Crítica | Tô Ryca

estrelas 2,5

A suposta ascensão das classes populares nas produções culturais dos últimos anos é um fenômeno a ser analisado detidamente por alguém munido de estratégias reflexivas sociológicas. Novelas que abordam as “empreguetes”, filmes que retratam, com muita caricatura e tom burlesco, a ascensão de pessoas pobres ao mundo dos ricos, tais como Vai Que Cola e Um Suburbano Sortudo. A “pegada” é tocar neste público e fazê-lo sentir-se inserido de alguma forma numa cultura que geralmente o apresenta como sendo sempre “o outro”.

Com roteiro assinado por Fil Braz, o mesmo do também “divertido” Minha Mãe é Uma Peça, Tô Ryca foca nas chamadas “classes” C e D para fazer rir. No filme, Selminha (Samantha Schmutz) é uma frentista que recebe uma proposta inusitada que pode mudar a sua vida. Um tio que está à beira da morte prometeu-lhe uma herança milionária, mas com uma condição. Para deixar a pobreza e adentrar ao reino dos ricos, ela precisará vencer um desafio.

De acordo com as regras estabelecidas, a moça precisa gastar R$30 milhões em 30 dias, sem acumular absolutamente nada e nem mencionar o desafio para ninguém. Para conseguir colocar esta grana no “bolso”, Selminha vai ter de abrir mão de uma série de coisas e neste percurso, descobrirá valores que o dinheiro não compra, bem como perceberá que o mesmo pode corromper as pessoas. Ao leitor, um questionamento: clichê, não?

Como já abordei em outras reflexões cinematográficas, nada contra o clichê, contanto que os realizadores saibam “capitalizar” em torno de boas ideias. A protagonista é engajada, se esforça, mas não consegue vencer as armadilhas de um roteiro mediano e muito caricato. Obviamente, a caricatura é proposital, tendo em mira a aproximação do público alvo, haja vista o feixe de situações tipicamente “reais” encontradas ao longo da jornada da heroína: ônibus lotado, necessidade de baldeação para chegar ao emprego, ambiente de trabalho opressivo, vida sem perspectiva, dentre outras mazelas da vida dos trabalhadores assalariados de nosso país.

Para dificultar a vida da personagem, Selminha não pode ter bens em seu nome e possui uma taxa de apenas 5% para doações e jogos de azar. Ao trafegar na via da comédia, o filme se revela uma versão feminina de O Suburbano Sortudo, mas menos ofensivo e mais interessante. A moral, “se é que há alguma nesta história” é a seguinte: o dinheiro corrompe e a honestidade é uma característica intrínseca aos pobres e oprimidos.

Como membros da sua equipe de apoio, Selminha vai contar com uma dupla de personagens que variam trejeitos de outras atuações no cinema e na televisão: Fabiana Karla e Marcus Majella. Os atores conseguem segurar bem e dar dignidade aos frágeis papeis, mas a obviedade de suas cenas não permite que ambos brilhem devidamente. Majella é o caso mais interessante: ao observar o ator, nos perguntamos se será possível, algum dia, livrar-se da imagem de Ferdinando, do Vai Que Cola, e entregar-se a outras possibilidades dramáticas. A própria Samantha Schmutz parece uma versão mais pobre de Jéssica, personagem oriunda do mesmo universo de Majella.

Assim, mais adiante, ao perceber que a personagem gastou horrores em festas, banquetes, baladas, mas não conseguiu gastar o suficiente para vencer o desafio ao final do prazo, os envolvidos decidem criar uma campanha política e coloca-la como candidata de última hora para a prefeitura do Rio de Janeiro. O seu rival é o candidato caricato Falácio (interpretado com muita segurança pelo divertido Marcelo Adnet), um homem que representa a ascensão da bancada evangélica no cenário político brasileiro, numa espécie de variação de Bolsonaro e outros candidatos do mesmo quilate (spoiler? Não! Tudo isto está ainda mais escancarado no trailer da produção, não é preciso se preocupar).

Última aparição de Marília Pêra no cinema, antes da sua morte em 2015, os 100 minutos de duração de Tô Ryca ganham pontos por não tratarem do tema com escatologia e ter algum senso crítico ao abordar questões políticas numa época tão tenebrosa, entretanto, perde bastante ao reprisar temas já popularizados na Sessão da Tarde desde os anos 1980, afinal, o filme é claramente uma versão brasileira de Chuva de Milhões, comédia estadunidense com a mesma estrutura: troque Selminha por um homem, o Rio de Janeiro por Nova York e encontre a mesma história.

Tô Ryca Brasil, 2015. 
Direção: Pedro Antônio.
Roteiro: Fil Braz.
Elenco: Samantha Schmutz, Anderson Di Rizzi, Fabiana Karla, Marcus Majella, Marcelo Adnet, Marília Pêra, Katiuscia Canoro, Marcelo Mello Jr.
Duração: 85 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.