Crítica | To The Moon

estrelas 5,0

Um jogo simples, sem escalas épicas, sem orquestras, sem grandes batalhas. Apenas uma história a ser contada sobre um homem à beira da morte e suas memórias.

Com gráficos ao melhor estilo Dragon Quest, Final Fantasy e Chrono Trigger, produzidos na engine do programa RPG Maker XP, To the Moon mostra toda a importância de uma boa história em jogos de vídeo game. A nostalgia dos 16-bit se encaixa perfeitamente com o maravilhoso enredo do jogo, dividido em três atos bem elaborados.

Controlando Dra. Eva Rosalene e Dr. Neil Watts, dois profissionais da sugestiva Sigmund Corps, o jogador tem como objetivo realizar o último desejo de seu paciente, Johnny, um homem idoso que mora em uma casa isolada em um penhasco. Evidentemente, o pedido de Johnny é ir à lua. O problema é que o próprio protagonista não sabe o porquê de tal vontade, e assim começa a jornada para descobrir seus motivos e como se efetivará tal pedido.

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A ideia do jogo é criativa e bastante divertida. Entrando na mente de Johnny, graças a uma nova tecnologia, os dois doutores devem buscar, por meio de lembranças marcantes das diversas fases da vida do paciente, a razão do desejo de Johnny, para então poderem modificar algum ponto específico de sua memória e muda-la, adicionando a ida à lua e cumprindo, assim, o seu dever profissional. Começa-se, portanto, da fase adulta do protagonista para, aos poucos, haver a regressão até sua infância. Cada parte de sua vida é uma fase do jogo.

A ótima premissa mostra todas as tocantes mudanças e experiências que transformaram o modo de ser de Johnny, deixando o jogador com o coração apertado ao ver todo o relato de uma vida de objetivos esquecidos, perdas, alegrias, compromissos, relacionamentos singelos, encontros e desencontros… não vou soltar nenhum spoiler pois o grande mérito do jogo consiste justamente em seu enredo, mas é fácil dizer que é impossível não se identificar com a narrativa contada pela Freebird Games, permeada pelo sutil som do piano de Laura Shigihara e Kan Gao (também diretor do estúdio), que lembra Coeur de Pirate e a incrível trilha de Child Of Light.

A sinceridade da relação de John e River, sua esposa, pode ser considerada uma das mais belas já contadas nesse tipo de mídia. Até pela dificuldade de acessar algumas memórias e saber o que de fato aconteceu em seu passado, a curiosidade pela vida de John só aumenta conforme o game revela alguns de seus encontros. Testemunhar tudo pela pele dos doutores é vivenciar uma excelente história, que ganha contornos complexos pelas suas relações humanas mais ordinárias, como ir ao cinema ou à escola.

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O game não funcionaria, porém, se não fosse pela empatia criada pela dupla de doutores. Eva tem uma personalidade mais leve, a princípio, enquanto Neil é o típico pragmático, de mal com a vida, mas que encanta por ser o nerd que todo jogador vai se identificar. Referências à Dragon Ball Z, Street Fighter, Hulk, Matrix e Doctor Who são verdadeiros pequenos fan services muitíssimos bem colocados, dando um tom suave de humor que permanece por todo o game.

A mecânica, basicamente, se fundamenta no controle dos dois durante as memórias de Johnny na busca por mementos que permitem abrir outras memórias, passadas. Ao descobrir tais objetos, deve-se resolver um pequeno puzzle, muitíssimo acessível, que serve mais para criar alguma interação distinta do que realmente como um desafio.

Sustentado em um roteiro brilhante, com diálogos bem escritos e uma jogabilidade que encaixa com o espírito de conto melancólico do game, To the Moon é um jogo inesquecível. Não à toa venceu Portal 2 e Catherine como melhor história na Game Awards em 2011. Trata-se de um exemplo perfeito de como uma história, no formato de game, pode gerar em seus leitores uma avalanche de emoção e beleza em traços aparentemente modestos.

To the Moon
Desenvolvedor: Freebird Games
Lançamento: 1 de novembro de 2011
Gênero: Aventura
Disponível para: PC

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.