clipe da excelente e dançante King Kunta, (produzida por Sounwave e Terrace Martin) e preste atenção como a cada trecho um novo instrumento ou batida é acrescentado. A canção torna-se algo como uma orquestração dinâmica que desafia a repetição, como o Bolero, de Maurice Ravel, onde novos instrumentos surgem aos poucos, são silenciados em dado momento, passam por quebras rítmicas e terminam numa variação oposta ao modelo melódico que se iniciou.

Com um time de produção desses, não é de se espantar que To Pimp a Butterfly supere facilmente discos icônicos do gênero nesta primeira metade da década, de My Beautiful Dark Twisted Fantasy (Kanye West, 2010) a Run the Jewels 2 (Run the Jewels, 2014). E isso acontece porque Lamar soube balancear coisas muito particulares como a religiosidade, por exemplo, até sintomas históricos que dizem respeito a toda a comunidade negra — e é importante dizer que este álbum é NEGRO com todas as letras –, questões resumidas de forma simbólica e provocante na polêmica capa do disco, com um juiz branco de olhos marcados com um “X” no chão, em volta do qual festejam crianças, homens e mulheres negras em frente à Casa Branca.

Não obstante, ainda é possível ver diferenças de composição e arranjos com direito a frases musicais de sopros, guitarras e contrabaixos quase sinfônicos entre as primeiras seis canções do disco, com uma progressiva densidade que chega entre Alright e Momma e ganha ares de revolução ou utopia mais pesada ou mais intensa entre Hood Politics e Mortal Man. Claro que nestas “três fases” estão presentes alguns pensamentos existenciais, uma série de quesitos morais e éticos e um pouco de abstração mesclada à sociedade à política, mas todas elas podem ser vistas como um único bloco, narrando a história de um artista dentro de seu meio étnico.

E esse meio não é fictício. É o mesmo meio que faz o rapper criar King Kunta baseado em Kunta Kinte, personagem do livro Raízes: A Saga de uma Família Americana; trazer à tona filmes como A Cor Púrpura12 Anos de Escravidão; citar um grupo como os Panteras Negras ou personalidades como Michael Jackson, Michael Jordan, Nelson Mandela, Malcolm X, Martin Luther King, Marcus Garvey, Tupac, ou ainda, um caso polêmico nos Estados Unidos como o de Trayvon Martin.

O diálogo com a velha escola, as presenças especiais de Snoop Dogg, Bilal, George Clinton, Rapsody, James Fauntleroy, Ronald Isley e Thundercat, a apurada produção musical com todas as mudanças deliciosas que ouvimos especialmente em King Kunta e How Much a Dollar Cost… tudo isso nos faz perceber a ideia de engajamento político e artístico por trás do álbum e da postura de Kendrick Lamar em To Pimp a Butterfly. Um disco que veio para fazer história. Literalmente.

Aumenta!: I
Diminui!: —
Minha canção favorita do álbum: The Blacker the Berry

To Pimp a Butterfly
Artista: Kendrick Lamar
País: Estados Unidos
Lançamento: 15 de março de 2015
Gravadora: Top Dawg, Aftermath, Interscope
Estilo: Hip Hop, Jazz Rap, Abstract Hip Hop, Hardcore Hip Hop, Conscious Hip Hop, Funk

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.